Ativistas desafiam proibição de geladeiras comunitárias

Louise Osborne (ca)

Por volta de um terço dos alimentos do mundo acaba no lixo. Cooperativas como Foodsharing em Berlim tentam impedir que comida seja desperdiçada. No entanto, resistência governamental ameaça futuro da iniciativa.

O cheiro de pãezinhos e rolos de canela emana de uma padaria no bairro berlinense de Prenzlauer Berg. É hora de encerrar o expediente. Os funcionários limpam as mesas, enquanto duas jovens recolhem os pães que sobraram, colocando-os em sacos delicadamente.

Sina Maatsch e Franziska Thiel não são clientes, elas fazem parte da Foodsharing (compartilhamento de comida, em inglês), uma iniciativa dedicada a pôr um fim ao desperdício de alimentos.

"É assustador quanta comida é colocada no lixo", afirma Thiel. Ela se diz preocupada com tudo isso. "Se eu puder salvar ao menos 1% dos alimentos, então já dou um passo nessa direção e também ajudo muita gente que não tem que passar fome."

Na Alemanha, cada pessoa desperdiça por volta de 81 quilos de comida anualmente. Os chamados "foodsavers" (poupadores de alimentos) registrados na cooperativa tentam fazer com que isso não aconteça. Mas o futuro da iniciativa berlinense pode estar ameaçado.

Proibindo a partilha de alimentos

Todos os dias, os poupadores de alimentos vão a lojas, padarias e supermercados pela cidade para apanhar as sobras - comida que não foi vendida ou cujo prazo de validade vai acabar em breve.

Os membros da iniciativa podem escolher se preferem eles mesmos usar os alimentos ou entregar a comida para outras pessoas. Há também a possibilidade de levá-la para uma das quase 25 geladeiras e armários comunitários na cidade. Desde que a cooperativa foi fundada em 2012, a iniciativa afirma ter "salvado" quase uma tonelada de alimentos somente em Berlim.

Ações de compartilhamento de alimentos também têm tido sucesso em outros países, inclusive EUA e Reino Unido. O modelo de usar refrigeradores foi copiado na Espanha pela iniciativa geladeira comunitária, apoiada pelo prefeito de Galdakao, na região do País Basco.

Mas, em Berlim, as autoridades afirmam que as geladeiras compartilhadas são classificadas como comércio alimentar, já que são públicas. Isso significaria que elas teriam de cumprir as diretrizes da União Europeia (UE) - que estão sendo agora aplicadas pela Central de Proteção ao Consumidor em Berlim.

Público ou privado?

Do lado de fora de Machmit!, um museu infantil próximo à padaria, Maatsch balança o cadeado que tranca agora um refrigerador sob a arcada de uma antiga igreja. Antes, era aberto à comunidade, mas foi fechado em dezembro.

Maatsch explica que, devido ao fato de todos os membros da Foodsharing serem voluntários, é impossível seguir os regulamentos da UE referentes ao comércio alimentar. "Estas novas regras aprovadas podem significar o fim das nossas geladeiras e armários comunitários, porque as condições são muito rígidas - rigorosas demais, em minha opinião", diz Maatsch à DW.

Tais condições incluem a existência de uma pessoa que seja responsável e documente tudo que é colocado e retirado da geladeira. "Sabemos o quanto esses refrigeradores são usados, então não somos capazes de fazer isso", explica a ativista.

A cooperativa está resistindo e iniciou uma petição que já angariou mais de 16 mil assinaturas. Legalmente, Maatsch e outros membros da iniciativa argumentam que os refrigeradores e armários são privados e, assim, não devem ser sujeitos a tais diretrizes.

Questão de saúde pública

Sentada à sua mesa, cercada por plantas em seu escritório no bairro berlinense de Schöneberg, a responsável pela Secretaria de Proteção ao Consumidor da Alemanha, Sabine Toepfer-Kataw, diz ter recebido, nas últimas semanas, mais de mil emails criticando a decisão de cumprimento das diretrizes que levaram ao fechamento de alguns dos refrigeradores comunitários. Ela afirma que tenta responder o maior número possível deles.

Toepfer-Kataw defende a decisão. Ela explica que a intenção do governo não é impedir a iniciativa de compartilhamento de alimentos, mas proteger a saúde pública. Pessoas que trabalham na indústria alimentícia têm de saber de onde vem a comida que estão oferecendo, afirma.

"É preciso haver alguém que seja responsável", diz a secretária. "Se houver algo estragado em algum dos refrigeradores, tanto as autoridades sanitárias quanto a pessoa que levou a comida têm que ter alguém que possam contatar", justifica Toepfer-Kataw. "Estas regras se aplicam a todas as empresas alimentícias."

O futuro do compartilhamento de alimentos

O problema de encontrar uma forma de não desperdiçar comida é algo com que comunidades, grupos de ativistas e autoridades têm se deparado.

Na sequência de uma iniciativa cidadã francesa, o governo do país aprovou recentemente uma lei proibindo supermercados de jogar fora comida que não foi vendida. Os ativistas esperam fazer com que a UE adote uma legislação similar.

De volta à padaria, Sina Maatsch e Franziska Thiel agradecem aos comerciantes pelas sobras que podem levar. No futuro, se todas as geladeiras comunitárias da cidade forem fechadas, pãezinhos e rolinhos como aqueles podem acabar no lixo.

Maatsch explica, no entanto, que mesmo que não se possa chegar a uma solução, ela acredita que o compartilhamento de comida vai continuar de alguma forma. "No momento, não há alternativa - não existe lugar onde se possa trocar alimentos ou para onde alguém possa trazer sobras de comida. Isso está simplesmente em falta na Alemanha."

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