Hieronymus Bosch ganha sua maior retrospectiva

Carlos Albuquerque / Sabine Oelze

Exposição na cidade natal, 's-Hertogenbosch, é ponto alto das celebrações dos 500 anos da morte do pintor holandês, cujas obras guardam mistérios que vão para além do bem e do mal.

Em 9 de agosto de 1516, os sinos da catedral de 's-Hertogenbosch dobraram para anunciar a morte de um mestre. Em 2016, 500 após o seu falecimento, o fantástico mundo pictórico de Hieronymus Bosch é ressuscitado.

A mostra Hieronymus Bosch - Visões de um gênio, inaugurada na cidade natal do pintor, 's-Hertogenbosch, é o ponto alto das comemorações do quinto centenário da morte do artista holandês. Monstros e demônios, santos e prostitutas voltam para o lugar onde tudo começou.

Pela primeira vez depois de cinco séculos, as obras-primas "voltam para casa", afirmou orgulhoso Charles de Mooij, diretor do Museu da Província do Brabante do Norte (Noordbrabants Museum), que abriga a exposição.

Colecionadores e museus da Europa e dos Estados Unidos colocaram 17 pinturas e 19 desenhos à disposição - de um total de cerca de 45 quadros produzidos pelo artista. A mostra foi inaugurada na semana passada pelo rei da Holanda, Willem Alexander, e poderá ser visitada até 8 de maio de 2016. Depois ela vai para o Museu do Prado, em Madri.

Obras por pesquisa

Entre as obras expostas em 's-Hertogenbosch estão O carro de feno, do museu madrilenho; A nau dos insensatos, do Museu do Louvre, de Paris; e As visões do além, da Galleria dell'Accademia, de Veneza.

Nenhum dos trabalhos da maior exposição de todos os tempos sobre o pintor holandês está permanentemente em sua cidade natal. Resta a pergunta de como e por que os maiores museus do mundo deveriam enviar algumas das peças mais importantes de seu acervo para a cidade na província holandesa. "Nós não tínhamos nada a oferecer", afirmou Mooij. Mas então os holandeses fizeram uma oferta tentadora.

Há nove anos teve início o projeto de pesquisa e restauração mais abrangente da obra completa de Hieronymus Bosch. Em contrapartida, museus e instituições se dispuseram a emprestar os seus principais trabalhos. Os pesquisadores puderam resolver muitos enigmas. Um deles foi o reconhecimento da autoria de uma pintura.

A tentação de Santo Antônio passou anos no depósito de um museu em Kansas City, nos EUA. Agora, o quadro é "uma das pérolas da exposição", como disse o diretor. Mas um mistério ainda permanece. "Na realidade, pouco sabemos sobre o próprio artista", afirmou o historiador da arte Matthijs Ilsink, um dos curadores da mostra.

Toda uma vida em 's-Herzogenbosch

O pintor holandês não viajou muito: durante toda a sua vida, ele nunca deixou a sua cidade natal. Bosch nasceu em 1450 como Hyeronimus van Aken em 's-Hertogenbosch, onde também morreu em 1516. Não se sabe a partir de quando ele assumiu a profissão de pintor. Ele colocou a sua assinatura pela primeira vez em 1487/88 no quadro São João em Patmos, que faz parte do altar na capela de Fraternidade de Nossa Senhora na imponente catedral de Sint-Jans in s'Hertogenbosch.

O que também se sabe é que Bosch pertencia a uma dinastia de pintores, os Van Akens, e que ele já era famoso em vida. Isso explica por que ele era membro da Fraternidade de Nossa Senhora - um privilégio reservado para os nobres. Não se conhece, no entanto, a sua aparência, o local de seu túmulo ou se ele teve filhos. A data da sua morte - 9 de agosto de 1516 - é dada como certa.

No século 15, Den Bosch, como os holandeses chamam a cidade natal do pintor, era uma próspera cidade comercial. Mesmo assim, os moradores estavam ameaçados por coisas terríveis, como a peste, a fome, ladrões - além das tentações terrestres. Esses foram os temas de Bosch. "Mas ele também mostrou que as próprias pessoas eram responsáveis por sua salvação", afirmou Ilsink.

Temores do céu e da terra

Com graça e humor, Hieronymus Bosch retratou os medos das pessoas da Idade Média. Hoje em dia, as alegorias em suas pinturas talvez sejam difíceis de decifrar, mas os contemporâneos de Bosch certamente conheciam o significado mais profundo de cisnes, funis, sapos ou bebedeiras.

Bosch tentava escapar da realidade insuportável da Idade Média? Sim e não. Ele a representava e, ao mesmo, mostrava aos seus contemporâneos um caminho de saída: optar pela fé, ou seja, por Deus.

Na parte superior do tríptico O carro de feno, por exemplo, Jesus flutua sobre uma nuvem, enquanto abaixo dele pobres e ricos disputam o maior quinhão de feno como se fosse ouro. A obra é inspirada num provérbio flamengo: "A vida é como um palheiro; cada um tenta pegar para si o máximo possível".

Na parte esquerda do tríptico, vê-se o Jardim do Éden; no lado direito, o inferno, com todos os seus condenados, hermafroditas e demônios. Com essa obra, Bosch parece dizer aos observadores que cada um é responsável pelo seu destino. Só que, em vez de cuidar dele, os seres humanos preferem brigar por ninharias. Bosch gostava de zombar das pessoas de seu tempo: em suas pinturas, elas sempre irradiam certa estupidez.

Mostra imperdível

No entanto, O jardim das delícias, um dos quadros mais importantes do pintor, não foi emprestado ao museu holandês pelo Museu do Prado. El Bosco, como os espanhóis chamam Bosch, será honrado em Madri com uma grande exposição em meados do ano.

Porém, uma mostra como Hieronymus Bosch - Visões de um gênio não deve se repetir tão cedo. Quem puder não deve perder a oportunidade de visitar uma exposição tão abrangente da obra do enigmático artista holandês.

Pois, como artista, Bosch cumpriu uma das tarefas mais importantes de sua profissão: segurar um espelho para o mundo.

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