"Esforço da ONU em coibir abuso sexual por capacetes azuis não é confiável"

Azer Slanjankic (av)

Há 15 anos, Kathryn Bolkovac esbarrou nas estruturas da ONU ao investigar exploração sexual de mulheres por oficiais na Bósnia. Diante do atual escândalo na África Central, ela não vê mudanças na conduta da organização.

A ex-policial americana Kathryn Bolkovac foi contratada em 1999 pela DynCorp Aerospace para um cargo na Organização das Nações Unidas, com o fim de investir contra o abuso sexual e a prostituição forçada na Bósnia-Herzegovina, depois da guerra dos Bálcãs.

Ela encontrou provas de que alguns oficiais da ONU estavam participando do tráfico de moças do Leste Europeu para fins de escravidão sexual. Ao tentar investigar os casos, foi despedida. No entanto, venceu o processo por demissão injustificada contra a empresa empregadora.

O engajamento de Bolkovac foi reconhecido com uma indicação para o Prêmio Nobel da Paz em 2015. Sua história, contada em livro, serviu como base para o filme A informante, de 2010, dirigido por Larysa Kondracki e estrelado por Rachel Weisz.

A DW a entrevistou sobre os paralelos entre suas experiências na Bósnia e as atuais acusações de abuso sexual por capacetes azuis na África, enfocando em especial a conduta das Nações Unidas. Bolkovac é cética: "Não considero confiáveis, em absoluto, os esforços da ONU nos últimos 15 a 20 anos para coibir efetivamente o abuso sexual de mulheres e menores durante as missões de paz."

DW: Há quem vá querer afirmar que seja um caso isolado o escândalo sobre supostos abusos sexuais de mulheres e garotos por soldados da missão de paz da ONU na República Centro-Africana. Como foram suas vivências como ex-ativista dos direitos humanos na Força-Tarefa Internacional de Polícia na Bósnia-Herzegovina?

Kathryn Bolkovac: O que aconteceu às vítimas de tráfico humano na Bósnia, nos anos 1990 até 2000, é bem semelhante ao escândalo na África Central. Especificamente o abuso de populações vulneráveis por organizações criadas para a proteção e comprometidas com ela. Isso, e os escândalos continuados em torno das fracassadas tentativas das Nações Unidas - dissimuladas, e agora declaradas - de remover, neutralizar e desacreditar os que expuseram os atos da organização. Os termos "acobertamento" e "whistleblower" [informante] são comuns dentro dos muros da ONU e nas suas missões de paz.

Eu fiquei ciente dos casos de abuso sexual na República Centro-Africana no ano passado, durante consultações com peritos internacionais ligados à Campanha Code Blue com o fim de considerar qual seria a melhor maneira de desmascarar e dar fim à prática persistente da ONU.

O que costumava ser cumplicidade por parte da ONU, fazendo vista grossa, se revelou um monstro de um olho só, ostensivamente impedindo a devida investigação e persecução penal dos crimes cometidos pelos capacetes azuis. A cortina de fumaça ainda consiste em inculpar os Estados-membros e alegar que a ONU não tem controle sobre medidas disciplinares ou ações penais contra os capacetes azuis dos países contribuintes. Até certo ponto, isso é verdade.

Que casos encontrou na Bósnia?

Houve muitos casos, mas nunca foram levados a julgamento. Moças da Romênia, Ucrânia, Moldávia e outros países do Leste Europeu eram trazidas para servir à ONU e às bases militares como escravas sexuais. Os casos envolveram oficiais de diversos países, incluindo os Estados Unidos, Paquistão, Alemanha, Romênia e Ucrânia, contratados do governo e membros do crime organizado local. Os investigadores de direitos humanos nunca tiveram permissão para investigar plenamente, os suspeitos foram logo removidos da missão ou transferidos para outras. As jovens foram simplesmente enviadas de volta aos países de origem.

Os oficiais da ONU sabiam que as jovens eram vítimas de tráfico humano?

Tráfico humano não era, na verdade, um termo muito difundido em 1999 e 2001. Acho que a maioria dos oficiais considerava essas meninas meramente prostitutas. Mas elas foram contrabandeadas de outros países para a Bósnia e forçadas a praticar atos sexuais. Muitas sabiam que poderiam acabar nessas condições, mas a maioria não tinha realmente uma opção, diante das condições econômicas em seus países e do desespero para sobreviver.

Os funcionários dos escalões mais altos da ONU sabiam disso?

Certamente sim, porque eu submeti os meus relatórios a eles, assim como ao órgão de supervisão administrativa. Isso foi bem documentado. Muitos altos funcionários estavam sabendo, até mesmo Jacques Klein, o coordenador da missão da ONU na Bósnia.

Houve algum tipo de queixa ou inquérito contra os oficiais remanejados?

Não, nenhuma. Nunca se apresentaram queixas porque não se permitiu que as investigações fossem concluídas. Essa é razão por que eu fui afastada e demitida do meu emprego, por estar tentando investigar esses casos. Depois disso, eu levei a DynCorp a juízo, no Reino Unido, e ganhei a causa por afastamento injustificado.

A DynCorp, a companhia para a qual a senhora trabalhava, sofreu alguma desvantagem nos negócios com a ONU, depois que o tribunal decidiu que a senhora só tinha perdido o emprego por tentar investigar os casos?

Não, não sofreu. A ONU continua a trabalhar com ela, o governo dos Estados Unidos também. A DynCorp ficou cada vez maior, a cada ano.

Quais são as possíveis causas desse tipo de comportamento dos oficiais nas missões da ONU?

Acho que há muitas causas. Em parte é porque muitos perdem de vista a própria moral, quando estão a 8 mil quilômetros de casa e acham que nunca vão ser apanhados. Aí eles veem que, se forem apanhados, nada de muito grave vai acontecer com eles.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, indicou a especialista em segurança Jane Holl Lute para coordenar a reação da organização às alegações de abuso sexual pelos capacetes azuis. Depois de tudo por que passou, a senhora acha que os esforços da ONU são confiáveis?

Não acho que os esforços da ONU nos últimos 15 a 20 anos sejam confiáveis, em absoluto, no que diz respeito a tentar coibir efetivamente o abuso sexual de mulheres e menores durante as missões. Eles ainda se recusam a enviar equipes de investigação adequadas em campo, e certamente ainda estão tentando acobertar as coisas. Todo esse discurso que eles estão fazendo é na verdade, só discurso, e está claro que os altos funcionários vão acobertar os fatos só para salvar a própria reputação, em vez de fazerem o que é certo.

O que deveria mudar na política da ONU para que se reprima o abuso sexual nas missões internacionais?

Não acho que se possa simplesmente começar a fazer mudanças sem trocar os funcionários administrativos de alto nível. A responsabilização não ocorre em nenhum nível da ONU, ela fica nas mãos dos Estados-membros. Enquanto os países não disciplinarem e processarem os indivíduos que enviam para as missões, a ONU tampouco o fará. Ela se eximiu dessa parte da disciplina e responsabilização, ela confia que os membros vão se encarregar. Está na hora de os países-membros assumirem o controle das Nações Unidas e darem fim ao "jogo da culpa".

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