Polícia turca invade maior jornal do país

Tribunal passa controle de periódico crítico ao governo para administrador público. Manifestantes tentam impedir invasão e são dispersos com violência. Organizações internacionais condenam medida.

A polícia turca usou gás lacrimogêneo e jatos d'àgua para dispersar manifestantes que tentavam impedir nesta sexta-feira (04/03) que as autoridades assumissem o controle do jornal de maior circulação no país, o Zaman, de posição crítica ao governo do presidente Recep Tayyip Erdogan.

A polícia invadiu a sede do Zaman, após a decisão de um tribunal de Istambul que ordenou que a administração do grupo de mídia fosse passada para uma gestão pública escolhida pelas autoridades. O jornal é acusado de ligação com o líder islâmico e opositor do presidente turco Fethullah Gülen. A medida também afeta a versão em inglês do periódico e uma agência de notícia do grupo.

Centenas de pessoas se reuniram em frente à sede do jornal para protestar contra a decisão. O editor-chefe do jornal, Abdulhamit Bilici, afirmou, após o anúncio do tribunal, que era "um dia negro para a democracia" na Turquia.

"Se tornou um hábito nos último três, quatro anos. Todos que se manifestam contrários às políticas do governo enfrentam processos judiciais, prisão ou o controle do governo", disse Bilici. O Zaman é o jornal mais vendido na Turquia, com uma circulação diária de 650 mil exemplares.

A decisão foi condenada por organizações internacionais de direitos humanos. "Vejo uma interferência séria na liberdade de imprensa que não deveria ocorrer em uma sociedade democrática. Essa é a mais recente restrição inaceitável e indevida da liberdade de impressa na Turquia", afirmou o comissário de Direitos Humanos do Conselho da Europa, Nils Muiznieks.

A organização Repórteres sem Fronteiras criticou duramente a medida e acusou Erdogan de estar "se movendo do autoritarismo para o despotismo completo".

"Estrutura paralela"

Gülen, que já foi um apoiador de Erdogan, entrou em guerra com o governo em 2013, quando promotores iniciaram uma investigação de corrupção envolvendo pessoas próximas ao presidente turco.

Desde então, Erdogan acusa Gülen de ter influência em tribunais, na polícia e na mídia, formando uma "estrutura paralela" com o propósito de derrubar o governo. Vários policiais e oficiais de Justiça, suspeito de ligação com Gülen, foram afastados. Exilado nos Estados Unidos desde 1999, o opositor nega as acusações.

CN/rtr/ap

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