Após intervenção do governo, jornal turco muda linha editorial

Agora sob controle estatal, diário "Zaman" adota linha pró-governo e publica artigo sobre ambicioso projeto de construção de ponte sobre o Bósforo. Jornalista diz que edição não foi feita pela equipe da publicação.

O diário turco Zaman, crítico ao presidente Recep Tayyip Erdogan, publicou neste domingo (06/03) a sua primeira edição desde que foi colocado sob intervenção estatal e exibiu uma linha claramente pró-governo. A publicação, com tiragem diária de 650 mil exemplares, é a de maior circulação no país.

A capa do jornal mostra um artigo sobre um ambicioso projeto do governo para a construção de uma ponte sobre o estreito de Bósforo, em Istambul, ligando as partes asiática e europeia, que vai custar mais de 3 bilhões de euros.

Há também uma foto de Erdogan segurando a mão de uma idosa, anunciando uma recepção no Palácio Presidencial em homenagem ao Dia da Mulher e, ainda, a notícia sobre um funeral de "mártires" mortos em confrontos com rebeldes curdos no sudeste da Turquia.

"A internet foi cortada e não podemos usar o nosso sistema", afirmou um dos jornalistas do diário. "A edição de domingo não foi feita pela equipe do Zaman."

A edição de sábado, impressa antes de um tribunal de Istambul informar na sexta-feira a decisão de estatizar o diário, trouxe uma capa completamente preta com a manchete "Dia vergonhoso à imprensa livre na Turquia".

A medida da Justiça provocou no sábado protestos de grupos de direitos civis, políticos da União Europeia e levou centenas de manifestantes às ruas da metrópole turca. A polícia usou gás lacrimogêneo, canhões d'água e balas de borracha contra a multidão de manifestantes em frente aos escritórios do jornal.

"Decisão da Justiça"

O primeiro-ministro Ahmet Davutoglu defendeu o procedimento contra o jornal Zaman, afirmando que houve uma decisão independente da Justiça. Durante uma visita de Estado ao Irã, Davutoglu afirmou que as medidas seriam "certamente não um procedimento político, mas legal".

Ele disse, ainda, que a Turquia é um Estado de direito e, por isso, "está fora de questão para mim ou qualquer um dos meus colegas interferir neste processo".

O grupo Zaman, também dono das agências de notícias Cihan e do jornal editado em inglês Today's Zaman, é conhecido por posições próximas ao do imã Fethullah Gülen, acusado pelo governo de tentar criar um "Estado paralelo" na Turquia usando sua influência no Judiciário e na polícia. Atualmente, ele está em exílio nos EUA.

O movimento de Gülen foi um aliado próximo de Erdogan até 2013, quando veículos de imprensa ligados ao líder religioso se juntaram às vozes que acusavam Erdogan, então primeiro-ministro, de corrupção. Desde então, Gülen é acusado de liderar um movimento terrorista que quer derrubar o governo.

FC/rtr/ap/afp/ldpa/usa/efe

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