"Fukushima poderia ter causado 30 anos de caos", diz ex-premiê japonês

Gabriel Dominguez (av)

Tragédia de março de 2011 mudou radicalmente opinião que o então primeiro-ministro Naoto Kan tinha sobre a energia nuclear. "Ela é a forma mais perigosa de produção, e o risco é grande demais", afirma em entrevista à DW.

Em 11 de março de 2011, um terremoto de magnitude 9 e o subsequente tsunami causaram sérios danos aos reatores da usina nuclear Fukushima-Daiichi, no litoral leste do Japão. No dia seguinte começaram uma série de explosões e incêndios, com vazamento de material radioativo, forçando a evacuação num raio de até 30 quilômetros, com o desalojamento de cerca de 200 mil pessoas.

Na sequência do desastre, o país inicialmente se afastou da produção termonuclear de eletricidade. Há cerca de um ano, contudo, o primeiro-ministro Shinzo Abe anunciou a intenção de voltar a ligar gradativamente os reatores do país.

Naoto Kan, do Partido Democrático do Japão (DPJ), era o primeiro-ministro japonês quando a tragédia aconteceu. Ele permaneceu no cargo de 8 de junho de 2010 a 2 de setembro de 2011. Em entrevista exclusiva à DW, ele revela como a catástrofe alterou a visão que tinha da energia atômica e dos perigos que ela envolve.

"Considero a energia nuclear a forma mais perigosa de produção de energia, e o risco é grande demais para se continuar empregando essa técnica." Em nível nacional e internacional, Kan se empenha em propagar sua defesa das fontes renováveis, numa luta em que a reforma energética em curso na Alemanha serve como exemplo e inspiração.

DW: O que o Japão deveria ter aprendido com o desastre nuclear de Fukushima, e o que aprendeu de fato?

Naoto Kan: Infelizmente tenho a impressão de que nem os especialistas japoneses nem a população tiraram lições suficientes da catástrofe. Se o acidente tivesse tido proporções apenas um pouco maiores, teria sido preciso evacuar os habitantes num raio de 250 quilômetros, por um longo prazo. Isso afetaria a área de Tóquio e, portanto, 50 milhões de pessoas. Danos tão colossais normalmente só ocorrem depois de uma derrota bélica avassaladora.

Porém muitos especialistas e cidadãos japoneses fecham os olhos diante desse enorme risco: eles ou não querem pensar no assunto, ou querem esquecê-lo o mais depressa possível. Esse é o clima generalizado.

Como a crise de Fukushima alterou sua visão da energia nuclear e seus riscos, em especial num país exposto a abalos sísmicos como o Japão?

Antes da catástrofe, eu acreditava que, no Japão, não fosse possível um acidente atômico grave, pois a nossa tecnologia é muito avançada. Eu achava que bastava lidar com ela de maneira cuidadosa. No entanto houve o grave acidente com os reatores de Fukushima, e mais de 200 mil pessoas tiveram que ser evacuadas. Bastaria a gravidade ter sido um pouquinho maior para precipitar o país no caos pelos próximos 20 a 30 anos.

O acidente mudou minha visão fundamentalmente. Considero a energia nuclear a forma mais perigosa de produção de energia, e o risco é grande demais para se continuar empregando essa técnica. Eu tento propagar esse ponto de vista da melhor forma possível, dentro e fora do país.

O que acha do plano de Abe de recolocar em funcionamento os reatores nucleares no Japão? O país está pronto para esse passo?

Sou contra a reativação dos reatores japoneses. Por um lado, pelo fato de ainda não terem sido devidamente investigados os motivos exatos do acidente de Fukushima e suas vastas consequências. Por outro lado, com a retomada da energia termonuclear aumenta o perigo de um novo acidente.

Há no Japão uma alternativa real para a energia nuclear, neste momento?

No momento não se produz nenhuma energia atômica, e no entanto estamos suficientemente abastecidos com eletricidade. A produção energética parte hoje principalmente do petróleo e gás natural, mas, no longo prazo, seria possível uma reorientação para as fontes renováveis, como a solar ou eólica.

Em seguida à catástrofe atômica, eu encaminhei uma lei de apoio às energias alternativas, que prevê preços fixos para o fornecimento à rede da eletricidade produzida de forma alternativa. Depois disso cresceu enormemente o número dos fornecedores comerciais dispostos a produzir energias alternativas. Por isso estou convencido de que, dentro de dez anos, seremos capazes de produzir tanta ou mais eletricidade do que antes, com as usinas atômicas.

Diz-se que o lobby atômico japonês tem forte influência sobre a política e a mídia. Qual é sua opinião a respeito?

Antes da catástrofe de Fukushima, muitos japoneses acreditavam que a energia atômica fosse barata e segura. Contudo agora ficou óbvio que as centrais nucleares são perigosas, e seus custos, altos em relação a outras formas de energia.

Na verdade, essa constatação deveria bastar para que se abandone a energia atômica. Contudo a indústria do setor não estava disposta a renunciar aos privilégios e margens de lucro que tinha até então, e influenciou políticos e mídia através de campanhas. Assim, hoje, mais da metade do povo japonês é a favor do abandono da energia nuclear, mas não a maioria dos deputados no Parlamento. Eu quero mudar isso, e me engajo contra o poder do lobby atômico.

As medidas de segurança contra catástrofes naturais nas usinas japonesas foram aprimoradas? Como vê o problema do depósito definitivo para os resíduos atômicos?

Foram adotadas medidas de segurança adicionais contra catástrofes naturais. Por exemplo, a elevação dos geradores de emergência, que em Fukushima estavam localizados baixo demais; ou a construção de muros de proteção mais altos. Mas isso não basta, em absoluto. Pois uma das causas da catástrofe de Fukushima foi o colapso do abastecimento de eletricidade externo. Hoje em dia ainda pode acontecer, a qualquer momento, que postes de alta tensão tombem, devido a terremotos.

No Japão não há planos nem resoluções quanto ao um depósito definitivo de lixo atômico. Os bastões de combustível irradiados são geralmente armazenados em piscinas de estocagem nas proximidades dos reatores. O espaço nelas está apertado, e a questão do depósito final não foi esclarecida. Pode-se comparar a situação a uma moradia sem instalações sanitárias. Portanto, mesmo que se reativasse a usina, não haveria como eliminar os resíduos nucleares.

A Alemanha empreendeu uma reforma energética radical, depois de Fukushima, decidindo abandonar a energia nuclear. O Japão pode aprender algo com alemães, na transição da fonte termonuclear para as renováveis?

A afirmativa do lobby, de que a energia nuclear seria menos custosa do que o petróleo ou o gás natural, é inegavelmente falsa. Hoje, muitos especialistas também já admitem isso. Computadas as indenizações por acidentes ou os custos do depósito final, ela é mais cara que as fontes fósseis.

Semelhante à Alemanha, também no Japão a tecnologia para extração de energias renováveis está muito desenvolvida. Mas, infelizmente, só 20 anos depois da Alemanha nós estabelecemos tarifas fixas para a energia alternativa distribuída na rede. Isso foi em seguida à catástrofe de Fukushima.

Entretanto, nos mais de três anos desde então, já foram requeridas licenças para funcionamento de usinas alternativas e instalações eólicas e fotovoltaicas com capacidade total de 70 milhões de kilowatts/hora. Ou seja: nós começamos atrasados, mas queremos nos voltar para as fontes renováveis.

A Alemanha é um modelo com que podemos aprender: nela, muitos cidadãos participam da produção e desenvolvimento de energias renováveis, o que deu respaldo à política para decidir o abandono da energia termonuclear. Por esse motivo, quero saber mais sobre como os alemães chegaram a essa convicção e, por fim, a essa decisão.

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