"Estamos mortas, mas ainda respiramos"

Após os jihadistas chagarem e instituírem a lei islâmica, opressão e humilhação passaram a fazer parte do cotidiano das mulheres da cidade de Raqqa, transformada na capital do "Estado Islâmico" no nordeste da Síria.

Todo aspecto de uma vida normal desapareceu na cidade síria de Raqqa, no nordeste do país, após o domínio do "Estado islâmico" (EI). Alegria, felicidade e vivacidade foram substituídas pela escuridão. As roupas de homens e mulheres, as paredes, os edifícios, as bandeiras: tudo é escuro agora.

Depois de o EI impor sua estrita versão da sharia, a lei islâmica, as mulheres foram proibidas de usar qualquer peça diferente de preto. Todas as mulheres em Raqqa ficaram iguais. É possível até não reconhecer a própria irmã ou a mãe na rua. Mesmo perfumes e falar alto em público são ofensas passíveis de punição para as mulheres.

"Eu vivi toda a minha vida em Raqqa e aqui fui para a faculdade. A minha alma está ligada a esta cidade. Eu não era realmente liberal, mas tinha liberdade suficiente e nenhuma restrição, a não ser as normas sociais e tradições, e só no que dizia respeito às minhas roupas e estilo de vida. Eu não usava o véu islâmico e isso não era problema", lembra uma jovem de 25 anos, que pede para ser chamada de Hala.

Tudo mudou

Mas tudo isso mudou desde que a cidade foi capturada pelo EI, que também a fez capital do seu território, que se estende por partes da Síria e do Iraque.

O regime sírio perdeu o controle de Raqqa em 2013. Foi só depois que os jihadistas conseguiram expulsar outros grupos rebeldes armados que as restrições sobre as mulheres foram implementadas.

No início, elas foram obrigadas a usar véus islâmicos negros, chamados niqab, que cobrem a cabeça e o rosto, deixando apenas os olhos à mostra, juntamente com luvas pretas e um vestido preto solto.

Mas as coisas logo foram de mal a pior: as mulheres foram proibidas de usar perfume e falar alto nos mercados. As novas regras ditaram até a forma dos sapatos e a forma como uma mulher deve andar. Os jihadistas fecharam escolas e universidades, e as mulheres foram proibidas de deixar a cidade sem a companhia de um parente do sexo masculino. E eles também proibiram as mulheres de estudar fora da cidade.

"O grupo criou a Brigada al-Khansa, que tem a tarefa de procurar mulheres que violam essas regras, seja na rua ou em mercados ou até mesmo dentro de suas próprias casas", diz Hala. "Esta brigada é formada por imigrantes (mulheres estrangeiras que viajaram para a Síria para se juntar ao EI) e mulheres sírias que tinham má reputação, assim como por combatentes do EI, que parecem não ter mais nada a fazer do que interferir na vida das mulheres."

Hala lembra que ela foi advertida várias vezes por não estar vestida adequadamente, fazendo com que ela passasse a odiar ir para fora de casa. "Eu vi várias mulheres apanharem de vara no mercado, e algumas delas foram presas porque não estavam vestidas de modo islâmico."

Mudanças de normas e tradições

O EI não parou de alterar a vida das mulheres de Raqqa; ele também tentou mudar as normas e tradições da cidade para estarem em conformidade com a sua própria interpretação da lei islâmica. "Eu costumava sonhar em me casar com alguém por quem me apaixonasse, como qualquer garota normal. Mas agora as coisas mudaram, e para se casar, você precisa primeiro que a irmã ou a mãe do pretendente conheça você. Eu nunca poderia ver ou falar com ele sozinho. Só depois de me casar oficialmente, eu poderia vê-lo", explica Hala.

As opções da moça de 25 anos ficaram muito limitadas em Raqqa, enquanto solteira. Então, ela decidiu se casar, mesmo que isso significasse fazê-lo da maneira tradicional - como uma maneira de mudar sua vida.

Hala não está sozinha. Muitas jovens são obrigadas a se casar para buscar uma vida diferente e escapar do horror de se casar com um combatente do EI. Mas mesmo depois do casamento, os mercados permanecem proibidos, e simples caminhadas são impensáveis.

Tudo o que as mulheres de Raqqa podem fazer é respirar e permanecer vivas.

Presa e açoitada

Rim G. não vive muito longe da casa de Hala. Desde que o EI chegou ao poder, sua família viu sua situação financeira piorar bastante. Ela também foi forçada a se mudar, depois de um ataque aéreo destruir sua casa, matando um de seus irmãos.

"Eu moro com minha família e cinco irmãos. Eu fiz faculdade de literatura, mas só por um ano. O EI fechou a faculdade, e meus pais não têm condição de me mandar para outra cidade para eu continuar meus estudos", diz a jovem de 21 anos.

Em vez de escolas e universidades, o EI fundou os chamados "Fóruns para Moças Muçulmanas", onde elas aprendem as ideologias do grupo islâmico e como espalhar a sua mensagem. Eles funcionam também como centro de recrutamento para a Brigada al-Khansa e escritório de matrícula para as escolas de medicina e enfermagem que a brigada supervisiona. Lá, as mulheres aprendem a tratar os ferimentos e lesões dos jihadistas durante batalhas e bombardeios.

"Não podíamos fugir de tudo isso e, como irmã mais velha, eu fui forçada a procurar emprego. Eu trabalhava em uma loja de roupas para mulheres no centro de Raqqa, até que uma das patrulhas policiais da sharia invadiu a loja e prendeu a mim e ao proprietário, nos acusando de promiscuidade. Fomos, então, açoitados."

Uma mulher tem autorização para trabalhar com um homem de quem ela não é parente nem esposa. Tal coisa é considerada "promiscuidade" e é punida com flagelação e uma pena de prisão de três dias e um mês.

"Quando estávamos na prisão, eles nos xingavam das piores coisas que você pode pensar. Fomos espancados tão brutalmente que eu não consegui dormir de costas durante várias semanas", lembra-se Rim, ainda visivelmente abalada, enquanto seus olhos se enchem de lágrimas. "Eu sorrio em frente do espelho, como que para não esquecer como é."

Depois dessa experiência, Rim passou a odiar tudo em Raqqa e tentou fugir. Mas os postos de controle na periferia da cidade não permitem a saída de ninguém sem permissão especial da polícia da sharia.

Rim também tentou escapar através do campo, pelo norte da cidade, que é controlado pelos curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG) ou "EI de amarelo," como os locais os chamam. Mas lá também não conseguiu, porque não tinha alguém para responder por ela.

Agora, a jovem trabalha como costureira em casa, com sua mãe e irmã. "Eu parei de reconhecer os dias ou a comida. Mesmo sorrir se tornou raro para mim. Eu sempre fico na frente do espelho e sorrio, para não esquecer como se sorri. Sim, rir da minha desgraça. Estamos mortas, mas ainda estamos respirando."

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos