Opinião: Um papa entre a moral e a compaixão

Christoph Strack

"A alegria do amor", o novo documento divulgado por Francisco, não se trata de nenhuma revolução da doutrina moral da Igreja. Mas é, de fato, um tom inteiramente novo no Vaticano, opina o jornalista Christoph Strack.

Não, não é nenhuma revolução. Não, não se trata talvez nem mesmo de uma grande jogada. Ainda assim, é uma obra longa, que requer tempo de leitura. Seis meses após o Sínodo Ordinário da Família, que foi observado com tanta tensão, o papa Francisco apresentou os principais pontos do encontro, deixando mais do que claros aqueles que considera principais. São 325 pontos, em quase 200 páginas. Um texto muitas vezes bíblico, marcado pela espiritualidade.

Sim, trata-se de uma conversa diferente sobre o amor, sobre o relacionamento e a família, sobre suas belezas e dificuldades, daquela habitual na Igreja - trata-se de uma conversa sobre uma moral compreendida erroneamente. Algo considerado por Francisco como "uma fria moral de mesa de escritório". E, sim, o papa fala aqui e ali sobre "sexo" e "erotismo". Sem nenhuma experiência conhecida de relacionamento, o pontífice aborda ali, de forma virtuosa e calorosa, não tudo, mas muitos pontos.

Por muitos anos, tais documentos pós-sinodais cheiraram a: "Vocês falaram - agora eu escrevo". Na sequência das discussões dos encontros, o papa apresenta agora o seu curso. Francisco, que tanto se esforça em se ver como o primeiro entre muitas pessoas iguais, tenta agora reproduzir todas as preocupações e problemas notificados no Sínodo.

Isso se aplica às necessidades materiais de muitas famílias não somente em países do Sul, a questões educacionais e de pregação e ao aconselhamento matrimonial. O tratado abrangente, muitas vezes bem embasado espiritualmente, deixa ainda mais claro como é pouco abordado um tema que também os participantes do Sínodo não quiseram, de forma alguma, misturar com a família e o casamento: como lidar com a homossexualidade. Mais do que uma lástima.

E mesmo que Francisco sempre cite seus antecessores, posicionando-se assim conscientemente na tradição - por volta de 20 das 300 páginas são completamente novas e obra de um Papa. Vinte importantes páginas.

Logo no início de sua exortação apostólica, Francisco cita um de seus grandes princípios básicos e cheios de humanidade, "que o tempo vale mais que o espaço". Isso significa que "nem todas as discussões doutrinárias, morais e pastorais têm de ser decididas por uma intervenção magisterial". Uau! E: "Além disso, em qualquer país ou região, podem ser procuradas soluções da própria cultura, que observem as tradições e desafios locais. Mais uma vez: uau.

A essas passagens introdutórias, seguem-se palavras sobre as chamadas situações "irregulares", até agora excluídas pela doutrina eclesiástica. Trata-se principalmente de casais sem a bênção da Igreja e de "divorciados num novo relacionamento". Segundo Francisco, não se pode "esperar desse documento nenhuma nova regra canônica que possa ser aplicada a todos os casos".

Mas ele incentiva os sacerdotes a procurar caminhos. Pois, segundo o pontífice, não se pode mais afirmar que todas essas pessoas "se encontrem num estado de pecado mortal". Aqui, a grande palavra proferida por Francisco - "compaixão" - encontra o seu lugar. Um verdadeiro pastor não deve se contentar com a aplicação de leis morais, afirma o papa. "Na crença de que tudo é branco ou preto, bloqueamos às vezes o caminho da misericórdia", escreve Francisco.

Desde a Páscoa, há uma verdadeira enxurrada de advertências. Clérigos moderados e principalmente os estritamente conservadores advertiram, alertaram e exigiram: respeitar a doutrina de Cristo ou entender de forma errônea o atual documento papal. Pois, como resultado, ninguém mais está contente. Medo. Alguns temem em parte a própria coragem. Francisco não se deixou tomar por esse medo. Que bom.

O papa não conclama - o que realmente não era de se esperar - a uma revolução. Mas ele abre uma fresta, deixa entrar um pouco de ar fresco. O olhar sobre o tema da homossexualidade, com o qual Francisco impressiona por sua atitude aberta, mostra que há ainda muito que se ponderar. Francisco e a Igreja se posicionaram diante de um tema de reforma. Agora, o papa finalizou oficialmente a parte sinodal - mas, a seu ver, o debate deve continuar de maneira muito mais corajosa.

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