Opinião: O voto do medo venceu no Peru

Carolina Chimoy

Temor de uma política de esquerda e má lembrança do fujimorismo abrem caminho para que Pedro Pablo Kuzcynski conquiste o voto dos indecisos e avance para o segundo turno no Peru, opina a jornalista Carolina Chimoy.

As eleições deste domingo (10/04) no Peru ressaltaram, sem dúvida alguma, o voto do cidadão marcado pelo medo. Por um lado, o medo de uma política de esquerda. Uma política que nesse país se associa, de maneira direta, ao terrorismo do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, assim como ao recente fracasso do modelo chavista na Venezuela. Por outro lado, há a lembrança do nefasto autoritarismo populista que simboliza o fujimorismo.

São esses os temores que abriram o caminho para que um candidato, que aposta na mão invisível do mercado, conseguisse captar os votos dos indecisos. Não porque representa um centro político, mas porque suas propostas não tocam em pontos sensíveis da história peruana.

A terceira candidata com maior apoio, a socialista Veronica Mendoza, de 35 anos, embarcou num voo de Cusco a Lima sonhando estar presente no segundo turno como um dos dois candidatos com maior apoio nas eleições deste domingo. Mas, ao chegar à capital, deparou-se com a surpresa de os resultados de boca de urna terem sido superados pelas primeiras informações oficiais, que mostravam Pedro Pablo Kuzcynski, de 77 anos, como claro favorito depois de Keiko Fujimori.

Com esse resultado, as esperanças da candidatura de esquerda chegam ao fim. Mas, quem sabe, somente nestas eleições. Mendoza seguirá, sem dúvida, presente no panorama político peruano, no qual a chamada Frente Ampla não tinha presença alguma até agora.

Kuzcynski, o rival de Fujimori, de 40 anos, no segundo turno de 5 de junho, ficará numa posição muito confortável, já que, sem dúvida, atrai os votos dos que querem evitar o fujimorismo a qualquer preço.

A filha de Alberto Fujimori - ex-presidente condenado a 25 anos de prisão por corrupção e violação de direitos humanos - terá que se distanciar claramente de seu pai se quiser contar com o apoio daqueles que votaram em candidatos que ficaram de fora da corrida. E ela não conseguirá isso simplesmente assinando um documento que assegura as diferenças políticas, como fez com o roteiro assinado no debate presidencial de 3 de abril.

Para conseguir mais apoio, Keiko precisa não apenas estabelecer uma fronteira clara em relação às políticas que marcaram o governo de seu pai, como também terá que haver uma verdadeira ruptura nessa estreita relação familiar. Algo pouco realista.

Seja quem for, o próximo presidente do Peru enfrentará uma economia que, depois de duas décadas em crescimento (até 8,3% em 2010), atravessa uma difícil situação, na qual um dos investidores mais importantes, a China, vive uma forte desaceleração econômica. Além disso, os preços das matérias-primas exportadas pelo Peru estão baixíssimos.

Qual será, portanto, a base econômica sobre a qual Kuzcynski quer construir seu modelo econômico neoliberal? Ele vai se apoiar de maneira incondicional em sua segunda pátria, os Estados Unidos? Os fortes laços que o político tem com os EUA levariam a uma forte aproximação com o gigante americano e uma maior influência de Washington sobre Lima, rompendo com o ceticismo do atual presidente, Ollanta Humala.

Se assim for, o Peru poderá ser mais um na lista de países de tendência antiesquerdista na região. A derrota de Maduro na Venezuela; o resultado do referendo na Bolívia, desfavorável a um quarto mandato de Evo Morales; a crise enfrentada pela presidente Dilma Rousseff; assim como a clara vitória do liberal Mauricio Macri, na Argentina, indicam a inclinação da região a uma mudança de modelo. Uma mudança à qual agora o Peru também se une.

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