Opinião: Vai-se o departamento, ficam os arquivos

Marcel Fürstenau

Órgão responsável pelo arquivamento e pesquisa dos documentos da Stasi, serviço secreto da antiga Alemanha Oriental, vai ser dissolvido. Mas nada vai acabar no esquecimento, opina jornalista Marcel Fürstenau.

A embalagem vai mudar, mas o conteúdo continua o mesmo. E principalmente: esse conteúdo vai permanecer acessível. Ninguém tem a intenção de impedir futuros olhares curiosos sobre os documentos do Ministério da Segurança do Estado (MfS, na sigla em alemão). Esse é o cerne das recomendações apresentadas por uma comissão de especialistas com vista ao futuro do órgão responsável pelos arquivos da Stasi, a polícia secreta da antiga Alemanha Oriental.

E esse resultado já era claro quando o Bundestag (Parlamento alemão) criou a comissão em meados de 2014. Tratava-se e ainda se trata não somente do procedimento e da forma. Num tema tão emocional como a Stasi, é inevitável que isso seja difícil para as partes envolvidas.

Um encerramento sob o lema "pôr um ponto-final" nunca esteve em consideração. Isso seria um absurdo e não se poderia justificar de forma alguma. Afinal de contas, desde o início da década de 1990, milhões de pessoas fizeram uso da possibilidade de examinar os documentos arquivados sobre elas. De ler o que a Stasi sabia sobre elas. Relatórios de espionagem, provenientes muitas vezes de colegas, amigos e até mesmo de parentes.

Que esse tipo de material seria capaz de contaminar o clima familiar e social era uma objeção que se ouvia frequentemente na época da fundação do departamento. No entanto, foi correta a decisão de escutar a opinião das vítimas. Elas queriam, finalmente, ser donas de seus próprios destinos.

Manter os documentos fechados ao público seria um triunfo tardio para a Stasi. Àquela altura, quando o serviço de inteligência da ex-RDA (República Democrática Alemã) já era história. A continuação do resgate crítico dessa história também vai ser possível através da reforma recomendada. A novidade é que os documentos deverão ser formalmente transferidos para os Arquivos Federais da Alemanha. Lá, eles também poderão ser vistos e pesquisados no futuro. A diferença em relação a hoje está somente no fato de eles não serem mais administrados por um encarregado especial do governo alemão. No jargão burocrático: um arquivista assume a médio prazo a supervisão.

Para os usuários dos arquivos da Stasi, pode não ser importante para quem terão de apresentar o seu requerimento para a vistoria de documentos - seja por razões pessoais, científicas ou jornalísticas. Nada vai mudar. Pela vontade da comissão de especialistas, fisicamente, os papéis poderão permanecer em seu lugar de origem. Isso seria sensato já por considerações práticas, pois uma mudança seria acompanhada de enormes custos. Além disso, deixar tudo em suas locações originais em Berlim e no resto do leste alemão seria uma louvável concessão aos sentimentos das vítimas. Inspeção de arquivos em lugares autênticos, onde no passado os criminosos praticavam os seus delitos. Uma solução que provou funcionar durante 25 anos e que deve permanecer.

Assim, Roland Jahn será o último de um total de três responsáveis federais pelos documentos da Stasi. Ele e seus antecessores, Marianne Birthler e Joachim Gauck, estabeleceram padrões sem precedentes para lidar com a história da ditadura alemã. Três antigos ativistas de direitos civis, que conhecem na própria pele as injustiças da RDA. Isso confere a maior credibilidade possível a eles e ao trabalho de sua instituição.

Como foram escolhidos pelos deputados do Bundestag, a atuação deles foi e é politicamente legitimada de forma especial. Pode-se lamentar o fato de, após Jahn, essa honrosa transferência de responsabilidade não poder mais acontecer. Mas passados mais de um quarto de século da revolução pacífica na antiga Alemanha Oriental, o resgate crítico da ditadura do SED, partido único da antiga RDA, poderá continuar sob outras condições. Para tal, as recomendações da comissão de especialistas são uma boa base.

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