Onda de tentativas de suicídio entre índios choca Canadá

Só em uma comunidade indígena foram registradas mais de 100 tentativas de suicídio desde setembro. Desigualdades social, falta de perspectiva e precárias condições de vida seriam as principais causas.

Membros da Câmara dos Comuns do Canadá realizaram um debate de emergência para discutir uma crise de suicídios numa remota comunidade indígena no norte de Ontário, assim como em outras comunidades aborígenes em todo o país.

O debate parlamentar, realizado na terça-feira (12/04), ocorreu depois que autoridades da Primeira Nação First Nation, uma comunidade indígena cree de cerca de 2 mil pessoas na remota James Bay, declararam estado de emergência após o registro de 11 tentativas de suicídio em um dia e o total de 28 tentativas no mês de março.

Há também relatos de mais de 100 tentativas de suicídio e ao menos uma morte desde setembro. A declaração de estado de emergência, porém, é primariamente uma medida simbólica e não obriga juridicamente o estado de Ottawa a agir.

No entanto, o porta-voz para questões indígenas do Novo Partido Democrático, Charlie Angus, pediu a realização do debate parlamentar. Angus, cujo distrito eleitoral inclui a conturbada comunidade em Ontário, afirmou que os canadenses que vivem no sul não iriam tolerar a falta de atenção à saúde mental de crianças indígenas.

Numa carta ao presidente da Câmara dos Comuns, Geoff Regan, Angus escreveu que "os dias de desconsiderar tragédias e remendá-las com esparadrapos acabaram". Perante os legisladores, ele cobrou empenho: "A crise em Attawapiskat chamou a atenção do mundo, e as pessoas estão esperando que este Parlamento explique a falta de perspectiva, que não afeta apenas Attawapiskat, mas tantas comunidades indígenas".

A ministra da Saúde do Canadá, Jane Philpott, afirmou que a taxa de suicídio entre jovens indígenas está entre as mais altas do mundo: jovens indígenas do sexo masculino possuem uma probabilidade dez vezes maior de morrer por suicídio do que outros homens canadenses jovens - a taxa para mulheres indígenas é 21 vezes maior. Ela comunicou também que cinco funcionários da saúde, entre eles alguns psicólogos, foram enviados à comunidade de Attawapiskat.

O primeiro-ministro do país, Justin Trudeau, classificou a crise como "de partir o coração" e prometeu que o governo trabalhará para melhorar as condições de vida para todos os povos aborígenes. Em seu orçamento federal, o governo liberal prometeu um adicional de 6,54 bilhões de dólares americanos ao longo de cinco anos para ajudar a população aborígene com suas precárias condições de vida.

Desigualdade e falta de perspectivas

O incidente chocou o Canadá, apesar de existir uma prevalecia relativamente alta de tragédias envolvendo os 1,4 milhões de habitantes indígenas do país - que compõem cerca de 4% da população total. Muitos vivem em situação de pobreza, têm uma expectativa de vida menor do que de outros canadenses e são frequentemente vítimas de crimes violentos.

A crescente desigualdade e a falta de oportunidades dentro das chamadas comunidades Primeira Nação alavancaram a onda de suicídios, segundo a imprensa canadense. Líderes comunitários, incluindo chefes tribais, queixaram-se sobre a falta de dinheiro para a educação tribal e as más condições das reservas. O grande chefe Alvin Fiddler, da comunidade Nishnawbe Aski, disse que as coisas estão tão ruins que metade das comunidades indígenas não têm água potável.

O chefe da comunidade Attawapiskat, Bruce Shisheesh, disse que há muitas causas para as tentativas de suicídio, incluindo a superlotação nas moradias, elevada taxa de desemprego, abuso de drogas e álcool, além dos efeitos duradouros de danos emocionais de quase um século de abusos físicos, psicológicos e sexuais sofridos por aborígenes canadenses em escolas gerenciadas por governo e Igreja.

PV/ap/rtr/dpa

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