Floresta em Uganda pode ser chave para vacina contra o zika

Simone Schlindwein, de Uganda (ca)

Pessoas que moram nas proximidades da floresta de Zika parecem ser extremamente resistentes ou até mesmo imunes à doença. Nelas pode estar a chave para o desenvolvimento de uma vacina.

Mais de 600 especialistas se reúnem no Instituto Pasteur, em Paris, nesta segunda e terça-feira (25 e 26/04), para uma conferência internacional sobre o zika. Apesar das numerosas pesquisas, os mecanismos do vírus ainda são pouco conhecidos.

No colóquio também estão presentes pesquisadores em Uganda, onde o agente patogênico foi registrado pela primeira vez. No país africano, a presença do vírus nunca gerou epidemias, e esse fato é visto como de grande importância para se chegar a uma vacina contra a doença.

Com somente 25 hectares de superfície, a floresta de Zika, em Uganda, deu nome a um dos vírus mais perigosos do mundo. A área se estende ao lado do Lago Vitória, a poucos quilômetros da pequena cidade de Entebbe, perto do aeroporto internacional. Na língua local, o luganda, zika significa "crescer excessivamente".

Desde 1937, a floresta é uma reserva natural sob a direção do Instituto de Pesquisa sobre Vírus de Uganda (Uvri, na sigla em inglês). Nela, os pesquisadores encontram regularmente vírus perigosos, incluindo o zika.

Zika no jardim

Filha de um guarda florestal, a jovem Ester Kilabo, de 15 anos, considera a floresta de Zika o seu jardim. Lá ela anda de alpargatas e coleta cogumelos, frutas silvestres, figos - e larvas de mosquito. No meio da floresta há uma torre que se assemelha a um mastro de telefone.

No alto dela, os cientistas do Uvri colocaram recipientes com água, nos quais os mosquitos depositam seus ovos, relata a jovem. Ela está familiarizada com os mosquitos perigosos que se reproduzem na floresta e conhece o nome científico deles: aedes e anopheles. "Eu não tenho medo desses mosquitos. As pessoas vivem perto da floresta há uma eternidade e nunca houve doenças", explica.

Todas as quartas-feiras, Kilabo escala a torre de mais de 30 metros de altura para recolher os recipientes, que ela depois leva para os cientistas. O instituto mundialmente conhecido está localizado a apenas dez quilômetros dali, em Entebbe. Lá, virologistas ugandeses de ponta, como Julius Lutwama, pesquisam há décadas os vírus mais perigosos do mundo, entre eles o ebola, o vírus de Marburg e o da febre amarela - e também o zika.

O zika foi identificado pela primeira vez em 1947. Isso aconteceu por acaso, explica Lutwama: naquela época, os virologistas ugandenses estudavam a febre amarela após uma epidemia ter eclodido na África Ocidental. Na ocasião, eles encontraram um novo tipo de vírus no sangue de um macaco da floresta de zika e o chamaram de zika. Infecções em seres humanos não eram conhecidas.

Somente em 1952 foram retiradas amostras de sangue humano que continham o vírus, na Tanzânia. As amostras foram analisadas no Instituto de Pesquisas sobre Vírus de Uganda, que é responsável por toda a África Ocidental. Em seguida, os cientistas encontraram o agente também em habitantes de Uganda - em Entebbe e Kisubi, perto da floresta de Zika. As análises de 1952 mostram que, das 84 pessoas analisadas, 50 apresentaram anticorpos para o zika no sangue e todos os examinados acima dos 40 anos eram imunes ao vírus.

Anticorpos ugandenses

Depois quase nada se ouviu sobre o zika durante quase meio século. Da descoberta em 1947 até 2007 houve somente 14 casos confirmados de pessoas infectadas em vários países africanos e asiáticos.

Nas pequenas ilhas tropicais da Micronésia, em 2007, registrou-se o primeiro grande surto de zika, com cem pessoas infectadas. Em 2013, a doença eclodiu na Polinésia, onde foram notificados quase 9 mil casos. No inicio de 2015, a enfermidade foi identificada no Brasil, onde nove meses depois surgiu uma onda de nascimentos de bebês com microcefalia.

O zika deu a volta ao mundo, constata Lutwama. Em 2015, o principal virologista de Uganda foi convidado para ir aos Estados Unidos, onde ajudou seus colegas americanos do centro de emergência para o combate ao zika. Segundo o especialista, a questão decisiva é por que, em Uganda, o vírus nunca gerou grandes epidemias, como é o caso agora na América do Sul.

Em Entebbe, ele tenta encontrar a resposta para essa questão. "Para a pesquisa em Uganda surgem questões inteiramente novas", explica Lutwama: por que existem tão poucos casos no país? Por que as infecções são muito fracas? "Aqui ninguém morre da doença, e uma epidemia passa quase despercebida", comenta o pesquisador. A tese dele é que, no país, há muitos tipos de vírus semelhantes ao zika, o que provavelmente cria uma espécie de imunidade.

Por esse motivo, Lutwama viaja entre Uganda, Estados Unidos e Brasil para descobrir como surgiu essa imunidade entre os ugandenses. Ele espera que esses anticorpos possam ajudar a combater a epidemia na América do Sul.

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