O choque entre a jovem e a velha política na Espanha

Santiago Saez Moreno, de Madri (av)

Pela primeira vez desde a volta da democracia, Parlamento falha em eleger governo. No centro do impasse, a disputa entre partidos em franca decadência, marcados por décadas de corrupção, e legendas jovens e instáveis.

Embora ainda não seja oficial, a certeza generalizada é que na próxima terça-feira (03/05) o rei Felipe 6º da Espanha vai dissolver o Parlamento e convocar novas eleições, a se realizarem em 26 de junho.

O clima é de perplexidade, num momento em que o país se aventura por mares desconhecidos. "A real política suplantou as restrições do esquema concebido em favor de um sistema bipartidário estável", diagnostica Carlos Santos, autor e jornalista político.

Esta é, de fato, a primeira vez, desde que a democracia foi reinstituída na Espanha, em 1978, que o Parlamento fracassa em eleger um novo governo. Santos atribui o fato a um choque entre a velha e a nova política.

"Partidos em franca decadência, queimados por décadas de corrupção e crise, estão coexistindo com partidos muito jovens, instáveis e sofrendo as dores do crescimento. Todos eles têm pavor de novas eleições; há muito a perder e pouco a ganhar."

Na opinião de Antonio Barroso, vice-presidente da firma de consultoria política Teneo Intelligence, sediada em Londres, cada um dos partidos segue a estratégia declarada de responsabilizar os demais pelo impasse parlamentar, e de se empurrar mutuamente para os extremos do espectro político.

"O PSOE empurra o Podemos para a esquerda; Podemos empurra o PSOE para a direita, depois que este entrou em acordo com o Ciudadanos. O PP diz que o Ciudadanos está em conchavo com o PSOE; e o Ciudadanos diz que o PP é ultraconservador", descreve Barroso.

Unidade interna essencial - mas difícil na prática

Todas as três maiores legendas espanholas - o conservador Partido Popular (PP) do chefe de governo Mariano Rajoy; o Partido Socialista Operário Espanhol (OSOE) de Pedro Sánchez; e o Podemos de Pablo Iglesias, de esquerda e antiausteridade - tiveram uma boa dose de crises políticas desde as últimas eleições, em dezembro de 2015.

Manter a unidade interna pode ser a chave para o sucesso no pleito em junho, que já parece inevitável, diz Antonio Barroso. No entanto, "exceto o Ciudadanos, que parece ser o único grupo unido, todas as outras legendas maiores estão atravessando lutas internas visíveis". Em sua opinião, manter a ordem nas alas partidárias será essencial para obter qualquer benefício dos votantes.

As fissuras são mais óbvias entre os grupamentos de esquerda. Não é segredo que a liderança de Sánchez é contestada pelos cabeças das organizações federais mais tradicionais, sobretudo a presidente da Junta de Andaluzia, Susana Diaz.

O Podemos não vai muito melhor: alinhados com o "número dois" do partido, Íñigo Errejón, muitos de seus principais membros ou renunciaram ou foram expulsos neste último mês. Além disso, algumas das coalizões que levaram aos bons resultados em dezembro estão se desgastando. O grupo Compromís en la Comunidad Valenciana, de Valência, já se desligou oficialmente.

Incógnitas numerosas

Enquanto isso, os conservadores de Rajoy encaram um novo pleito como uma segunda chance. Segundo Barroso, da Teneo Intelligence, o atual presidente do governo é quem poderá colher mais vantagens da atual situação: "Ele já tinha cartas bem ruins. Então, se ganhar de novo, poderá legitimar a própria liderança."

Contudo seu poder não está garantido, pois políticos mais jovens do PP veem com olhos críticos aquilo que o líder representa. "A geração de Rajoy está afundada na corrupção e esmagada pela crise, e há considerável descontentamento com a liderança dele no partido", explica Carlos Santos.

Mesmo não estando confirmadas e ainda a dois meses de distância, a aparente inevitabilidade das eleições já deu partida a um jogo de especulações. Só que desta vez "a novidade da situação faz com que seja realmente difícil adivinhar quem vai tirar vantagem", diz Antonio Barros, portanto ninguém quer arriscar um palpite.

Um possível elemento de virada no jogo poderia ser uma coalizão nacional entre o Podemos e o grupo comunista-verde Izquierda Unida, o qual só dispõe de dois assentos no Parlamento, mas obteve quase 900 mil votos no pleito de dezembro. Uma aliança entre as duas legendas esquerdistas poderia situar o PSOE em terceiro lugar, pela primeira vez desde o fim da ditadura na Espanha.

Impasse à moda belga?

Enquanto os partidos políticos aguardam para ver quem receberá a culpa pelo fiasco no Parlamento, o clima nas ruas é de decepção e incredulidade.

A gerente de uma rede social María García está seriamente apreensiva. "Acho que é uma situação grave. Não espero alianças bizarras, mas eles colocaram interesses partidários na frente de questões sérias, como desemprego, gente marginalizada, saúde e educação. Isso pode ter efeitos desastrosos no médio e longo prazo."

Jesús Gutiérrez, doutorando e empregado de uma editora universitária, tampouco espera grandes resultados. "Estamos acostumados aos dois partidos maiores serem os únicos que mexem no tabuleiro da política. Agora, com a chegada do Ciudadanos e do Podemos, ficou óbvia a falta de capacidade de alcançar acordos, devido a disputas internas, sobretudo no PSOE." Para Gutiérrez, as novas eleições "não vão mudar isso".

O analista Carlos Santos concorda: "É grande a chance de acabarmos no mesmo lugar onde estamos agora." Ele não se espantaria se o resultado for "um impasse à moda belga, pelos próximos meses e anos".

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