A um ano das eleições presidenciais, França quer mudanças

Barbara Wesel (md)

A 12 meses do pleito que definirá o próximo presidente, clima entre franceses é de frustração. Com economia desaquecida, impopularidade de Hollande e onda de protestos contra planos de reforma, país busca algo diferente.

"Estamos num período de mudanças. As pessoas não acreditam mais nos políticos. Primeiro, a direita subiu ao poder, depois a esquerda. E todos decepcionaram", diz a estudante Gabrielle, de 20 anos. Assim como milhões de franceses, ela sente desprezo pelos políticos. E essa frustração alimenta não apenas protestos da esquerda, mas também os sucessos do partido populista de direita Frente Nacional.

"Somos a quinta maior economia do mundo e temos milhões de desempregados", reclama o diretor de cinema Gilles Saulnier. O desemprego e uma necessidade difusa de mudança levaram jovens de esquerda às ruas das grandes cidades nas chamadas Nuit Debout, fóruns de discussão noturnos com fundo ligeiramente revolucionário e sem direção clara, incluindo confrontos ocasionais com a polícia.

Intelectuais franceses, por sua vez, se afundam em fantasias apocalípticas. Michel Houellebecq vê a islamização como a maior ameaça, Alain Finkelkraut escreve sobre a Identidade infeliz da França, e o tratado Le Suicide français (o suicídio francês), de Eric Zemmours, se tornou um best-seller. O clima parece depressivo e suicida, com todos eles anunciando o fim iminente da nação francesa.

Economia enfraquecida

Recentemente, a França conseguiu ganhar uma concorrência contra a Alemanha para um contrato no valor de 35 bilhões de euros para construção de submarinos para a Austrália. Paris festejou, mas os sucessos são apenas isolados e parciais.

"Estou muito irritado com o governo", diz Bertrand Boissier, chefe do fabricante de cabos BMS e vice-presidente da Câmara de Comércio. "Agora, de uma hora para outra - um ano antes da eleição -, a economia supostamente melhora, como supostamente mostram números sobre o desemprego. Mas eles apenas riscam as pessoas das listas. As empresas continuam fechando, uma a uma, e cada vez mais pessoas são demitidas. A economia vai muito mal."

Desde 2010, a França tem registrado um déficit orçamentário de 4% a 5%. Atualmente, entretanto, as medidas de austeridade parecem dar frutos. Este ano, a dívida deve cair para 3,5%, anunciou, com orgulho, o ministro francês das Finanças. O crescimento econômico, no entanto, definha em 1,2%, e o desemprego segue sendo o calcanhar de Aquiles do presidente François Hollande. Embora tenha havido uma melhora em abril, a taxa de desemprego ainda é de cerca de 10%.

Presidente impopular

Esses números contribuem para tornar Hollande o presidente mais impopular de todos os tempos. Segundo pesquisas recentes, 87% dos franceses estão insatisfeitos com ele, e três quartos não querem que ele concorra à reeleição em 2017.

Isso tem muito a ver com as expectativas que recaem sobre o presidente socialista. Empresários e correligionários da ala central do partido querem reformas radicais. A esquerda, enquanto isso, bloqueia qualquer tentativa de flexibilizar o Estado de bem-estar social francês. "As pessoas que estão politicamente à esquerda estão realmente decepcionadas com o governo. A economia vai mal, e estou especialmente preocupada com a juventude", afirma Cécile, funcionária da prefeitura que participou de protestos na semana passada contra a reforma das leis trabalhistas planejada por Paris.

Para o presidente, é impossível agradar a todos. Cada tentativa de reforma é respondida na tradição francesa, com protestos. E o presidente não tem coragem e assertividade para convencer o próprio partido. Hollande ainda não decidiu se se candidatará à reeleição no ano que vem. Talvez seja melhor que não, pois sua popularidade está em 14%, abaixo de Marine Le Pen, da Frente Nacional, segundo pesquisas.

A esperança socialista

A ala esquerda do Partido Socialista considera Hollande um traidor, e a direita o vê como uma esperança. O ministro da Economia Emmanuel Macron, de 38 anos, é tido como possível candidato à presidência. Antes de assumir o cargo, em 2014, ele era banqueiro e, por isso, é tido pelos socialistas tradicionais como um intruso. Mas os franceses premiam sua independência, seu cosmopolitismo e entusiasmo. Pesquisas apontam que Macron conseguiria vencer um conservador como Nicolas Sarkozy já no primeiro turno.

O ministro da Economia ganhou fama, entre os ministros de Hollande, de um capitalista de carteirinha e alguém que veio para quebrar regras. Ele se diz a favor do trabalho aos domingos, quer abolir a carga horária semanal de 35 horas, flexibilizar o mercado de trabalho e diminuir os encargos sociais. Ao ser questionado sobre a antiga ideia de Hollande de um imposto de 75% sobre fortunas, Macron comentou: "Isso é Cuba, só que sem o sol."

Por outro lado, ele também critica a falta de oportunidades para os jovens migrantes nos subúrbios. Seu mentor político Hollande chegou a alertar a estrela política em ascensão, ordenando que jogue "dentro do time", sob sua supervisão. Macron ainda deixa em aberto se vai ou não se candidatar em 2017.

Os candidatos

Dez candidatos se inscreveram para a eleição. O espectro político é amplo e inclui grande quantidade de rostos familiares. E a lista deve ficar maior. Sarkozy lançou sua candidatura cedo, preparando há um ano o regresso à política. Mas seus antigos escândalos pesam como chumbo sobre ele, que continua profundamente impopular. A grande maioria dos franceses não o quer de volta e prefere seu rival Alain Juppé, atualmente prefeito de Bordeaux. Os conservadores vão definir um candidato em novembro.

A grande antagonista é Le Pen, candidata do partido populista de direita Frente Nacional. Segundo as pesquisas, ela conseguiria cerca de 30% dos votos no primeiro turno. Assim, ela poderia até liderar no pleito, pois os esquerdistas, conservadores e liberais estão tão fragmentados que, atualmente, somente Juppé teria chance de vencê-la.

No segundo turno, é possível que o cenário mude, porque a grande maioria dos franceses deve apoiar um conservador, como em 2002, na disputa entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen. Até agora, Juppé é o que tem a melhor chance de obter ampla maioria. Os socialistas provavelmente terão que se preparar para um longo período sem vitórias eleitorais. A menos que aconteça um milagre. Afinal, um ano é bastante tempo quando se trata de política.

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