Novas eleições abrem período de incerteza na Espanha

Martin Delfin, de Madri (fc)

Com país há mais de quatro meses sem governo, espanhóis terão que voltar às urnas. Esquerda fragmentada e possível abstenção de eleitores podem repetir dificuldade de partidos em formar coalizão.

Após meses de impasse entre as principais forças políticas do país, os espanhóis terão que ir novamente às urnas, em 26 de junho, para tentar escolher um novo primeiro-ministro e um novo governo. No entanto, pesquisas mostram que os resultados do novo pleito não deverão mudar o cenário político - e que as legendas terão que voltar à mesa de negociações.

A Espanha está sem governo eleito desde dezembro passado. Os resultados das eleições gerais de 20 de dezembro podem ter sido inconclusivos, tornando impraticável a formação de governo. Mas duas forças emergentes quebraram, pela primeira vez, a tradição bipartidarista, fazendo uma campanha contra anos de corrupção desenfreada e duras medidas de austeridade introduzidas pelo agora primeiro-ministro interino Mariano Rajoy e seu conservador Partido Popular (PP).

A única tentativa concreta de formar um governo foi feita pelo secretário-geral do Partido Socialista (PSOE), Pedro Sánchez, que assinou um acordo político com o centrista Ciudadanos e tentou convencer o esquerdista Podemos a formar uma coalizão.

Mas as conversações estavam fadadas a falhar desde o início, quando o líder do Podemos, Pablo Iglesias, fez uma série de demandas, como a indicação de 15 ministros e a reserva do posto de chefe do governo para ele mesmo. O Podemos também queria que o PSOE rompesse suas relações com o Ciudadanos para formar uma grande coalizão de esquerda.

"A esquerda é muito fragmentada na Espanha. É muito mais sobre personalidades do que sobre pessoas", afirma o cientista político Pablo Simón Cosano, da Universidade Carlos 3º, de Madri, em entrevista à DW. "Em outros países, esta fragmentação não é tão acentuada."

Há também a possibilidade de haver grande abstenção em alguns setores da sociedade, o que poderia ajudar a impulsionar o Podemos e o Ciudadanos - ambos partidos que vão continuar a representar sérios desafios para o PP e os socialistas de centro-esquerda em junho.

Lluís Orriols Galve, também cientista político da Universidade Carlos 3º, prevê que haverá uma menor participação "que poderá prejudicar os maiores partidos". "Haverá também muita atribuição de culpa [entre os líderes], o que também vai complicar as coisas", afirma.

Difícil situação

Uma série de casos de corrupção desde as eleições colocaram o PP em situação complicada. O ministro da Indústria e Turismo, José María Soria, foi forçado recentemente a se demitir quando seu nome foi ligado a uma conta offshore no escândalo Panama Papers.

E a ex-prefeita de Valencia Rita Barberá, nome de peso do PP em sua cidade por duas décadas, está sob investigação judicial por encabeçar um esquema de financiamento ilegal do partido.

Ainda assim, pesquisas divulgadas pelos dois maiores jornais espanhóis e uma emissora de televisão no fim de semana preveem que o PP vai liderar as eleições de 26 de junho, com entre 28%e 29% dos votos - votação similar aos 28,7% obtidos em dezembro passado. Por sua vez, os socialistas, que conseguiram 22% da última vez, devem receber entre 19% e 22%.

As pesquisas diferem se o Podemos ultrapassaria os socialistas como segunda maior força política caso ele decida juntar as forças com o Esquerda Unida e fechar uma coalizão. Os dois partidos estão em conversações sobre disputar as eleições como um "time".

Mas como as acusações entre os líderes de partidos continuam acontecendo sobre de quem é a culpa pelo impasse, os espanhóis parecem menos preocupados em não ter um governo nesta etapa.

A taxa de desemprego de 23% e a corrupção no setor público estão no topo da lista das preocupações dos espanhóis e estão muito acima da incapacidade da Espanha de formar um governo, de acordo com a organização financiada pelo governo Centro de Pesquisa Sociológica (CIS, em espanhol), que mede a opinião pública espanhola todo mês sobre temas atuais.

Os cientistas políticos Cosano e Galve concordam que o impasse de quatro meses não afetou muito os espanhóis, porque o Orçamento do país de 2016 foi aprovado semanas antes das eleições de dezembro e "vai manter o governo funcionando".

"Queira ou não existe um custo político. Há reformas e questões que precisam urgentemente serem discutidas e foram colocadas em espera", afirma Cosano.

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