Você precisa mesmo de um smartphone novo?

Brigitte Osterath (md)

Como a pressão para que consumidores troquem anualmente seus celulares por modelos mais modernos pode afetar o meio ambiente. Reciclagem de aparelhos antigos minimiza, mas não resolve problema.

"Nunca perca uma inovação - compre um smartphone ou tablet novo todo ano", diz o anúncio de um provedor alemão de telecomunicação. Mas embora o lançamento de mais um smartphone possa ser uma boa notícia para os fãs de tecnologia, é uma má notícia para o meio ambiente.

"Essas empresas estão vendendo nosso futuro", diz o químico Klaus Kümmerer, que leciona química verde e sustentável na Universidade de Lüneburg na Alemanha. Ele se diz preocupado que as pessoas subestimem o impacto que a produção de celulares e outros produtos de alta tecnologia tem sobre o ambiente e sobre os recursos naturais. "Smartphones e fones de ouvido contêm o metal precioso neodímio, por exemplo."

O neodímio é um metal macio e prateado que pertence à classe dos chamados metais de terras raras. A mistura de neodímio com outros metais produz ligas que criam ímãs poderosos, necessários em microfones, alto-falantes e fones de ouvido. Embora esse metal seja amplamente distribuído ao longo da crosta terrestre, a mineração e o processamento dele requerem muita energia.

E no final, neodímio é apenas uma das substâncias necessárias para produzir mercadorias altamente sofisticadas chamadas smartphones.

Recursos valiosos

Todos os produtos de alta tecnologia contêm centenas ou mesmo milhares de produtos químicos, metais e ligas. Ouro no cartão SIM, cobre nos cabos e contatos na placa de circuito; lítio para a bateria, tântalo para o capacitor, índio para o monitor. Embora os smartphones contenham apenas vestígios de cada uma dessas substâncias, elas representam vasta quantidade de recursos valiosos. Tudo escondido dentro de um celular.

Estes metais vêm de vários países ao redor do mundo, onde são extraídos como minérios e transformados em metais puros. A maioria dos metais não existe em sua forma pura na natureza, sendo achados em compostos dentro de certas rochas. O processamento desses minérios para produzir um telefone requer alta quantidade de mão de obra e energia. E muitos desses minérios são extremamente raros.

"Estamos ficando sem muitos elementos, como a prata, manganês, zinco, ouro e platina", diz o químico James Clark, da Universidade de York, no Reino Unido. Ele avalia que eles estarão esgotados entre 5 e 50 anos.

Sonho de uma economia circular

Grupos ambientalistas sem fins lucrativos, como o alemão Deutsche Umwelthilfe apelam para que as pessoas levem os celulares velhos para serem reciclados, para "dar vida nova a preciosas matérias-primas".

James Clark vê a reciclagem e outras medidas da química verde como uma "contribuição significativa para salvar o mundo". "A sucata pode se tornar o recurso do amanhã", afirma.

Mas de acordo com um estudo feito em 2014 pela Federação Alemã das Empresas de Informação, Telecomunicação e Novas Mídias (Bitkom), mais de 100 milhões de telefones celulares velhos se encontram sem utilidade esquecidos nas gavetas dos lares alemães.

Eficiência demais pode ser ruim

Enquanto muitos químicos, incluindo James Clark, veem a reciclagem como a solução tanto para os recursos naturais como para o problema dos resíduos, Kümmerer é mais cético. "Reciclagem é bom e importante", diz ele. "Mas essa febre recente sobre reciclagem é absurda."

O especialista afirma que mesmo se todos os celulares velhos fossem entregues para reciclagem, esse circuito não seria fechado. Segundo ele, nem todos os materiais podem ser 100% recuperados.

Ao se produzir um smartphone, muitos metais e também outras substâncias, como o plástico, são misturadas para alcançar as funções que o produto necessita. "Você nunca vai conseguir todos aqueles metais separados de novo", frisa Kümmerer.

E o fato de os produtos se tornarem cada vez mais eficientes torna a reciclagem um desafio adicional. "Se um dispositivo contém vestígios ainda menores de um metal, no final, a reciclagem não vai valer a pena", teme Kümmerer. "Antes de os consumidores pensarem em reciclar os resíduos, eles deviam pensar em evitar a sucata e evitar o desperdício como um todo", diz Kümmerer. Ele cita Albert Einstein: "Intelectuais resolvem problemas, os gênios os impedem."

Uma equipe holandesa de empreendedores desenvolveu o chamado Fairphone, um dispositivo que deve durar por toda a vida. Os usuários podem substituir muitas partes eles mesmos. Desta forma, trocar o telefone quando a bateria ou a tela não funcionam mais seria desnecessário.

"Se nós conseguirmos fazer as pessoas se apegarem a seus telefones durante cinco anos, em vez de dois, isso significaria que menos celulares serão necessários. E isso seria um benefício enorme", diz Bas van Abel, diretor executivo da Fairphone.

Mudança de paradigma

Contudo, as empresas continuam apostando que os consumidores comprem um novo telefone celular a cada ano. Quanto mais produtos de tecnologia forem vendidos e produzidos, mais dinheiro elas fazem. E quanto mais dinheiro a indústria faz, mais a economia de um país floresce. Mas é aí que reside o problema.

Paul Hodges, presidente da empresa de consultoria internacional para a indústria química Echem busca uma mudança de paradigma, uma ruptura no conceito de uma economia cada vez maior. "Temos que encontrar o nosso caminho de volta para a economia como a anterior à geração baby boomer", disse Hodges em abril, durante uma conferência em Berlim sobre química sustentável.

"Você realmente precisa de um novo smartphone ou você apenas precisa de um?", questionou Hodges. Afinal de contas, esse desejo é o que alimenta a nossa "sociedade do desperdício".

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