Renúncia de premiê turco cheira a golpe, dizem analistas

Hilal Koylu, de Ancara (md)

Anúncio de Ahmet Davutoglu de que deixa chefia de governo indica um golpe forjado pelo presidente Erdogan para instalar um sistema presidencialista no país e ampliar seus poderes, afirmam especialistas.

Durante os 20 meses em que Ahmet Davutoglu foi primeiro-ministro da Turquia e líder do governista Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP), houve rumores frequentes de tensões entre ele e o presidente Recep Tayyip Erdogan. Boatos que o próprio Erdogan desmentia repetidamente.

Mas o anúncio do chefe de governo, nesta semana, de que provavelmente vai renunciar, mostra, assim como outros eventos recentes, que esses rumores tinham razão de ser.

Sinais de discórdia entre eles começaram a aparecer no fim de abril, quando Davutoglu perdeu o poder de nomear líderes distritais e locais do partido. Dias depois, um blog que analisa a relação entre os dois líderes publicou um artigo apontando o que o autor anônimo descreveu como as ações de Erdogan contra o primeiro-ministro. Alguns acreditam que o texto foi escrito por um aliado do presidente, enquanto outros o atribuem a alguém fora do partido governista.

"Filme de terror"

Ao anunciar sua renúncia, nesta quinta-feira (05/05), Davutoglu fez questão de enfatizar sua lealdade ao presidente, numa tentativa de contradizer quem afirma haver uma ruptura dentro do AKP. Ele também assegurou que permaneceria primeiro-ministro até o congresso extraordinário de 22 de maio, que deve eleger um novo líder do seu partido.

Contudo, a partida levanta questões sobre como o presidente Erdogan vai usar o ocorrido para expandir seus poderes presidenciais, assim como sobre que mudanças políticas que estão ocorrendo dentro do governo e da oposição. De acordo com a cientista política turca Ayse Ayata, o que está acontecendo "se assemelha a um filme de terror", equivalendo a um "golpe presidencial" de Erdogan.

"Estamos falando de um premiê que experimentou uma queda de votos na eleição geral de 7 de junho e trabalhou para aumentá-los na de 1° de novembro. Davutoglu é um primeiro-ministro que recebeu 50% dos votos nacionais", lembra Ayata, que leciona na Universidade Técnica do Oriente Médio, em Ancara.

Turquia a caminho de um sistema presidencial?

Segundo Ayata, Erdogan quer se livrar da legenda oposicionista pró-curda Partido Democrático dos Povos (HDP) e convocar novas eleições, levando o país "a uma situação que danificará a democracia e a sociedade e acabará mal no final". "Está claro que Erdogan não vê nada que impeça seu caminho rumo ao sistema presidencialista."

O cientista político Baskin Oran, da Universidade de Ancara, também acredita que a Turquia caminha para novas eleições. "Erdogan deu o último passo para a instauração de um sistema presidencialista, forjando um golpe e rejeitando o governo Davutoglu, porque Davutoglu não fez tudo o que ele mandou", avalia Oran.

Na opinião do analista, Erdogan quer seguir uma estratégia de provocar os curdos e manter a coalizão entre o AKP, os militares e os neonacionalistas."Erdogan vai fazer crescer os conflitos no país até o fim. A fim de ganhar a eleição, vai se beneficiar da atmosfera de medo e caos", prevê. "Mas a verdadeira questão é por quanto tempo Erdogan vai se beneficiar desta estratégia e se, no fim, ela, pode provocar a própria queda dele."

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