Opinião: Os gregos e seu horror às reformas

Spiros Moskovou

O velho ritual se repete: na última hora, medidas há muito prometidas são aprovadas em Atenas. E, sem o apoio da política nem da população, também desta vez não darão frutos, opina o jornalista Spiros Moskovou.

O espetáculo em Atenas se repete a intervalos quase regulares desde 2010, não importa o governo: sempre que se aproxima a hora de ser liberada mais uma parcela da ajuda internacional para a Grécia, que se encontra isolada dos mercados financeiros, o governo grego fornece mais uma parcela das reformas e cortes já prometidas há tempos.

Foi o que aconteceu neste fim de semana (07-08/05). Com uma maioria apertada de 153 dos 300 votos, o Parlamento grego aprovou grande parte da mais do que atrasada reforma do sistema tributário e de aposentadorias.

O debate parlamentar de dois dias foi uma tragicomédia sem igual, com os toureiros de todos os partidos se insultando mutuamente, chamando-se de mentirosos e fraudulentos.

Encorajado pelas pesquisas de opinião favoráveis a ele e a sua legenda, Kyriakos Mitsotakis, recém-nomeado presidente da conservadora Nova Democracia, exigiu a renúncia do primeiro-ministro, o esquerdista Alexis Tsipras. O partido - que em meados de 2015 concordara com o acordo com os credores internacionais em troca um terceiro pacote de resgate - agora rechaça as medidas para implementação desse mesmo acordo.

No entanto, nem durante o fim de semana nem em antecipação a mais essa "fatídica" votação houve qualquer debate público construtivo sobre sugestões ou alternativas melhores. Mesmo no sétimo ano desde a eclosão da crise da dívida grega, os principais grupos políticos não encontram qualquer linha suprapartidária para a recuperação duradoura do país. Um consenso mínimo patriótico segue sendo o grande objeto do desejo da política da Grécia.

Em especial após a posse da "esquerdista" Syriza no início de 2015, ficou mais óbvio do que nunca que nenhuma força política existente no país está disposta a impor as reformas tão necessárias ao bem comum. Até mesmo os ministros responsáveis deploram em público, sem cessar, as medidas recém deliberadas.

Não é de espantar que as reformas não "peguem": elas não são sustentadas nem pelos políticos nem pelos cidadãos. O conceito "reforma" é rechaçado pela maioria absoluta dos gregos, pois as reformas concretas dos últimos anos só trouxeram cortes, mas nenhuma melhoria concreta da situação.

Com frequência se esquece que as assim chamadas "reformas necessárias" só darão frutos se forem acompanhadas de crescimento econômico. E desse não há nem sombra: nos últimos anos a economia da Grécia recuou 25%. O tão louvado programa do Syriza para aquecimento da produtividade segue ausente: o governo Tsipras segue uma política hostil a investimentos.

Como prosseguirá a Grécia? Exatamente como até agora, arrastando com a barriga a crise da dívida. Há muito sabemos que esse carona da zona do euro chamado Grécia não tem como manter o passo dentro desse competitivo clube, nem estruturalmente nem em termos de política financeira. No entanto, num contexto internacional instável e arriscado, a Europa não está disposta a se permitir uma zona do euro mutilada.

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