Sanders empurra Partido Democrata para a esquerda

Spencer Kimball (ca)

Mais do que uma disputa pela nomeação, o duelo entre os pré-candidatos democratas é uma batalha pelo futuro do partido, com Sanders e apoiadores tentando influenciar a agenda com ideias progressistas.

Mesmo se o senador Bernie Sanders perder a batalha para a nomeação presidencial pelo Partido Democrata, ele poderá ganhar a disputa pelo futuro do partido e ter uma grande influência sobre os rumos da política americana.

Quando Sanders iniciou sua campanha, no ano passado, ele era uma curiosidade política: um senador independente do pequeno estado de Vermont e um autoproclamado socialista democrático. No jargão político americano, socialista costuma ser insulto.

No entanto, desde que as primárias se iniciaram, em fevereiro, Sanders provou ser uma grande força política. Ele ganhou as prévias em 18 estados e somou cerca de 300 delegados (sem contar os chamados superdelegados) menos do que a rival, Hillary Clinton.

O senador mobilizou um movimento de base composto predominantemente por jovens e pela classe trabalhadora. Desde o início de sua campanha, ele levantou 182 milhões de dólares em pequenas doações individuais.

O repórter John Nichols, da revista The Nation, trabalha há 25 anos na cobertura jornalística sobre Sanders. Ele disse que, provavelmente, o senador terá o número suficiente de delegados para disputar a convenção partidária dos democratas e puxar a legenda para a esquerda.

"Algumas das convenções mais interessantes não foram disputas pela nomeação", comentou Nichols. "Foram lutas para definir plataforma, valores e programa de um partido político." A revista The Nation, uma publicação progressiva, tem apoiado Sanders na disputa entre os democratas.

Caminho difícil e estreito

Após uma série de derrotas em quatro estados do nordeste americano, Sanders prometeu lutar e foi impulsionado por uma surpresa favorável em Indiana. As suas chances de ser nomeado, porém, são cada vez menores. "O caminho para a nomeação é difícil e estreito", disse Neil Sroka, diretor de comunicação do Democracy for America, um comitê de ação política que também apoia Sanders.

O senador tem lutado para ganhar o apoio de afroamericanos e latinos. E se a disputa entre os delegados é acirrada, entre os superdelegados Hillary tem uma enorme vantagem.

Os 714 superdelegados são delegados eleitos ou luminares do partido que não estão presos aos resultados de primárias nos estados. Eles são livres para apoiar o candidato que quiserem na convenção de nomeação.

Considerando os superdelegados, Hillary está a menos de 200 votos de ganhar a nomeação e enfrentar o provável candidato republicano, Donald Trump, na eleição presidencial de novembro. "Hillary tem uma vantagem esmagadora", afirmou Nichols. Isso não quer dizer, no entanto, que a ex-secretária de Estado terá uma vitória absoluta sobre Sanders, cujos apoiadores tentam ganhar o maior impulso possível para forçar negociações com ela.

"Estamos trabalhando com o senador Sanders para assegurar que ele possa angariar o maior número possível de delegados", afirmou Sroka. "Ao fazê-lo, [esperamos] assegurar que o movimento de base por ele construído tenha uma voz forte e poderosa nesta convenção e garantir que nossas questões estejam no cerne do Partido Democrata", acrescentou o diretor de comunicação do Democracy for America.

Debate sobre questões controversas

Durante sua campanha, Sanders enviou uma mensagem econômica progressista de grande efeito, prometendo combater o que ele chama de "classe bilionária" e restaurar a classe média através da redução da desigualdade de renda. Essa mensagem já provocou em Hillary uma guinada à esquerda em assuntos como comércio, aumento do salário mínimo e expansão de benefícios sociais.

Quando serviu como secretária de Estado sob o governo do presidente Barack Obama, Hillary apoiou a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês), um tratado comercial que englobaria 40% da economia mundial. Durante a etapa inicial da campanha, no entanto, ela se calou diante das críticas de Sanders ao acordo, dizendo que ele ameaçaria postos de trabalho nos EUA. Desde então, Hillary se posiciona contra a TPP.

"A grande questão daqui para frente é cobrar da ex-secretária Clinton - caso ela seja nomeada e se torne, tomara, nossa presidente - as promessas feitas durante as primárias", ressaltou Sroka.

Os candidatos também estão envolvidos numa disputa em torno de quanto deveria ser o aumento do salário mínimo federal, hoje em 7,25 dólares por hora. Hillary defende um piso de 12 dólares, enquanto Sanders pede 15. Em nível estadual, os estados de Nova York e Califórnia, dois pesos pesados da economia americana, já votaram para aumentar gradualmente seus mínimos para 15 dólares por hora.

Nichols disse que os apoiadores de Sanders poderiam cimentar aspectos da mensagem populista do senador de Vermont na plataforma democrata, forçando um debate sobre questões mais controversas, como saúde pública e ensino superior gratuito.

"Se Hillary tiver a ampla maioria dos delegados, ela não vai aceitar a plataforma completa de Sanders", explicou Nichols. "Se ela e seus apoiadores aceitarem elementos da plataforma de Sanders, isso pode unificar o partido e fazer com que ele vá fortalecido para a eleição de novembro."

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