"Pedras de tropeço" completam 20 anos

Anne Thomas (ca)

O artista Gunter Demnig espalhou quase 60 mil "pedras de tropeço" por toda a Europa. As primeiras 50 foram instaladas ilegalmente em Berlim, em 1996. Hoje, elas se tornaram o maior memorial descentralizado do mundo.

Num dia de maio de 2016, o sol brilha no centro de Berlim, perto do antigo bairro de Scheunenviertel, que antes abrigava uma considerável população judaica, na maioria da Europa Central e Oriental. Um grupo eclético está reunido: homens e mulheres, idosos e jovens, da Alemanha, Israel, Holanda, estudantes do Canadá em viagem de pesquisa sobre o Holocausto e outros. Há certa apreensão no ar, pois a ocasião é solene.

Trajando seu chapéu típico, o artista Gunter Demnig chega ao local. Ele carrega baldes de cimento, ferramentas e duas novas e reluzentes Stolpersteine - literalmente: "pedras de tropeço", pequenas placas em memória das vítimas do nazismo - com os nomes de Erzsebet e Jakob Honig. Após uma breve introdução, se ajoelha e começa a cavar um buraco.

Por trás dos espectadores, crianças brincam no vasto espaço vazio onde antes havia prédios habitados por dezenas de famílias. Muitas delas foram forçadas a sair, para mais tarde serem talvez assassinadas em Auschwitz.

O artista termina seu trabalho em dez minutos. Após inserir asplacas na calçada, ele dá-lhes uma polida, tira o chapéu e volta para o carro.

Viajando a maior parte do tempo

À noite, numa cerimônia para marcar os 20 anos das "pedras de tropeço", Demnig conta que naquele dia aplicara Stolpersteine em frente a 17 endereços berlinenses. Para ele, algo relativamente comum. Em 2015, passou 258 dias viajando por toda a Europa, colocando placas em até três vilarejos ou cidades num só dia.

Algo inimaginável em 1996, quando depositou as primeiras "pedras de tropeço" para 50 antigos morados judeus do bairro de Kreuzberg em Berlim, como parte de um projeto artístico sobre Auschwitz. Na ocasião, elas eram ilegais e não havia imprensa, polícia ou parentes, apenas uns poucos curiosos.

Agora são mais de 7 mil "pedras de tropeço" somente na capital alemã e quase 60 mil por toda a Europa, de Norte a Sul, de Leste a Oeste - de Trondheim, na Noruega, a Salônica, na Grécia; de Orel, na Rússia, a l'Aiguillon-sur-Mer, na França. Elas se tornaram parte da paisagem urbana na Alemanha e Holanda. Há visitas guiadas dedicadas a elas em Amsterdã, Budapeste e Roma.

São tantas, que Gunter Demnig não tem mais tempo de produzi-las. Desde 2005, o escultor Michael Friedrichs-Friedländer as faz a mão em seu estúdio nos arredores de Berlim. Como conta à DW, ele considera todas as "pedras de tropeço" comoventes, mas ficou particularmente emocionado com 34 fabricadas para 30 órfãos e seus quatro cuidadores, destinadas a serem colocadas em frente a um orfanato de Hamburgo. "Eles tinham entre três e cinco anos de idade. Eu não pude dormir por semanas."

Monumento descentralizado

Ao longo de 20 anos, o projeto das "pedras de tropeço" se tornou o maior memorial descentralizado do mundo, uma "escultura social" de base, que envolve voluntários, estudantes, escolares e familiares de vítimas do Holocausto por todo o mundo.

Ao contrário do que muitos acreditam, elas homenageiam todas as vítimas do regime de Hitler, tanto os assassinados em Auschwitz e outros campos, como também os sobreviventes e os que escaparam, fugindo para a Palestina, EUA e outras partes.

A grande maioria homenageia vítimas judias, mas também existem placas para membros das etnias nômades sinti e rom (ciganos), para dissidentes ou mortos dos programas de eutanásia em massa, assim como para os que os nazistas tachavam de "associais".

Somente neste ano, cinco Stolpersteine foram colocadas na praça Alexanderplatz, no centro da capital alemã, para os sem-teto que foram presos nos anos 1930 e enviados aos campos de "reeducação" a fim de se tornarem membros "dignos" da sociedade.

Refletindo o presente através do passado

As "pedras de tropeço" mostram, assim, a diversidade da população da Alemanha antes de 1933, e prestam homenagem aos que desapareceram, ao por seus nomes de volta aos lugares em que viviam.

Mas elas certamente também falam do presente. O espectador que se curva para ler a inscrição de uma Stolpersteinpode logo pensar: esta pessoa tinha a minha idade quando foi morta ou a idade da minha filha, ou nasceu no mesmo ano que a minha avó.

O visitante passa a refletir, a considerar o que teria acontecido com ele, o que teria feito se notasse que a família do apartamento em frente desapareceu no meio da noite. O que você faria hoje se seus vizinhos desaparecessem? As Stolpersteinesão uma forma de visualizar números incompreensíveis, uma forma de tornar mais pessoais os fatos passados.

"Destino desconhecido"

Depois de Demnig deixar o grupo no centro de Berlim, uma senhora idosa se adiantou para colocar um buquê de rosas vermelhas sobre as duas placas. Então ela contou sobre os nomes dos homenageados. Erzsebet Honig era sua tia, mas elas nunca se encontraram, o pouco que sabia, escutara de sua mãe já idosa.

Nascida em Budapeste em 1896, Erzsebet se divorciou do marido, um ano após ter dado à luz uma criança. Mudou-se para Berlim à procura de emprego, deixando a filha com seus pais. Passou a trabalhar como cabeleireira e encontrou Jakob.

"Eles se apaixonaram", narra a senhora. Depois de casados e estabelecidos, a filha de Erzsebet pôde vir de Budapeste. Quando os nazistas assumiram o poder, a menina de 16 anos foi enviada para a Palestina, por segurança.

Um de seus filhos veio de Israel para a cerimônia. Ver as "pedras de tropeço" serem colocadas no solo foi um momento incrivelmente comovente para ele, confessa. Não se sabe o que aconteceu com Erzsebet e Jakob. A inscrição em alemão sobre suas Stolpersteine diz: "Destino desconhecido".

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