Maren Ade e as novas chances do cinema alemão em Cannes

Heike Mund / Augusto Valente

Primeiro a indicação para o Prêmio do Cinema Alemão, depois dois Ursos na Berlinale. Agora, com seu terceiro longa, "Toni Erdmann", roteirista, diretora e produtora de Karlsruhe concorre com Almodóvar, Jarmusch e Loach.

Ganhando ou não a Palma de Ouro de Cannes em 2016, Maren Ade já tem lugar assegurado na história do cinema alemão. Pois a diretora, roteirista e produtora de 39 anos deu fim a um penoso período de vacas magras para seu país: há oito longos anos que nenhuma produção nacional era sequer indicada para um dos mais importantes eventos da sétima arte no mundo.

Assim como o Brasil, a última vez que a Alemanha constou da prestigiosa seleção oficial do Festival Internacional de Cinema de Cannes foi em 2008, com Palermo shooting, do veterano Wim Wenders. E não ganhou (a última Palma de Ouro alemã foi em 1984, com Paris, Texas, do mesmo Wenders).

Assim, há oito anos o mal-estar nos meios cinematográficos do país era palpável a cada anúncio dos indicados. Como parco consolo, restou à Alemanha a participação em um grande número de coproduções, muitas delas bem sucedidas.

O diretor do festival, Thierry Frémaux, não evitou mencionar esse "elefante na sala", ao anunciar a escolha de Toni Erdmann, de Ade, para a 69ª edição, revelando-se contente por poder saudar uma nova geração alemã, depois da "equipe de sonhos de Herzog, Schlöndorff e Wenders".

Por incrível que pareça, o bem intencionado comentário conseguiu melindrar certos críticos alemães, que acusaram Frémaux de esquecer como as produções nacionais vêm marcando presença em outros festivais de destaque pelo mundo afora. Em outras palavras: o cinema alemão continua ótimo, só Cannes é que não percebeu.

Gosto e orgulho nacional, enfim, é melhor não se discutir.

Começo promissor

Mas agora Maren Ade parece vir com potencial para lavar a alma cinematográfica da nação. Nascida em Karlsruhe, no sul da Alemanha, inicialmente ela se matriculou, em 1998, no departamento de Produção e Economia de Mídia da Escola Superior de Filme e Televisão (HFF) de Munique. Dois anos depois, mudou seu direcionamento profissional: Filme de Cinema e TV - sendo este último um campo com requisitos de qualidade muito elevados na Alemanha.

Em 2001 fundou, com Janine Jackowski, a produtora independente Komplizen Film, que passou também a gerir seus próprios projetos. Com a película de conclusão de curso na HFF, Der Wald vor lauter Bäumen (título alusivo à expressão "não ver o bosque por causa das árvores"), Ade obteve em 2005 o Prêmio Especial do Júri do prestigioso Sundance Film Festival, nos Estados Unidos.

Também em casa, esse seu primeiro trabalho de roteiro e direção obteve reconhecimento, sendo indicado, entre outros, para o Prêmio do Cinema Alemão (Deutscher Filmpreis).

Seu próximo longa-metragem, Todos os outros, teve a honra de estrear em 2009 no Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), arrebatando logo dois Ursos de Prata: um pelo Grande Prêmio do Júri e outro de Melhor Atriz, para Birgit Minichmayr.

Um sucesso incrível para a jovem diretora e um golpe de sorte para sua pequena produtora cinematográfica, que atualmente é associada, também no exterior, à "Escola Berlinense" de cinema. "Para mim é mais uma conexão de amizade, o conceito não me diz grande coisa", comenta Ade.

Ao site kino-zeit.de, ela reconheceu que a premiação na Berlinale foi "uma grande confirmação": "Ainda assim, não tenho a impressão de saber como é que se fazem filmes", comentou, com modéstia.

Drama de pai e filha com doses de humor

Mesmo depois desse começo tão promissor, o convite para um dos mais prestigiosos festivais de cinema do mundo, como uma entre 21 obras na mostra competitiva - ao lado de nomes como Pedro Almodóvar, Jim Jarmusch e Ken Loach, e diante do júri presidido por George Miller (Mad Max) -, pegou-a de surpresa.

Ade levou sete anos trabalhando as ideias para seu drama de pai e filha Toni Erdmann. Dois nomes familiares ao público alemão encabeçam o elenco: Peter Simonischek, no papel de um envelhecido professor de música, e Sandra Hüller como sua filha, totalmente fixada na carreira profissional.

Indagada se tem na cabeça determinados modelos para seus intensos dramas de relacionamento, Ade cita o clássico americano Inverno de sangue em Veneza. Mas também assistiu diversas vezes ao desolado Cenas de um casamento, do sueco Ingmar Bergman. "Também nele, as transações entre as personagens transcorrem muito através do diálogo, e ele se concentra fortemente em dois atores."

A cineasta alemã tem grande predileção pela realidade do quotidiano, onde vai buscar suas ideias. Para tornar suportável a "loucura dos relacionamentos" que projeta na tela, sempre adiciona a porção certa de humor. E se concentra sobretudo na representação dos papéis diante da câmera. "A personagem que temos na cabeça é apagada no momento que alguém a representa. Não consigo mais separar uma coisa da outra."

Ade diz gostar de trabalhar com atores e atrizes capazes de questionarem suas ideias como diretora. "Preciso de interlocutores com quem possa dialogar de igual para igual." Esse poderá seu trunfo agora, ao concorrer em Cannes.

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