Abdeslam fica calado perante juízes

Wolfgang Dick (pv)

Suposto único sobrevivente entre os responsáveis pelos ataques de Paris invoca direito de permanecer em silêncio no primeiro interrogatório. Autoridades querem informações sobre grupo terrorista e atentados na Europa.

Começou nesta sexta-feira (20/05), em Paris, o interrogatório de Salah Abdeslam. O jovem de 26 anos é acusado de participação no pior ataque terrorista da história da França. Em 13 de novembro de 2015, homens-bomba e terroristas armados atacaram cafés, o estádio de futebol Stade de France e a sala de concertos Bataclan durante uma apresentação da banda Eagles of Death Metal. O massacre deixou 130 pessoas mortas e 350 feridas, algumas gravemente.

Investigações indicam que Abdeslam teria participado na logística dos atentados. Ele é acusado de ter alugado um veículo e de ter conduzido os agressores até os locais dos ataques. Considerado o último sobrevivente do grupo responsável pelos atentados de Paris, Abdeslam pode oferecer importantes respostas às autoridades francesas. Mas, em seu primeiro dia perante juízes de instrução, ele se recusou a falar.

O advogado de Abdeslam, Frank Berton, afirmou à emissora francesa BFMTV que seu cliente invocou o direito de ficar em silêncio. "Ele não quis dar uma declaração hoje", disse, acrescentando que Abdeslam dará uma declaração futuramente, sem especificar uma data.

O réu está detido na prisão de Fleury-Merogis, num subúrbio ao sul de Paris, em isolamento e sob vigilância 24 horas. Nesta sexta-feira, ele foi levado a um tribunal no centro da capital francesa sob forte esquema de segurança. No entanto, como Abdeslam se recusou a falar durante o interrogatório, a sessão terminou abruptamente.

Abdeslam possui a nacionalidade francesa e vem de uma família com raízes marroquinas. Ele cresceu no distrito de Molenbeek, em Bruxelas, que é considerado um reduto de islamitas. Seu irmão, Ibrahim Abdeslam, é um dos terroristas de Paris. Ele se explodiu próximo a um café, matando um transeunte.

Salah Abdeslam também deveria ter cometido um ataque suicida, mas ele mudou de ideia na última hora e jogou seu cinto de explosivos numa lata de lixo, ainda em Paris. Quando o equipamento de detonação foi encontrado, impressões digitais colocaram a polícia no encalço dele.

"Inteligência de um cinzeiro vazio"

O que é sabido até então sobre a vida de Abdeslam mostra uma longa cronologia sem indícios de radicalização, mas constantes conflitos e problemas sociais. Ele perdeu seu emprego como mecânico na companhia de transportes de Bruxelas devido a ausências frequentes e chamou a atenção de colegas pelo consumo de drogas e por furtos.

Pessoas do círculo de convivência de Abdeslam o descreveram como discreto, educado e não agressivo. Interesses: carros e futebol. Já o seu advogado belga, Sven Mary, o descreveu como uma "mente simples". Em entrevista ao jornal francês Liberation, Mary foi mais enfático: em suas declarações, Abdeslam mostra um "vazio abissal" e "a inteligência de um cinzeiro vazio".

Uma provável intenção do advogado é mostrar que Abdeslam não estaria apto a planejar atentados como os de Paris, o que resultaria numa pena mais leve para ele.

Erros constrangedores nas buscas

O fato de Abdeslam ter sido capturado vivo foi classificado pelo ministro do Interior da França, Bernard Cazeneuve, de uma "vitória sobre o terrorismo na Europa". Depois das muitas e inacreditáveis falhas na operação de busca, a detenção até parece um milagre.

Evidências dos investigadores belgas indicam que ele fugiu ainda na noite dos ataques. Ele ligou para dois amigos na Bélgica e pediu que eles o levassem o mais rápido possível de Paris até Bruxelas, o que de fato ocorreu.

Na rota de fuga, Abdeslam e seus passageiros foram controlados três vezes pela polícia. Num dos controles, eles chegaram a admitir que fumaram maconha após terem sido questionados sobre uso de drogas. No entanto, a polícia apenas averiguou os documentos de identificação e até recebeu de Abdeslam seu endereço residencial em Molenbeek. Mas tudo parou por aí.

Somente em 18 de março, investigadores conseguiram fechar o cerca a Abdeslam. Ele foi preso na rua Verwindenstraat, a poucas centenas de metros da casa de seus pais no distrito de Molenbeek. Momentos antes havia encomendado pizzas por telefone. A grande quantidade de pizza para um apartamento onde, oficialmente, apenas uma mulher estava registrada chamou a atenção da polícia.

Depois de ter ouvido o pedido suspeito de pizza, feito num telefone grampeado, a polícia interveio. E, após uma breve troca de tiros, Abdeslam foi dominado pelas forças de segurança.

"Nós o pegamos." Com essa breve mensagem no Twitter, o secretário belga para Asilo e Imigração, Theo Franken, anunciou, orgulhoso, a prisão de Abdeslam. Naquele momento, a investigação e a vigilância de supostos cúmplices dos ataques de Paris estava há dias intensificada e estreitamente organizada, com apoio da Interpol.

Durante a detenção, uma nota caiu do bolso da calça de Abdeslam. O que estava escrito nela? Indicações de planos de outros atentados? Uma lista com outros terroristas na Europa? O conteúdo ainda não foi divulgado. Inicialmente, Abdeslam permaneceu sob custódia na cidade belga de Bruges. Por fim, foi extraditado para a França no fim de abril.

A rede de Abdeslam

Um dos principais objetivos das investigações e do processo criminal contra Abdeslam é descobrir o tamanho da rede de simpatizantes da organização extremista "Estado Islâmico" (EI) na Europa. Segundo o investigador-chefe belga, Frederic Van Leeuw, evidências indicam que Abdeslam estava planejando novos ataques na Bélgica, o que ele teria admitido durante um inquérito inicial. Além disso, muitas armas pesadas foram encontradas em sua residência.

A Justiça francesa quer esclarecer também quais as razões para as várias viagens de carro de Abdeslam para Budapeste, na Hungria, e para Ulm, no sul da Alemanha. Segundo investigações da Interpol, as estadas duraram apenas 40 minutos. Em Ulm, Abdeslam pegou três homens que estavam num abrigo de refugiados e os levou para Bruxelas. Essa informação foi confirmada pelo Ministério Público da Alemanha. Investigadores na França, e também as famílias das muitas vítimas, esperam por declarações esclarecedoras do réu Abdeslam.

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