Eleição presidencial divide Áustria entre extremos

Bernd Riegert, de Viena (av)

De um lado está o populista Norbert Hofer, tachado de nazista pelos opositores; do outro, o independente Alexander Van der Bellen, acusado de fomentar o islamismo. No meio, uma sociedade austríaca "descabeçada".

É num domingo de recordes que a Áustria elege seu futuro presidente, em segundo turno. No dia mais quente do ano até agora, o céu sobre Viena está azul, faz 30ºC à sombra, as piscinas públicas estão bem frequentadas. Com um tempo destes, o comparecimento às urnas pode ficar comprometido, caso parte do eleitorado prefira ficar se bronzeando a se dirigir até uma das 10 mil seções eleitorais.

Parte dos postos encerrou suas atividades já pela tarde deste domingo (22/05), sobretudo nos vales alpinos mais distantes e nas zonas rurais, onde os votos já estão sendo apurados. Às 17h00 serão fechadas as últimas urnas da capital. Logo em seguida divulga-se a primeira projeção, apontando ou o populista de direita Norbert Hofer, do Partido da Liberdade (FPÖ), ou o político verde Alexander van der Bellen, que concorre à presidência como candidato independente.

Mas também há indícios de que, apesar do bom tempo, a participação eleitoral seja elevada: foi requisitado um número recorde de boletins de voto postal - 880 mil, de um total de 6,4 milhões de eleitores austríacos. Se nenhum dos dois candidatos apresentar dianteira definida, esses votos pelo correio poderão ser decisivos. Nesse caso, o resultado só sairá na segunda-feira.

Segundo turno em que tudo é possível

Nas últimas semanas, a Áustria deu a impressão de estar "descabeçada", escreve o semanário Profil, na edição dedicada ao significativo pleito. Apenas uma semana antes do segundo turno, a grande coalizão governamental, formada pelo Partido Social-Democrata (SPÖ) e o conservador Partido Popular (ÖVP), indicou um novo chefe de governo, forçando um "restart" na política austríaca.

Esse poderia ser um motivo para os eleitores não darem a maioria de seus votos ao populista de direita Hofer, o qual, para angariar as simpatias populares, aposta em palavras de ordem nacionalistas e em críticas à União Europeia. No primeiro turno, ele alcançou 35% dos votos, contrariando todos os prognósticos - e o centro moderado, formado pelo SPÖ e o ÖVP desapareceu do mapa.

Para a segunda rodada, os institutos de pesquisa de opinião desistiram de realizar enquetes. Quem consulta os cidadãos nas ruas de Viena, escuta todo tipo de resposta: da vitória estrondosa do verde Van der Bellen à vitória estrondosa de Hofer, passando por um empate. O jornal Österreich tira a conclusão: tudo está em aberto, nada é previsível.

"Bigodinho de Hitler" x "simpatizante do islamismo"

Pelas ruas da capital predominam os cartazes de Alexander van der Bellen. Provavelmente os vienenses escolherão candidato independente de 72 anos, ex-líder do Partido Verde, que em sua campanha adotou uma postura de paternal homem de Estado.

Nas regiões rurais, quem está na frente é Norbert Hofer. Aos 45 anos, ele é o mais jovem candidato à presidência com que os austríacos já foram confrontados - mais um recorde.

O populista já anunciou que pretende exercer plenamente as prerrogativas presidenciais e interferir ativamente na política do dia a dia. A mídia nacional especula que, caso se eleja, Hofer vá encaminhar o mais breve possível eleições parlamentares antecipadas e a tomada do poder pelos "azuis" - cor de seu FPÖ, que, de acordo com enquetes realizadas neste domingo, seria o partido mais forte num novo Parlamento.

Os vienenses reagiram ao curso ultradireitista de Hofer desenhando "bigodinhos de Hitler" em muitos de seus cartazes espalhados pela cidade. "Nada de nazista no Hofburg" (referência à sede presidencial no centro da capital), é o slogan de seus adversários.

Em contrapartida, Van der Bellen, que pleiteia uma mentalidade mais voltada para a Europa no país, tem escutado acusações de fomentar a "multiculturalidade" - num sentido pejorativo - e o islamismo.

Ao longo da campanha, frequentemente ambos os candidatos se atacaram no nível pessoal, com os debates televisivos descambando para constrangedores sketches de chanchada. Nenhum dos dois conseguiu manter a devida compostura presidencial.

E se a ultradireita vencer?

Mais de 170 veículos internacionais de imprensa noticiam neste domingo a partir do palácio presidencial Hofburg. Também isso é um recorde: nunca se registrou tanto interesse na normalmente descansada escolha do chefe de Estado austríaco.

Os comentaristas são unânimes em afirmar que uma vitória de Norbert Hofer representaria um terremoto político não só da Áustria, mas em toda a União Europeia. Ele não reivindica mais a saída da UE, mas quer tornar o país "mais forte" e assumir competências que até o momento cabem às instâncias europeias.

Os nacionalistas de direita da França, Hungria ou Polônia ficaram felicíssimos com uma vitória do FPÖ. Com o referendo sobre a eventual saída do Reino Unido da UE marcado para daqui a um mês, igualmente ganharia impulso a campanha pelo assim chamado "Brexit".

Em seu editorial, o jornal New York Times adverte: "A eleição na Áustria é um sinal de alerta para o Ocidente."

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