Norbert Hofer, o homem que dividiu a Áustria

Kersten Knipp (ca)

Desempenho do candidato do FPÖ, que perdeu presidência por 0,6 ponto percentual, diz muito sobre como populistas vêm conseguindo capitalizar crise migratória e insatisfação generalizada com partidos tradicionais.

Norbert Hofer perdeu as eleições presidenciais, mas conseguiu dividir a Áustria. Com um discurso eurocético e anti-imigração, apresentando-se como um "homem do povo", ele ficou a apenas 0,6 ponto percentual do Alexander van der Bellen, do Partido Verde, eleito com 50,3% dos votos - muitos deles, afirmam analistas, usados apenas para conter a ascensão do populista de direita.

O desempenho de Hofer diz muito sobre como os partidos populistas em toda a Europa vêm conseguindo capitalizar em cima da crise migratória e da insatisfação generalizada com os partidos tradicionais da política. E isso na Áustria, um país considerado próspero e com baixa taxa de desemprego.

Enquanto, em debates na TV, Hofer se apresentava como "um homem do povo", classificava o professor de economia Van der Bellen como o "candidato da alta sociedade". Isso funcionou entre grande parte de seu eleitorado - principalmente entre a maioria dos cidadãos com baixo ou médio nível educacional.

Apesar da derrota apertada, essa imagem vendida por Hofer mostrou ser bem-aceita. "Eu vou às compras de bicicleta e corto a grama no fim de semana", afirmou o candidato do Partido da Liberdade (FPÖ) em entrevista à revista alemã de orientação de direita Junge Freiheit antes das eleições. "Minha esposa cuida de idosos, e vivemos com nossa filha numa casa comum no estado de Burgenland: somos uma família bem normal."

Hofer disse ainda haver presenteado um buquê de flores à sua mulher por ocasião do dias das mães. Além disso, ele gosta de se apresentar como um bom cristão, usando como talismã uma cruz preta e prateada.

Rosto simpático do FPÖ

A carreira política de Norbert Hofer começou cedo. Já com 24 anos, o técnico de aviação se tornou chefe de seu partido em Eisenstadt. Um ano mais tarde, ele já havia assumido o posto de secretário estadual do FPÖ. Há dois anos e meio, ele é membro da diretoria do Conselho Nacional, a câmara baixa do Parlamento austríaco. Ele tem dificuldade motora, fruto de um acidente de parapente em 2003.

Durante a campanha eleitoral, Hofer se mostrou como rosto amigável do FPÖ. Suas posições, no entanto, são tanto claras quanto decisivas. Sua página de internet abre com a rubrica Doze perguntas a Norbert Hofer. Uma das questões indagava o que o levaria ao desespero. A resposta: "O fato de os políticos que se encontram atualmente no poder terem jogado fora, em apenas alguns meses, o legado dos nossos pais e avós."

Quanto à pergunta sobre o projeto a ser implementado o mais rápido possível, ele respondeu: "A proteção de nossas fronteiras". Durante um comício, Hofer chamou os migrantes de "invasores" e disse querer "uma cerca da mesma forma que existe na Hungria".

O populista de direita parece ter sucesso com tais pontos de vista. De acordo com o jornal Salzburger Nachrichten, Hofer consegue bem levar até as pessoas de posições liberais com um sorriso simpático.

Presidente radical, ideologia duvidosa

Diante dessas e outras afirmações, seus críticos o veem de outra forma. Após uma entrevista com o político populista de direita, a revista austríaca Profil chegou à conclusão: "Ele seria um presidente radical num entorno ideológico duvidoso."

A publicação disse ainda: "Norbert Hofer é um lobo em pele de cordeiro; ele está disposto a ampliar radicalmente as competências do chefe de Estado, como ninguém ousou antes dele; ideologicamente, ele se encontra num espaço germânico-nacionalista, ao lado de pessoas que defendem ao menos posições neutras diante da Wehrmacht [Forças Armadas alemãs na Segunda Guerra]."

Num painel de discussões, o editor-chefe da Profil, Christian Rainer, afirmou: "Hofer quer uma república travestida de reino: Se vocês não concordarem, vou usar a força."

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