"Austríacos simplesmente votaram no mal menor"

Bernd Riegert (ca)

Após desempenho de populista de direita nas presidenciais, cientista política afirma que muitos países na Europa vão observar bem a Áustria, por terem tendências semelhantes em seus próprios territórios.

Nobert Hofer, candidato do partido populista de direita Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), perdeu as eleições presidenciais de seu país por apenas 0,6 ponto percentual. O vencedor foi Alexander van der Bellen, político com raízes verdes e que concorreu como candidato independente e com um discurso que flertava com o conservadorismo e o patriotismo.

Apesar de esquerda e direita terem obtido quase a mesma quantidade de votos, em entrevista à Deutsche Welle, a cientista política austríaca Sylvia Kritizinger afirma que não se pode dizer que seu país esteja dividido, já que no segundo turno havia somente dois candidatos, e as posições de centro já haviam se despedido na primeira votação.

"Votou-se simplesmente no mal menor", opina Kritizinger, professora da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Viena e especialista em comportamento eleitoral e opinião pública.

DW: Candidatos da esquerda e da direita receberam, respectivamente, metade dos votos. Isso quer dizer que a Áustria se encontra dividida no meio?

Sylvia Kritizinger: Não, não se pode dizer isso. No segundo turno, tivemos apenas dois candidatos. Os cidadãos tiveram que decidir então entre a esquerda e a direita. Eu não diria que aí se pode ver uma divisão.

Mas que fim levou o centro político na Áustria?

A orientação de centro se despediu no primeiro turno com a saída dos antigos grandes partidos - Partido Social Democrata da Áustria (SPÖ) e Partido Popular Austríaco (ÖVP) -por não poderem reunir votos suficientes. Assim, restaram apenas dois candidatos nas extremidades dos polos. E, nesta eleição, o centro teve que se decidir por um dos dois.

Mesmo assim, um populista de direita, como ele é conhecido fora da Áustria, conseguiu obter 50% dos votos. Ele apostou na carta nacionalista. Os tabus agora são quebrados no país?

Não, eu não acho que se pode dizer que isto é uma quebra de tabu. Uma coisa é preciso ter em mente: na Áustria, existem muitos eleitores e eleitoras que também excluíam a possibilidade de votar num candidato verde. Votou-se simplesmente no mal menor. Nesse caso, para alguns era o candidato do Partido da Liberdade (FPÖ).

Para outros, o candidato verde foi o mal menor. Pode-se dizer que o FPÖ se tornou aceitável no cenário político. Mas gostaria de alertar para assertivas que falam agora que uma maioria de austríacos simpatiza, de repente, com o Partido da Liberdade.

O segundo turno das eleições presidenciais foi uma votação de protesto?

Isso ainda se podia dizer no primeiro turno, quando os partidos governistas SPÖ e ÖVP foram punidos de forma bastante clara. Mas esse protesto não se repetiu na segunda votação, já que era preciso se decidir entre esquerda e direita. Foi uma decisão por um ou outro candidato.

No Palácio de Hofburg, sede da presidência austríaca, o interesse internacional pelas eleições presidenciais foi muito grande. O fato de o exterior estar de olho nas eleições tem alguma importância?

Eu não gostaria de superestimar esse fato. Acho que o exterior está mais interessado na Áustria do que os austríacos em temas estrangeiros.

Essa também foi uma votação sobre a Europa e sobre os pontos de vista de política europeia dos candidatos? Qual foi o ponto principal na eleição?

Acho que é preciso diferenciar as competências de um presidente. Acredito que houve um monte de posições que não pertencem, de forma alguma, a uma eleição para a presidência austríaca. Um dos pontos importantes é certamente a questão dos refugiados. Os austríacos entraram nessa onda. Nesse ponto, Norbert Hofer enfatizou durante toda a sua campanha qual direção o seu governo queria impor. Eu vejo a Europa com uma importância menor nesse pleito, ao contrário da questão dos refugiados.

Em sua opinião, a Áustria perderia em reputação na Europa se o candidato do FPÖ, Nobert Hofer, tivesse realmente se tornado presidente do país?

Acho que não. Há muitos outros países na Europa Ocidental que vão observar muito bem a Áustria, porque têm tendências semelhantes em seus próprios territórios. A Áustria foi o primeiro país do oeste europeu a ter que lidar com tal campanha eleitoral. Certamente, não haverá um segundo embargo da União Europeia (UE) contra Viena, como foi o caso durante a coalizão de governo ÖVP/FPÖ no ano 2000. Acho que os europeus aprenderam muito nesse ponto. A mídia internacional prestará bastante atenção à Áustria, como o fará com outros países da UE.

A eleição presidencial terá algum efeito sobre as eleições parlamentares para o Conselho Nacional? O partido populista de direita FPÖ está em ascensão? Ele influencia agora mais fortemente os antigos partidos tradicionais?

Acho que não se devem misturar as duas coisas. Uma é a eleição presidencial, onde as figuras dos candidatos estiveram em primeiro plano. A outra é o pleito parlamentar, onde o que está em jogo são os partidos.

É preciso observar primeiro o que o novo governo do chanceler federal Christian Kern (SPÖ) vai fazer. Ainda é cedo para prever as consequências de tudo isso, para prever como será a interação entre governo e presidência e que dinâmica vai se desenvolver a partir disso. Acredito que saberemos mais nas eleições parlamentares de 2018. Agora é muito cedo para especulações.

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