Tártaros vivem sob ameaça na Crimeia

Juri Rescheto, de Simferopol (pv)

Passados mais de dois anos desde a anexação da península no Mar Negro pela Rússia, o grupo étinico dos tártaros da Crimeia se sente cada vez mais indesejado e sob suspeita. E revive o trauma da deportação por Stalin.

"Agora ninguém pode me fazer nada", alegra-se Zera Emir-Suin, com um certo ar de triunfo. "Agora eu tenho um krisha: o grande mufti da Crimeia." Em russo, krishasignifica literalmente "telhado", mas tem também a acepção de "patrono" - algo de que Emir-Suin precisa atualmente, mais do que nunca.

Sorriso maroto, língua afiada, batalhadora pela causa justa, um ano atrás ela era uma das telejornalistas mais conhecidas da península da Crimeia. Muitos ligavam para pedir ajuda, tártaros como ela. E Emir-Suin os auxiliava em seus programas televisivos.

Contudo, da noite para o dia, a estação de TV ATR foi proibida e ela perdeu o emprego. Como centenas de outros tártaros da Crimeia, de repente passou a sentir-se indesejada e alvo de suspeita generalizada - em sua própria terra, súbito sob domínio russo.

Depois de um ano de desemprego e desespero, a jornalista reencontrou, "graças a Alá", a felicidade como porta-voz da Administração Espiritual dos Muçulmanos da Crimeia (DUMK), a autoridade religiosa suprema dos tártaros na região. E assim seu líder religioso, Emirali Ablaev, tornou-se o patrono de Emir-Suin.

Deportações traumáticas

Um rito memorial transcorre na mesquita no centro do assentamento tártaro, nos arredores de Simferopol. À entrada da construção de madeira, a normalmente tão autoconfiante Zera Emir-Suin para e parece outra pessoa. "Daqui a gente não passa", sussurra, com veneração: "Mulheres não podem entrar nesta sala de oração." Lá dentro cerca de 100 homens estão rezando pelas vítimas das deportações, 72 anos atrás.

Em maio de 1944, o ditador soviético Josef Stalin ordenou que os tártaros da Crimeia fossem realocados à força para o Uzbequistão, sob o pretexto que poderiam trair os russos na luta contra a Alemanha nazista de Adolf Hitler. Essa expulsão dos tártaros, da sua pátria histórica para Ásia Central, não foi apenas a deportação violenta de um grupo étnico, mas o ataque à dignidade de um povo, a seu direito de existir.

À noite, as forças de segurança soviéticas juntavam sobretudo mulheres, crianças e idosos nos vagões de gado, para enviá-los ao Uzbequistão. A maioria dos homens estava no front soviético, combatendo a Alemanha nazista - o que torna a acusação de Stalin ainda mais absurda.

A longa viagem de trem até a Ásia Central foi uma tortura para os deportados: muitos morreram no caminho, muitos nunca voltaram a ver a terra natal. Num destes vagões estava Moradie, na época com cinco anos de idade. O fato de o pai dela ser um dos que lutavam contra os nazistas não foi de grande ajuda: a família teve que deixar a casa e foi deportada.

Aumenta pressão sobre os tártaros

Hoje Moradie tem 77 anos. Juntamente com o marido Akchy e os netos Lilia e Eldar, foi convidada a tomar um café na casa da ex-apresentadora Emir-Suin, após o culto fúnebre na mesquita. No assentamento tártaro, todos se conhecem.

"Nós, os tártaros da Crimeia, sempre fomos maltratados", reclama Moradie, que prefere ocultar seu nome completo. "E agora vem esse russo, de novo, arrumar confusão com a gente. Eu não quero, prefiro morrer a deixar a minha Crimeia."

"Esse russo" ou "os homenzinhos verdes" é como os tártaros da Crimeia denominam os soldados russos que, dois ano atrás, invadiram e conquistaram uma base militar ucraniana após a outra, sem alarde, quase sem combate. E de repente, em seguida a um controverso referendo de anexação, a Crimeia não era mais ucraniana, mas russa.

"Não xingue, Moradie. Vá só vivendo a sua vida em paz. Ninguém vai lhe fazer nada", tranquiliza Zera Emir-Suin. No entanto a pressão sobre os tártaros da Crimeia está aumentando, de fato. As autoridades russas proibiram, por exemplo, a marcha anual em memória das deportações. Muitos oposicionistas já se mudaram para a Ucrânia.

Nos últimos meses, a própria Emir-Suin também teve várias vezes que "se apresentar ao gabinete" - como ela chama os interrogatórios na promotoria pública -por criticar demais em seus relatos como jornalista. E também porque na época ainda não tinha um krisha, a mão protetora de sua autoridade religiosa.

Bétula e Rio Volga em vez de ciprestes

Porém a ex-jornalista ressalva que não há discriminação no dia a dia. "Ninguém odeia você por ser tártaro da Crimeia. Em geral, aqui é uma península incrivelmente tranquila, onde 140 nacionalidades convivem desde sempre. Mas essa suspeita generalizada é discriminatória. Sei de casas que foram revistadas por nada, vizinhos que desapareceram de repente. Muitos amigos meus não se atrevem a dizer abertamente o que podiam dizer antes. Eu também fiquei mais esperta", diz Emir-Suin.

Mais esperta ou mais medrosa? "A gente se adapta, digamos assim. As pessoas falam nas entrelinhas. É como antigamente, nos tempos da União Soviética." E por que ela não se muda para a Ucrânia, como outros 20 mil tártaros fizeram, após a anexação pela Rússia? "Nunca! A Crimeia nos pertence!"

E acrescenta um argumento surpreendente: não existe uma única canção popular russa sobre a Crimeia. Os russos cantariam sobre bétulas e o Rio Volga, mas nunca sobre os ciprestes da Crimeia. "Estas são nossas árvores nacionais", reforça Emir-Zera Suin. "Nosso orgulho e nossa dor. Nosso passado e nosso futuro."

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