"Brasília foi um tropeço histórico", diz Paulo Mendes da Rocha

Rafael Belicanta / Fernanda Azzolini

Em entrevista, arquiteto premiado na Bienal de Veneza afirma que tirar o título de capital do Rio de Janeiro foi erro político muito forte. "Isso não tem nada que ver com a obra do Niemeyer, que é altamente criativa."

"Um desafiador não conformista e, ao mesmo tempo, um realista apaixonado. O atributo mais marcante de sua arquitetura é a atemporalidade." Com essas palavras, o comitê da Bienal de Arquitetura de Veneza anunciou o Leão de Ouro para Paulo Mendes da Rocha pelo conjunto de sua obra.

Para o arquiteto, receber o Leão de Ouro é uma homenagem extraordinária. "É o mais sedutor, o mais erótico prêmio de arquitetura que possa existir", afirmou. Mendes da Rocha é o segundo arquiteto brasileiro a receber o Leão de Ouro. Antes dele, só Oscar Niemeyer, há vinte anos, foi laureado no evento.

Erro político

Mendes da Rocha defende uma arquitetura simples e social e afirma que a política é a questão central da arquitetura e da cidade contemporânea. Questionado sobre o que faria se um dia tivesse a possibilidade de reconstruir Brasília, ele é enfático: "Eu não teria feito Brasília."

Para ele, comunicar a uma cidade como o Rio de Janeiro que "aqui não é mais a capital" é um erro muito forte do ponto de vista político.

É como se, na Itália, dissessem: agora Roma não é mais a capital. Não faz nenhum sentido. É um tropeço histórico. Não tem nada que ver com a obra do Niemeyer, que é altamente criativa. É a decisão política que, na minha opinião, é errada."

Para ele, a construção de outras cidades teria sido muito mais útil na época: "A navegação da grande rede hidroviária do Brasil e as ligações necessárias e fáceis de imaginar entre o Atlântico e o Pacífico obrigariam à construção de inúmeras cidades com uma utilidade mais interessante do que aquilo que já estava feito, que era a capital no Rio de Janeiro".

Arquitetura brasileira nos dias atuais

O tema da Bienal de Arquitetura de Veneza 2016, "Reporting from the front" (Notícias do front, em tradução livre), inspirou o arquiteto ao comentar a situação da arquitetura brasileira. Segundo ele, ela está na mesma situação: "Precisando de boas notícias do front".

Para Mendes da Rocha, o desenvolvimento sustentável não é um obstáculo para a arquitetura. "A sustentabilidade deve ser entendida não como uma intocabilidade, mas como uma transformação virtuosa. Para lembrar, o Tâmisa, em Londres, não é o rio original, o Sena, em Paris, também não. Foram transformados para frequentar o espaço da cidade", comenta.

Nascido em 1928, Mendes Rocha pertence à geração de arquitetos modernistas liderado por Vilanova Artigas, da Escola Paulista. O movimento, também chamado de arquitetura brutalista, teve início na década de 1950 e se caracteriza, entre outras coisas, pela adoção de concreto armado aparente e valorização da estrutura.

Entre os principais projetos de Mendes da Rocha estão o Ginásio do Clube Atlético Paulistano, o Edifício Guaimbê, o Museu Brasileiro da Escultura, o Museu da Língua Portuguesa e a reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo. Por este último, o arquiteto recebeu, em 2001, o Prêmio Mies van der Rohe para a América Latina.

Em 2006, Paulo Mendes da Rocha se tornou o segundo brasileiro a receber o Prêmio Pritzker, o mais importante da arquitetura mundial. Oscar Niemeyer foi laureado em 1988.

Aos 87 anos, e em plena atividade, o mais novo projeto de Mendes da Rocha é a reforma da entrada principal do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

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