No debate sobre Brexit, único consenso é a incerteza

Chris Cottrell (md)

Questão sobre se os britânicos devem escolher sair ou ficar na União Europeia ainda causa confusão. Mesmo economistas não chegam a um acordo sobre quais seriam as reais consequências do resultado do referendo.

Três semanas antes do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, economistas e políticos britânicos e europeus trocaram opiniões - e algumas farpas - sobre se sair do bloco seria positivo ou não.

Isso pode ter algo a ver com o fato de que muitos economistas e organizações internacionais - mais recentemente, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e o G7 - estão alertando para as consequências imprevisíveis e potencialmente nefastas para a economia britânica de uma saída do Reino Unido.

Incerteza, eles argumentam, desestimularia o investimento e poderia ser fatal para o aumento do desemprego. "A maioria dos economistas que analisaram a alternativas de sair e de permanecer está preocupada com as consequências a curto prazo para o Reino Unido", disse Vicky Pryce, assessora do Centro de Pesquisa de Economia e Negócios (CEPR), de Londres, durante debate em Berlim organizado pela YouGov, empresa de pesquisa de mercado sediada no Reino Unido.

"Só falar na saída do Reino Unido da UE já teve um efeito adverso", acrescenta Pryce, apontando para uma queda do investimento empresarial no último trimestre.

Com o pé atrás

Mas nem todo mundo está convencido. O ex-ministro do Trabalho britânico Iain Duncan Smith, proeminente defensor do Brexit e membro do Partido Conservador britânico, não mediu palavras durante o debate para expressar suas dúvidas sobre os prognósticos dos especialistas.

"Não acredito que os economistas sejam bons em prever o futuro mais do que um feiticeiro", disse. "Vou começar a ouvir a previsão dos economistas quando eles realmente começarem a acertar de vez em quando."

"Muito mais do que o acesso do Reino Unido ao mercado único da UE, o maior bloco econômico do mundo, os eleitores britânicos ficaram preocupados com questões mais próximas de suas casas", lembrou Duncan Smith um dia mais tarde, durante uma entrevista no estúdio da DW.

Os partidários da saída da UE ficam, em grande parte, de pé atrás quando pensam no efeito potencialmente negativo que a saída poderia ter sobre empregos e salários no Reino Unido. Em resposta, a argumentação mudou para questões como migração ou reclamar a "soberania perdida" para Bruxelas.

Sem almoço grátis

Os comentários de Duncan Smith são apoiados por uma pesquisa recente da YouGov, que revelou que 62% dos eleitores britânicos acreditam que migração e benefícios de bem-estar social são as áreas mais importantes em que há necessidade de uma reforma dentro da UE. Essa categoria também foi classificada como a mais urgente por alemães (52%) e franceses (43%).

Uma preocupação em particular é que o Reino Unido não tenha facilidade em renegociar novos acordos comerciais bilaterais com a UE que lhe possibilitem as mesmas liberdades que detém agora. "É muito pouco improvável que o Reino Unido consiga obter um almoço gratuito da União Europeia", brincou Michael Wohlgemuth, economista do think tank Open Europe Berlin. "Não haveria obrigação nenhuma em dar ao Reino Unido um acordo comercial doce."

Incerteza

Esse sentimento foi refletido em uma outra pergunta da pesquisa da YouGov, em que os entrevistados são questionados sobre se são contra oferecer acordos comerciais aos britânicos sem condições prévias.

Entre os entrevistados na Alemanha, 32% disseram que um acordo deve envolver o pagamento pelos britânicos de algumas contribuições financeiras para o orçamento da UE, enquanto 18% disseram que Bruxelas só deve chegar a um acordo de livre-comércio com Londres se o governo britânico concordar em deixar que os cidadãos da UE trabalhem e vivam lá.

Já 41% dos britânicos acham que o Reino Unido merecia um acordo de livre comércio sem quaisquer condições prévias, enquanto 12% disseram que o Reino Unido deveria pagar. Já 9% afirmaram que Londres deve dar acesso aos cidadãos da UE ao seu mercado de trabalho, em troca de acesso ao mercado único europeu.

Mas parece que para cada argumento dos partidários da permanência na UE há um contrário do outro lado. E, para pelo menos um participante do debate, os argumentos não foram suficientes para convencê-lo.

"Se você diz, 'é tudo incerto', eu digo viva!", brincou Simon Jenkins, colunista do jornal The Guardian, que desempenhou no debate o papel de defensor da saída da UE, embora ele tenha dito não ter opinião totalmente formada. "A certeza é a morte da mudança política."

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