"Tudo se resume a dinheiro", diz diretor de "Dirty Games"

Jochen Kürten (ff)

Diretor de premiado documentário sobre corrupção no esporte chama atenção para irregularidades em todas as esferas e afirma que torcedores são corresponsáveis: "Poder de mudar está nas mãos deles."

Centenas de operários nepaleses que trabalhavam na construção das sedes da Copa do Mundo de 2022, no Catar, morreram. Comunidades inteiras no Rio de Janeiro foram removidas para dar lugar às obras das Olimpíadas. Não é mera coincidência que Dirty Games, o novo filme do jornalista e documentarista alemão Benjamin Best, chega aos cinemas às vesperas da Eurocopa e dos Jogos Olímpicos do Rio.

O documentário, que fala sobre o lado sujo da indústria esportiva internacional em seis capítulos, se concentra no futebol, o esporte mais popular do planeta. Mas Best também trata do basquete e do boxe, ao examinar as manipulações e corrupção que acompanham os jogos e as conexões entre esporte, política e dinheiro.

O filme, que já venceu sete prêmios em festivais pelo mundo, teve sua estreia mundial esta semana.

DW: Por que você escolheu focar em futebol, basquete e boxe?

Benjamin Best: Eu queria encontrar protagonistas fortes, que falassem bem e contassem histórias interessantes, foi assim que cheguei a esses três. O futebol, além de tudo, é o esporte mais popular do mundo, aquele que interessa ao maior número de pessoas e também que tem os eventos mais controversos pela frente nos próximos anos.

"Dirty Games" descreve o lado sujo dos esportes. O que o atraiu para esse tema?

As conexões entre esporte e política, esporte e corrupção, esporte e crime organizado são os temas que mais me interessam. Se você olhar para os maiores eventos esportivos, percebe que há enormes interesses políticos ali. Violações de direitos humanos, por exemplo: me parece que esses eventos precisam acontecer, não importa a que custo - até mesmo mortes são aceitáveis. Eu queria fazer uma crônica dessas injustiças em Dirty Games.

Quais são as razões por trás disso?

Para mim, são duas. Primeiro, poder - políticos, governos, autoridades públicas. Mas também, é óbvio, dinheiro - isso é muito claro. Os envolvidos querem ganhar dinheiro combinando e manipulando resultados. Essa é uma força motriz importante.

Também se trata de políticos quererem exibir poder em grandes eventos esportivos?

A questão é muito mais multifacetada. Não se trata apenas de estampar uma imagem de poder. Trata-se também de aproveitar a oportunidade para fazer passar certas leis difíceis de se aceitar - por exemplo, a remoção de favelas. Quando se trata de grandes eventos, pode-se exercer um certo tipo de poder que não se poderia em circunstâncias normais, ou apenas com muita dificuldade. Políticos exploram esses grandes eventos - ou melhor, políticos exploram o poder desses eventos - para impor seus próprios interesses.

Esse caso específico aconteceu no Brasil no período preparatório para os Jogos Olímpicos e também antes da Copa de 2014. E vem sempre acompanhado de corrupção, por exemplo, na relação com empreiteiras, para a construção de estádios e de infraestrutura. Esse também é um jogo sujo que acontece no contexto de grandes eventos esportivos.

Então tudo se resume a dinheiro?

É assustador. Há quase dez anos eu venho investigando fraudes em apostas, algo que também é tratado no filme: desde o dirigente de boxe dos Estados Unidos até o árbitro da NBA - no fim das contas tudo se resume a dinheiro, a enriquecimento próprio.

Isso está acontecendo em todos os níveis? Autoridades, atletas, agentes?

Absolutamente, sim! Treinadores estão envolvidos, atletas estão envolvidos, não são apenas forças externas agindo sobre o esporte. Os conluios também estão acontecendo internamente, no combinar de resultados, nos casos de doping. Não é correto dizer que o esporte é uma vítima. Do meu ponto de vista, o mundo esportivo tem igual responsabilidade sobre a situação atual.

Atletas de ponta também ou apenas nos níveis inferiores?

Quando falamos de manipulação de resultados, não há nenhum caso conhecido na primeira e segunda divisões do futebol alemão, digamos assim. A atenção sobre a primeira divisão logicamente é muito alta. Nenhum jogador pode se permitir ter um mau desempenho. Nem na segunda divisão.

Mas, dali para baixo, sempre ocorrem anomalias, inclusive na Alemanha. Nessas esferas, o interesse do público não é tão grande, não há tantas câmeras de TV. Os jogadores também ganham bem menos. E é aí que está o perigo. Se falarmos sobre apostas, é possível participar de até a liga juvenil. E o risco aí é claro.

Mas em seu filme veem-se essas coisas acontecendo nos mais altos níveis nos EUA, em boxe e basquete...

Verdade, o árbitro da NBA. Ele disse claramente que a liga tem influência sobre os jogos, ditando, por exemplo, que faltas certos astros podem cometer sem serem punidos. Esses jogadores são de fato a força motriz da NBA, são ídolos não só nos EUA, mas em todo o mundo. Nos playoffs, por exemplo, apita-se de forma a prolongar a partida, para aumentar a audiência e, com isso, obter mais dinheiro de publicidade.

O problema da corrupção afeta apenas os grandes eventos esportivos?

São principalmente as autoridades que estão por trás da corrupção. Se olharmos para países como Alemanha, Suíça, Noruega, quando eles fizeram referendos sobre sediar grandes eventos esportivos, perderam. Países democráticos, felizmente, ainda têm uma chance.

Eu me pergunto por que o mundo esportivo não se levantou e disse que é hora de mudar alguma coisa. É claro que agora o COI [Comitê Olímpico Internacional] e seu presidente, Thomas Bach, estão querendo promover mudanças. Tudo parece muito bom no papel, mas temos que ver como será implementado. Eu acho que eles perceberam que as coisas não podiam continuar como estavam. Não é bom para o esporte quando grandes eventos acontecem repetidamente em países como Coreia do Sul e China.

Você também incluiu um episódio mais esperançoso, embora provocativo, no final do filme, quando descreve como alguns torcedores do Manchester United começaram a se afastar do clube, onde tudo gira em torno do dinheiro. Eles não vão mais ao estádio assistir aos jogos. Em vez disso, fundaram seu próprio clube. Esse é o modelo do futuro?

Eu coloquei esse episódio no final de propósito. Para dar o exemplo e mostrar que há certos torcedores que estão se rebelando contra o sistema. Na minha opinião, isso deveria acontecer mais e mais. Afinal, o poder está na mão dos torcedores. Eles não precisam ir ao estádio, eles não precisam ligar a TV. Muitas pessoas ainda veem o esporte apenas como uma forma de entretenimento. Ele também é, claro, mas, com todos esses excessos, as pessoas não podem mais fingir que não veem. Para mim, os torcedores também são responsáveis - e o Manchester é um excelente exemplo de como as coisas deveriam prosseguir.

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