Entre dois candidatos extremos, peruanos elegem presidente

Astrid Prange (av)

Segundo turno contrapõe candidatos desiguais: a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, preso por corrupção e violação dos direitos humanos, e o ex-ministro neoliberal Kuczynski. Enquetes prometem disputa acirrada.

O segundo turno da eleição presidencial deste domingo (05/06) no Peru é a escolha entre dois estilos de governo: autoritário-populista contra conservador-liberal. E os candidatos não poderiam ser mais distintos.

Keiko Fujimori, de 41 anos, já foi primeira-dama do país, papel que lhe coube em 1998, após o afastamento de seu pai, o então presidente Alberto Fujimori. O adversário dela é Pedro Pablo Kuczynski, ex-ministro de Economia e Finanças, de 77 anos.

Apesar das personalidades contrastantes, pelo menos dois pontos em comum unem os rivais políticos: ambos vêm de famílias de imigrantes, e concorreram no pleito presidencial de 2011.

"Ela sabe se vender bem, exatamente como o pai dela, que ia de trator até os lugarejos e inaugurava pessoalmente cada ponte", admitiu o adversário Kuczynski sobre Fujimori ao jornal espanhol El País. "E a minha idade não é, definitivamente, nenhum ponto de vantagem."

Decisão cabe aos indecisos

No entanto o político nascido em 1938 em Lima, filho de um médico de Berlim emigrado para o Peru durante o nacional-socialismo, vai recuperando terreno. As últimas pesquisas de intenção de voto antes das eleições indicam um empate técnico: 50,3% para Keiko Fujimori contra 49,7% para Pedro Kuczynski.

No primeiro turno, em 10 de abril último, o quadro ainda era totalmente outro: ela liderava as sondagens, com 40% dos votos, enquanto os 21% dele só bastavam para chegar até o segundo turno. Agora a decisão sobre o resultado do escrutínio cabe aos indecisos do Peru - 19% dos 23 milhões de votantes.

Fujimori reagiu a esse recuo com uma avalanche de promessas aos diferentes grupos de interesse. Aos policiais assegurou que em seu tempo livre eles poderão voltar a trabalhar para firmas de segurança privadas. Aos evangélicos prometeu "frear" os abortos e os casamentos homossexuais. E aos produtores de leite deu esperanças de preços mais altos.

Luta contra o próprio passado

Os tempos parecem de conto de fadas para os peruanos. Enquanto nos vizinhos Venezuela, Brasil e Argentina, a população geme sob ditados de austeridade e preços de eletricidade em alta, o país andino ostenta crescimento econômico. Segundo o Banco Mundial, nos últimos dez anos a economia peruana cresceu, em média, 5,9% ao ano. Entre 2005 e 2015 a taxa de pobreza caiu de 55% para 22%.

Apesar dos números promissores, o diário El Comercio se mostra intransigente com as "ofertas populistas" de Fujimori: "Talvez uma lamentável ignorância possa desculpar uma sugestão ou outra. Quanto à proposta de controlar os preços do leite, contudo, trata-se de má intenção."

Outro ponto une os dois candidatos desiguais: eles têm que lutar contra o próprio passado político. Enquanto o ex-chefe da pasta das Finanças e ex-presidente do Banco Central peruano Kuczynski é taxado de defensor neoliberal da economia de mercado, Fujimori é acusada de intenções antidemocráticas.

Seu pai, Alberto Fujimori, presidente de 1990 a 2000, cumpre 25 anos de prisão por corrupção e crimes contra os direitos humanos. Em 1992, com a ajuda dos militares, ele dissolveu o congresso nacional e se estabeleceu como governante autocrata.

Sob suas ordens foi implementado o altamente controverso Programa Nacional de Saúde Reprodutiva e Planejamento Familiar. Nele, sob o pretexto de planejamento, de 1996 a 2000 cerca de 300 mil mulheres das classes mais pobres, na maioria indígenas, sofreram esterilização compulsória.

Alerta contra o clã Fujimori

No entanto, sobretudo nas regiões rurais andinas, o ex-presidente ainda é honrado como herói, por sua vitória contra o Partido Comunista do Peru, conhecido como Sendero Luminoso. A guerra civil contra a guerrilha maoísta, que durou de 1980 a 2000, custou 70 mil vidas humanas.

Os adeptos de Keiko Fujimori esperam que, assim como o pai, ela vá investir "com mão dura" contra os criminosos. Seus críticos, em contrapartida, temem uma volta da autocracia, populismo e clientelismo.

Num editorial, El País adverte contra um retorno do clã Fujimori ao poder. "Demasiados críticos de Keiko estão concentrados em atacá-la por causa do passado dela. Muito mais perigosas, entretanto, são as consequências políticas de uma vitória sua para o futuro do país."

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