Eleição mostra como fujimorismo divide peruanos

Carolina Chimoy (fc)

Disputa eleitoral apertada mostra como figura do ditador ainda polariza país: de um lado, os que associam seu nome ao fim do terrorismo; do outro, os que temem a volta do populismo de direita, através de sua filha Keiko.

Em Lima, é possível escutar em cada esquina discussões apaixonadas sobre os prós e contras dos candidatos que disputaram o segundo turno das eleições presidenciais - Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, e o economista Pedro Pablo Kuczynski.

Muitas vezes, são usadas palavras que marcam a tradição do clientelismo nesta jovem democracia: "Para mim, é melhor que ganhe...". Um nome, porém, parece onipresente, um que colocou sua marca em ambos os lados da corrida eleitoral neste segundo turno: Fujimori.

Mesmo com mais de 99% da apuração oficial dos votos, até o início desta quarta-feira os peruanos continuavam sem saber com certeza quem seria seu próximo presidente.

Participação política

O cenário político no país é caracterizado pelo fato de cada vez antes de uma eleição presidencial surgir vários partidos de diferentes cores e tamanhos. Dessa mesma forma começou o Força Popular (PPK), de Keiko. Ou, no passado, Cambio 90, liderado por Alberto Fujimori.

O presidente que dissolveu o Congresso em 1992 para poder governar de forma autoritária cumpre, agora, uma sentença de 25 anos de prisão por violação dos direitos humanos e corrupção durante seu governo.

A participação eleitoral é próxima dos 80%, o que é um sonho tornado realidade para muitas democracias mais antigas. Mas, neste caso, a alta participação se deve à força do voto obrigatório no país e ao entusiasmo político dos cidadãos. Desta vez as eleições tiveram um caráter mais democrático no sentido de participação política. E existem duas razões para isso.

O medo do possível retorno de um regime fujimorista tem levado as pessoas de todas as camadas sociais a se unirem ao movimento "anti-Keiko" nas ruas, conhecido pelas grandes marchas que se caracterizaram pela diversidade do espectro político e social.

Não só as pessoas que sofreram sob a ditadura de Alberto Fujimori deram vida a este movimento, mas também o novo entusiasmo e interesse político dos jovens peruanos que têm desempenhado, nos dois lados da disputa, um papel essencial nestas eleições. Da mesma forma, a sociedade civil no Peru, que agora é mais sólida do que antes, tem sido capaz de se expressar e se defender contra um populismo de direita.

No entanto, cabe mencionar que o desempenho alcançado por Keiko Fujimori, até o último momento, é indiscutível. O apoio ao fujimorismo no Peru existe, e é muito forte.

À sua maneira, um populismo de direito bem sucedido. Ele encontra apoio principalmente em peruanos que relacionam o nome Fujimori com o fim do terrorismo no país. E em pessoas que acreditam em promessas fáceis e se deixam cativar por presentes de campanhas, assim como os potenciais benefícios do clientelismo.

A necessidade de mediar

O partido de Keiko - um tecnocrata, um banqueiro que em bairros mais populares e na província é conhecido como "o candidato dos ricos" - fez uma campanha menos agressiva e com propostas técnicas, estratégicas e, provavelmente, mais realistas que as de seu adversário. Se for confirmada a sua vitória, o partido mostraria que no Peru não só os populistas podem ser vitoriosos.

Ao ocupar a presidência, o primeiro desafio do partido de Keiko seria explicar quem ele é. E Pedro Pablo Kuczynski definiu sua campanha por tudo o que ele não é: e ele não e, acima de tudo, um fujimorista. Seu partido, Peruanos pela Mudança, é uma legenda nova que aglutina diversos grupos políticos pequenos, que, por sua vez, representam diferentes interesses.

Kuczynski deverá mediar dentro de seu partido para consolidá-lo como tal. Não será necessário somente a uma mediação interna, mas também externa. Tendo um Parlamento dominado pelo Força Popular, para assumir a presidência o PKK terá que construir pontes com o partido de Keiko Fujimori.

Isto não deveria ser tão difícil, considerando que ambos os candidatos apresentaram semelhanças em suas propostas políticas e econômicas durante as campanhas. No entanto, ao mesmo tempo terá que saber como satisfazer à esquerda. Os votos da esquerda, vindos da candidata Verónica Mendonza - a terceira colocada no primeiro turno - são os que deram impulso final ao PKK na segunda rodada.

Quer quem seja o vencedor desta longa e tensa jornada eleitoral, o próximo presidente ou a próxima presidente do Peru será de direita. Peru se junta, assim, à lista de países sul-americanos que agora escolheram governos conservadores.

Uma tendência que reflete uma ruptura com as esperanças depositadas, até agora, em governos de centro-esquerda e reforçam um desejo de ver um presidente que atue com mão dura em temas de segurança civil e com uma "mão invisível" em relação aos assuntos econômicos, com a esperança de que se consiga, assim, estimular as economias do continente castigadas pelos preços baixos das commodities.

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