Estilistas descobrem a moda islâmica

Kersten Knipp (ca)

Grifes ocidentais experimentam com tradições muçulmanas de vestuário. No mundo da moda, peças como o véu ganham um novo destaque, mas arriscam perder seu significado original.

Padres, viúvas sicilianas... e agora o véu islâmico: foi somente uma questão de tempo até a grife italiana Dolce & Gabbana se aventurar pelos códigos de vestuário islâmicos afora.

Nos últimos anos os dois designers italianos têm se inspirado em tradições que não se costuma associar diretamente à alta costura. O luto das mulheres que perderam seus maridos, a reclusão dos religiosos: na passarela, essa austera áurea se torna mera citação - mas ainda forte o suficiente para também conferir toques de ascetismo ao mundano universo da moda.

Agora é a vez do véu islâmico. E não é o caso somente de Dolce & Gabbana: a marca sueca H&M fez de Mariah Idrissi, jovem britânica de origem paquistano-marroquina, a primeira modelo islâmica de fama mundial. A grife Mango lançou moda feminina para o mês de jejum do Ramadã. DKNY concebe agora vestimentas de acordo com as regras do islã, e a rede Marks & Spencer oferece a suas clientes muçulmanas fervorosas um chamado "burkini", uma roupa de banho que cobre todo o corpo.

O estilista alemão Wolfgang Joop planeja abrir uma filial justamente em Teerã, capital da revolução islâmica. Na TV alemã, ele explicou que o estilo islâmico de vestimenta é uma expressão da emancipação feminina: "Eu me esquivo dos olhares, da crítica e da comparação - justamente em países orientais, onde sabemos que existe uma aura sexual muito carregada. Para mim, toda a atitude, a cultura, a moda oriental possui algo muito, muito erótico e muito misterioso."

"Hijab deve se tornar normal"

Ocultação e erotismo são um motivo ancestral - mas também no mundo islâmico? O Alcorão sugere outra interpretação. "E se pedirem algo de que precisem às esposas do Profeta, então o façam por trás de um hijab!", consta de uma das passagens referentes ao vestuário feminino. Destinada inicialmente às mulheres de Maomé, mais tarde a regra passou a valer para as demais muçulmanas. De acordo com a Conferência Islâmica Alemã, seu objetivo é contribuir para a segregação dos gêneros.

"Acredito no Corão", explicou a modelo da H&M Mariah Idrissi em entrevista à revista alemã Spiegel. "Cobrir-se é um dever - tanto para homens quanto para mulheres." Ao mesmo tempo, Idrissi admitiu perseguir outro objetivo: "O hijab deve se tornar normal."

Para alcançar isso, ela penetra num campo de tensão entre estética e religião nada fácil de solucionar. "Look chic" ("Seja chique"), diz um novo clipe da H&M, no momento em que Idrissi aparece. Em outras palavras: o hijab procura uma aliança com a estética.

Preço alto da normalidade

A oferta das grifes a clientes muçulmanas tem potencial: aparentemente, ela contribui para que o véu islâmico seja aceito no mundo ocidental. Mas o preço é alto, pois submete as mulheres aos ditames da beleza no espaço público. E é justamente isso que o islã, ao menos em sua interpretação clássica, tenta evitar. Pode ser que, dessa forma, no futuro o hijab de fato se torne uma presença natural no cotidiano ocidental - mas isso só é possível porque ele ter se curvado ao jugo do esteticismo.

Assim, a estetização do jihabpromovida pela indústria da moda poderá confrontar com um problema as muçulmanas que não se definem através de sua beleza e não querem ser vistas como objeto de desejo masculino. Justo aquele item de vestuário destinado a preservar a independência de tais mulheres ganha agora um novo significado que é o exato oposto do antigo: o véu islâmico passa a não mais esconder a beleza, mas sim a ressaltá-la.

Dessa forma, a interpretação tradicional do hijab fica submetida à pressão do culto à beleza que a indústria da moda quer agora cultivar em torno dele. Se o código de vestimenta islâmico aceitar tal oferta, seu sentido atual vai ser, no mínimo, colocado em questão. O maior presença do véu muçulmano implica uma renúncia a sua função anterior.

Adeus ao contexto

O hijab clássico é, acima tudo, consequente: ele interrompe o olhar masculino sobre o objeto de seu desejo e protege a mulher de avaliações. Dessa forma, comentou a cientista da cultura Barbara Finken na TV alemã, o véu islâmico pode ser visto como "uma proteção da mulher de ser vista e de ser um chamariz para o desejo masculino".

Mas é exatamente essa função que o hijab ameaça perder em sua aliança com a indústria da moda: algo que se pode festejar ou lamentar. Certo é que, nas mãos de estilistas criativos, o véu islâmico poderia se tornar um objeto que, como as roupas das viúvas sicilianas ou dos padres, só está associado a seu contexto original de forma lúdica e descompromissada.

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