Opinião: UE lança tigre de papel para rechaçar refugiados

Ludger Schadomsky

Para chefe da diplomacia europeia, novo pacto migratório é "revolução copernicana". Ter seu nome associado à patética política da UE é um insulto ao grande astrônomo, opina o jornalista Ludger Schadomsky.

Em sua política para os refugiados, a Europa vai adotar agora uma estratégia de tapas e carícias. Ou, como formulou de forma um tanto mais elegante a Comissão Europeia nesta terça-feira (07/06), passará a ser aplicada uma "combinação inteligente" de "estímulos positivos e negativos".

Para a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, o pacto sobre a migração representa até mesmo uma "revolução copernicana" na política migratória do bloco. Pode até ser: afinal, só 200 anos após a morte de Nicolau Copérnico suas revolucionárias ideias foram compreendidas pelos demais.

Fato é: isto que está se apresentado como plano de mestre é o atestado de que fracassou inteiramente a política para refugiados em relação à África adotada pela UE até o momento. Pois não faltam projetos e planos com nomes tão ilustres como "Processo de Cartum" ou "Declaração de Valetta", com o fim de deter o fluxo migratório. Infelizmente, nenhum deles funciona, nem para começar.

Vai-se "intensificar" o "engajamento" com a Líbia? O ministro líbio do Exterior não acabou de declarar que em hipótese alguma aceitará refugiados de volta? E de qual das muitas pequenas Líbias se está falando mesmo, no Estado falido da era pós-Kadafi? Não, quem dá os tapas não são os europeus, mas sim os potentados na África, que no momento utilizam descaradamente as ondas de refugiados como massa de negociação.

Bruxelas continua não entendendo que os supostos "parceiros" na África não têm o menor interesse em manter os migrantes, na maioria jovens e do sexo masculino - pelo contrário. Segundo fontes fidedignas, na Eritreia militares de alta patente fazem bom dinheiro com o tráfico humano para fora do próprio país.

Muitos cidadãos somalis, assim como a altamente corrupta casta política local, só estão sobrevivendo graças às transferências de dinheiro vindas da diáspora. E também em outras regiões africanas os dirigentes estão perfeitamente felizes de poder dar adeus aos jovens desempregados e potenciais agitadores.

A suposta ideia copernicana divulgada na terça-feira pelos tecnocratas da migração - fortalecer o desenvolvimento econômico nas nações de origem e de trânsito, assim garantindo perspectivas locais para a população - é tão antiga quanto a assistência humanitária na África e fracassou fragorosamente.

E é simplesmente grotesco a UE agora ameaçar com sanções comerciais os Estados indispostos a cooperar. Afinal, a maciçamente desonesta política comercial europeia é justo um dos motivos por que centenas de milhares de lavradores e pescadores africanos estão debandando em direção ao Velho Continente.

E, no entanto, também se apresentaram sugestões viáveis: centros de asilo da UE no Norte da África e na região do Sahel, para dar fim à fonte de negócios dos atravessadores e sustar a fatal fuga pelo mar. Ou - embora em âmbito restrito, pois isso incentivaria a evasão na África - a iniciativa apelidada de "Blue Card", para aquisição de mão-de-obra especializada.

A amarga verdade, contudo, sem qualquer benevolência ingênua, é que a política europeia para refugiados é uma política do rechaço, um deplorável e indigno trabalho de diletantes, que revela de maneira implacável os profundos fossos dentro da comunidade de Estados.

E aí se promete jogar montes de dinheiro em cima do problema - e nem mesmo isso funciona como deveria. No fundo de ajuda emergencial aprovado no fim de 2015, orçado em 1,8 bilhão de euros, os 28 Estados-membros depositaram até agora parcos 80 milhões de euros. Só mesmo a Comissão Europeia sabe de onde virão, até 2020, os 8 bilhões de euros anunciados nesta terça-feira.

Uma coisa é certa: Copérnico estará se virando na sepultura, diante da patética política simbólica da UE, para a qual Mogherini ainda usa o nome do grande astrônomo e matemático.

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