Distanciado de Obama, Netanyahu se aproxima de Putin

Bruce Konviser (ca)

Frustrado com as críticas americanas e europeias sobre a situação dos palestinos e com o acordo com o Irã, premiê israelense se volta para países como Rússia, Índia e China, a fim de fortalecer a posição de seu país.

A visita do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a uma comunidade judaica em Moscou, nesta quarta-feira (08/06), foi um de seus últimos compromissos no giro de dois dias e meio pela Rússia. O roteiro incluiu um encontro com o chefe de Estado russo, Vladimir Putin, pela quarta vez em um ano. No mesmo período, o premiê de Israel se reuniu apenas uma vez com o presidente americano, Barack Obama.

A aproximação de Netanyahu ao chefe do Kremlin acontece num momento em que as relações entre a Rússia e o Ocidente se encontram no pior nível desde o colapso da União Soviética, em 1991.

Apesar de Israel ser o maior receptor de ajuda externa dos EUA - mais de 3 bilhões de dólares anuais, destinados em grande parte a fins militares -, Netanyahu parece ter poucos escrúpulos em se aproximar de um país que enfrenta agora sanções dos EUA e da União Europeia devido á anexação da península da Crimeia em 2014 e a seu envolvimento no movimento separatista no leste da Ucrânia.

Supostamente o encontro entre Netanyahu e Putin se destinaria a marcar os 25 anos de reatamento de relações diplomáticas entre os dois países. Elas haviam sido cortadas durante a Guerra Fria, depois que Moscou ficou do lado dos países árabes durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Os dois estadistas também estão discutindo várias questões militares e de segurança, explorando oportunidades comerciais e possibilidades de reforçar os laços culturais. Mas nem todos os líderes internacionais se encontrariam quatro vezes num só ano para definir tais detalhes.

Acordo nuclear da discórdia

Contrastando com a crescente aproximação a Putin, está a tensa - se não áspera - relação de Netanyahu com Obama. O premiê é um crítico severo do acordo nuclear entre Washington e Teerã, o qual rotula como uma ameaça à segurança de Israel.

O acordo exige do Irã que desista de qualquer ambição de construir armas nucleares. Em troca, tem permissão para continuar seu programa nuclear para fins civis, e foi liberado das paralisantes sanções comerciais.

O pacto está condicionado ao que a administração Obama descreve como o sistema mais abrangente de inspeção e monitoramento jamais aplicado, além da ameaça do retorno rápido das sanções, se o Irã violar os termos do acordo. Mas as garantias de Barack Obama e de alguns peritos nucleares tiveram pouco efeito sobre os ânimos de Netanyahu.

David Makovsky, especialista do think tank Washington Institute for Near East Policy, acredita que Netanyahu e Putin possam ter problemas legítimos de segurança para discutir, mas ressalva: "Eles têm claramente um bom relacionamento. Melhor com Putin do que com Obama."

Yossi Mekelberg, perito em Oriente Médio na Chatham House, ONG especializada em política internacional com sede em Londres, concorda que a relação com Obama está levando Netanyahu a buscar novos laços políticos. "Quanto maior a tensão com os EUA e Europa, mais ele vai procurar oportunidades de negócios com a Rússia, Índia e China."

Miséria palestina

Além do acordo nuclear com o Irã, Netanyahu acirrou as disputas com os EUA e a União Europeia por sua forma de lidar com a questão palestina.

A crescente campanha contra Israel conhecida como Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS), vem se alastrando principalmente na Europa - que continua a ser o principal mercado das exportações israelenses. Em 2015, a divulgação de novas diretrizes da UE, pedindo a etiquetagem de produtos cultivados ou fabricados na Cisjordânia ocupada, provocou a ira de Netanyahu.

Desde então, o primeiro-ministro tem procurado ampliar as relações de seu país com outras potências econômicas, como a Rússia, Índia e China. "Fazer negócios com a China não depende de cumprir nenhum padrão de direitos humanos", lembra Mekelberg.

Se a irritação diante das exigências dos EUA e da UE quanto aos direitos humanos é o que está colocando Netanyahu nos braços do presidente russo, é certo que o Kremlin também está tentando tirar vantagens dessa amizade incipiente.

Riscos para Netanyahu

Um dos principais objetivos de Putin tem sido fortalecer novamente o papel da Rússia no mundo da geopolítica - de preferência como uma superpotência absoluta. Ele elevou os preços do petróleo para desenvolver a economia russa e castigou seus adversários políticos até que os preços despencaram, dois anos atrás.

Desde então, tem procurado ampliar os interesses russos na Crimeia, leste da Ucrânia e Síria. Seu apoio militar ao regime de Bashar al-Assad parece tê-lo tornado indispensável em determinar o futuro da Síria - não importa qual ele seja.

De acordo com o especialista Makovsky, laços estreitados com Israel fazem do Kremlin um potencial protagonista estratégico no Oriente Médio. "Pois os russos aprenderam da forma mais dura, nos anos 1970 e 1980, quando estavam armando o Egito e a Síria, que o fato de não terem nenhuma relação com Israel os colocou de fora da diplomacia [do Oriente Médio]. Para a Rússia, é muito valioso tentar fazer o maior número possível de amigos na região."

Tanto Putin quanto Netanyahu esperam lucrar com esse novo relacionamento. A diferença é que, enquanto o chefe do Kremlin não tem praticamente nada a perder, não se pode dizer o mesmo de sua contraparte israelense. Para Mekelberg, Netanyahu está brincando com fogo.

"O risco para Netanyahu é comprometer as relações com os Estados Unidos. Ele está arriscando passar dos limites", avalia o especialista da Chatham House. "Afinal de contas, os EUA apoiam Israel militar, econômica e politicamente de uma forma como a Rússia nunca vai fazer."

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