Eurocopa presencia a volta do hooliganismo

Ronny Blaschke (pv)

Os três dias de violência entre hooligans russos e ingleses em Marselha são retrato de instável cenário político europeu e de islamofobia. Três torcedores são condenados. Em Lille, alemães distribuem saudações nazistas.

O principal foco do reforçado esquema de segurança na Eurocopa 2016 era o terrorismo. Mais de 90 mil policiais e outras forças de segurança foram colocados a postos na França, um país que ainda está sob estado de emergência depois dos atentados de novembro, em Paris.

Durante os preparativos, organizadores do torneio chegaram a mencionar um potencial de violência entre torcedores, mas aparentemente nenhum dos especialistas esperava incidentes graves, como os vistos nas ruas de Marselha e Lille. Cenas que não eram vistas desde a Eurocopa de 2000, sediada por Bélgica e Holanda, quando pancadarias generalizadas entre ingleses e alemães resultaram na detenção de mais de 500 hooligans em Bruxelas e Charleroi.

No último sábado, nos minutos finais do empate em 1 a 1 entre Rússia e Inglaterra, torcedores russos invadiram o setor reservado aos ingleses no Stade Vélodrome e iniciaram uma briga. Tochas e fogos de artifício foram lançados no gramado, e muitas pessoas tiveram que escalar barreiras para escapar de ataques.

O confronto dentro do estádio foi o desfecho de três dias de violência entre ingleses, russos e franceses pelas ruas de Marselha. Câmeras de televisão e de repórteres fotográficos capturaram imagens hostis de homens alcoolizados atirando cadeiras de plástico, barras de ferro e garrafas de vidro uns contra os outros.

A polícia francesa usou repetidamente canhões de água e gás lacrimogêneo. Aproximadamente 35 pessoas ficaram feridas, um inglês em estado crítico. "Vergonha", dizia a manchete do jornal esportivo francês L'Équipe, no domingo.

As várias partes envolvidas na confusão trocam acusações sobre quem é o culpado. Representantes de grupos nacionais de torcedores apontam para torcidas de outros países. De todos os lados, há críticas sobre a atuação da polícia francesa, que está sendo acusada de reagir de forma exagerada nas intervenções. Há também quem afirme que os mesmos policiais têm estado sob níveis extremos de tensão desde os ataques terroristas do ano passado.

A Uefa e os organizadores da Eurocopa 2016 prometeram investigações. Mas uma coisa já é certa: os planos de segurança da França não tiveram muito êxito nos primeiros dias do torneio. Por que não havia uma zona livre separando os blocos de torcedores russos e ingleses no estádio? Como os arruaceiros conseguiram entrar no estádio com fogos de artifício?

Nesta segunda-feira (13/06), uma corte de Marselha iniciou os processos de dez pessoas detidas pela polícia francesa - seis britânicos, três franceses e um austríaco. Todos são acusados de violência envolvendo armas, a maioria contra agentes da lei.

Nos dois primeiros casos, dois ingleses - o cozinheiro Alexander Booth, de 20 anos, e o enfermeiro psiquiátrico Ian Hepworth, de 41 anos - foram condenados a dois e três meses de prisão, respectivamente. Ambos também foram banidos de retornar à França por dois anos.

"Realmente sinto muito. Eu estava no lugar errado na hora errada. Não sou um hooligan", disse Booth ao juiz antes da leitura de sua sentença. Por fim, o francês David Palmeri, de 29 anos, foi condenado a dois anos de prisão por ter agredido três ingleses e roubado bandeiras e camisetas dos torcedores.

De acordo com o promotor Brice Robin, 150 torcedores russos estivavam por trás da violência. "Havia 150 torcedores russos que na verdade eram hooligans. Essas pessoas estavam preparadas para uma ação ultrarrápida e ultraviolenta. Essas são pessoas extremamente bem treinadas." Por isso teria sido difícil prendê-los, disse o promotor.

"Onde está o Estado Islâmico?"

A Eurocopa 2016 tem seu primeiro escândalo, e a violência em Marselha precisa ser entendida num contexto mais amplo. Por muitos anos, o vandalismo no futebol foi negligenciado pela opinião pública. As campanhas de sensibilização se direcionaram ao combate de racismo e homofobia. Mas, nos últimos anos, grupos de hooligans ressurgiram em vários países - e mesmo sendo tão diversos, todos os grupos tem um mesmo objetivo: usar o futebol como arena para a violência.

Hooligans alemães também causaram desordem nesta Eurocopa. No domingo, aproximadamente 50 deles atacaram torcedores ucranianos nas ruas de Lille, distribuíram saudações nazistas e, posteriormente, publicaram fotografias posando com bandeiras de guerra do Império Alemão.

Na Alemanha, hooligans receberam recente notoriedade por atacarem ultras (as torcidas organizadas na Europa) que simpatizam com movimentos de esquerda e antiracistas em partidas de divisões inferiores do futebol alemão. Por um tempo, eles formaram uma rede chamada "hooligans contra salafistas". Há conexões entre os fãs de vários clubes e movimentos nacionalistas alemães.

Desenvolvimentos similares foram registrados na Polônia, Rússia, Hungria, Bélgica e até mesmo na Escandinávia. Hooligans têm disseminado seu ódio contra refugiados e imigrantes. Em Marselha, que é lar para cerca de 200 mil muçulmanos, alguns adeptos ingleses cantavam pelas ruas: "EI, cadê você?", em alusão ao grupo jihadista "Estado Islâmico" (EI).

Ao que tudo indica o ganho político de partidos de extrema direita em vários países da Europa e o aumento da islamofobia no continente são os principais fatores para a volta de uma violência ostensiva no futebol.

Prevenção é o melhor remédio

Haverá outras partidas de alto risco na Eurocopa 2016, incluindo o confronto entre Alemanha e Polônia, na quinta-feira, em Paris. Então, o que pode ser feito?

Autoridades alemãs anunciaram que pessoas classificadas como potenciais arruaceiros estão sendo mantidas sob observação. A Federação Alemã de Futebol (DFB) vende bilhetes para as partidas da seleção alemã somente por meio do fã-clube oficial. Doze trabalhadores sociais alemães estão na França para tentar dirimir problemas. Há relatos de várias detenções de hooligans alemães na fronteira entre Alemanha e França. Nos veículos foram encontradas máscaras e armas brancas.

Tais iniciativas se espelham nos esforços da Inglaterra na década de 1990, quando o país buscava combater a violência endêmica no futebol da década anterior. As primeiras medidas acabaram com os setores em que os torcedores assistiam aos jogos em pé, com os estádios equipados completamente com assentos e lugares demarcados, além da criação de um banco de dados sobre hooligans. Atualmente, tais medidas são vistas como prevenção.

Cerca de 2.500 funcionários dos 20 clubes da primeira divisão do Campeonato Inglês estão envolvidos em programa educativos e de sensibilização, além de organizarem eventos ligados ao futebol em comunidades locais. A iniciativa antidiscriminação "Kick it out" é a ONG mais bem financiada no futebol europeu. Estatísticas mostram que violência e racismo estão em declínio no futebol inglês.

Por isso, as imagens de Marselha são ainda mais chocantes. Elas também sinalizam que muito ainda precisa ser feito. O futebol russo, em particular, ainda está marcado pelo alto grau de violência e racismo. E as autoridades russas têm sido lentas em reagir à pressão da Fifa. A declaração do ministro russo dos Esportes, Vitali Mutko, sobre o caos em Marselha não é exatamente animadora: "O que isso tem a ver com a Copa de 2018?"

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