Moradores de Orlando vão do choque à solidariedade

Miodrag Soric, da Flórida (ca)

Depois do ataque que deixou 49 mortos na boate Pulse, os moradores da cidade tentam se consolar mutuamente. Para elevar as chances de sobrevivência dos mais de 50 feridos, muitos doam dinheiro e sangue.

Sob um tempo úmido e abafado, com 35°C à sombra e sem a menor brisa, centenas esperam pacientemente numa fila. Muitos já estão ali há quatro horas ou mais. Todos querem doar sangue, seguindo o apelo das autoridades em Orlando.

Dezenas de feridos no atentado, em parte em estado grave, ainda estão sendo tratados nos hospitais próximos. Os médicos fazem o que podem, mas os hospitais não estão preparados para um massacre de tal dimensão, e por isso pedem aos moradores que doem sangue.

Dali são apenas cinco minutos a pé até a boate Pulse, onde o atirador Omar Mateen matou 49 e feriu 53 pessoas, antes de ser morto por policiais. Até agora, essa foi a pior carnificina armada da história americana.

Os habitantes da cidade ainda se encontram em estado de choque. Entre eles está Scarlett Phillips, que se mudou há pouco para Orlando com o marido. "Eu tenho filhos. A ideia de passar a noite esperando para saber se seu filho foi morto ou não... isso me parte o coração."

Grande prestatividade

A moradora Lulu Freeman concorda. Ela vive nas imediações da boate Pulse, frequentada principalmente pela comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros). "Muitos dos meus amigos vão lá, também a minha esposa." Freeman comenta como é terrível algo assim acontecer num local aonde as pessoas vão para se divertir.

Dezenas de voluntários fornecem água, sanduíches ou frutas aos que esperam na fila de doação de sangue. Entre eles estão membros da comunidade muçulmana de Orlando, também famílias com crianças. Shehnaz Ali, de cabelos cobertos, é uma dessas pessoas. A nativa do Quênia de 32 anos se mudou há um ano com a família para a cidade da Flórida. "Sinto muito pelos que estão passando por esta situação agora. O islã é uma religião pacífica", assegura.

Sua amiga Zainab Ali, que vive desde 2000 em Orlando, partilha essa opinião. "Fiquei realmente chocada ao saber da notícia do atentado. Tenho filhos pequenos e quero que eles cresçam num ambiente seguro", diz a somaliana de 30 anos. E lembra que o mês de jejum do Ramadã começou há pouco tempo: um período em que os muçulmanos devem ser especialmente misericordiosos.

Também Sadek Eltabba não pode acreditar no que aconteceu em sua nova pátria. Dois anos atrás ele fugiu da Síria para os EUA, a fim de escapar do terrorismo no Oriente Médio. "E agora, terror em Orlando", condena, balançando a cabeça. Ele veio ao banco de sangue para ajudar e quer fazer todo o possível.

Zebra Coalition e The Center

A dez minutos de carro dali, os telefones não param na Zebra Coalition. Numa casa branca de aparência normal, numa rua movimentada, está localizada a central de coordenação de 27 organizações de ajuda humanitária. Os sobreviventes do atentado e familiares das vítimas que acorrem ali são encaminhados a psicólogos ou assistentes sociais. "Muitos voluntários ligam oferecendo ajuda", conta Heather Wilkie, diretora da Zebra Coalition, e é enorme o número de telefonemas.

Rob Domenico, do The Center, uma ONG de ajuda à comunidade LGBT, vivencia uma situação semelhante. Em suas instalações amontoam-se garrafas de água, bolos e biscoitos, mas também pratos quentes, embrulhados em papel alumínio. "São alimentos trazidos por restaurantes ou outros estabelecimentos, não somente de Orlando, mas de toda a Flórida", explica Domenico, que há um ano trabalha como voluntário ali.

Desde o atentado, ele passou a se dedicar "um pouco menos" a seu emprego como especialista de software e a se engajar sempre que pode no The Center. Para Domenico, Orlando é um caldeirão de culturas. "E é justamente isso que nos torna vulneráveis, pois mostramos quão bem heteros e homossexuais podem trabalhar juntos."

Quando soube do atentado, a reação inicial de Rob Domenico foi de choque. Mas logo ele reprimiu seus sentimentos: agora é hora de ajudar, depois vai haver tempo de chorar, convenceu-se o ativista.

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