As raízes do hooliganismo russo

Roman Goncharenko (ca)

Em casa, eles brigam entre si; no exterior agem em conjunto: russos promovem verdadeira caça a outros torcedores nas ruas e estádios franceses e, pela brutalidade e organização, tornam a Rússia a capital do hooliganismo.

Uma suposta testemunha relatou de forma anônima, no portal russo da cena hooligan Fanstyle.ru, os acontecimentos do último sábado no jogo entre Inglaterra e Rússia, realizado em Marselha pela Eurocopa: "Três horas antes do jogo houve um encontro num parque, éramos de 250 a 300 homens".

Segundo ele, havia de tudo: "sem-teto", "carne", "locomotivas", "touros". No jargão dos fãs, é assim que se chamam os torcedores da equipe russa de futebol Zenit, de São Petersburgo, e dos três principais clubes de Moscou: Spartak, Lokomotiv e Dínamo. Depois, descreveu a testemunha, o grupo foi para um lugar onde havia alguns pubs irlandeses e muitos britânicos.

O que aconteceu ali antes da partida entre Inglaterra e Rússia provocou indignação no mundo todo. Torcedores de ambas as equipes travaram sangrentas batalhas de rua com cadeiras e garrafas. A fonte russa anônima escreveu que na "luta principal", perto do porto, participaram entre 100 e 150 hooligans. Esse número é o mesmo mencionado pela polícia francesa.

Depois do jogo, alguns russos empreenderam uma verdadeira caça aos ingleses no estádio. A Uefa, federação europeia de futebol, ameaçou as duas equipes com uma eliminação do torneio, caso os tumultos se repetissem. Torcedores ingleses começaram a brigar entre si - e também com muitos franceses.

Tradição inglesa, prática russa

A batalha entre os hooligans não teve vencedores, explicou o relato, ressaltando, no entanto, que foram colecionados "muitos troféus" - uma referência a bandeiras inglesas. Uma foto mostra um aparente jovem russo em Marselha segurando nas mãos bandeiras inglesas contorcidas. De acordo com a legenda da foto, trata-se de hooligans de Moscou e São Petersburgo.

Em casa, eles brigariam entre si, mas no exterior agem em conjunto. Em torneio internacional, houve tumultos semelhantes durante a Euro 2012 na Polônia, quando russos e poloneses iniciaram uma pancadaria em Varsóvia. Parece ser ironia da história o fato de os russos terem, desta vez, justamente os ingleses como adversários. Pois a cena hooligan russa tem raízes inglesas.

De forma geral, um movimento de torcedores surgiu na União Soviética nos anos 1970 e floresceu após a distensão do conflito entre Leste e Ocidente. Os fãs ingleses serviram como modelo. Também houve a apropriação da agressividade desses torcedores. Na década de 1990 surgiram grupos hoooligans russos, que se atribuíam nomes ingleses como Red-Blue Warriors (guerreiros azul-vermelhos).

Lutas na floresta e clima nacionalista

Inicialmente, o movimento se concentrava em metrópoles como Moscou. Hoje existem, em torno da maioria dos clubes, um ou até mesmo vários grupos hooligans. Números exatos não são conhecidos. Estima-se que cada grupo tenha de 20 a 50 membros. Eles se encontram regularmente para lutar. Tais brigas acontecem geralmente nos arredores da cidade ou numa floresta.

"Os torcedores russos expulsaram os movimentos da 'velha Europa' dos primeiros lugares no ranking hooligan", escreveu Dimitri Lekukh num site de fãs de futebol. Ele próprio é um ex-hooligan e um bom conhecedor da cena. Segundo Lekukh, os russos seriam "mais bem organizados e disciplinados".

A energia e a disposição de violência da cena de futebol na Rússia puderam ser vistas no coração de Moscou, em dezembro de 2010. Mais de 5 mil homens jovens se reuniram na praça Manezhnaya para protestar contra o assassinato de um torcedor durante uma batalha de rua. No final, os hooligans acabaram brigando com a polícia e passaram a perseguir passantes que não tinham aparência eslava.

Essa ação foi co-organizada por grupos de extrema direita. Assim como no Ocidente, entre os torcedores russos, também existem neonazistas. Uma iniciativa em prol da tolerância contabilizou cerca de 100 incidentes de cunho racista na temporada russa de futebol 2014/2015. Alguns observadores acreditam que a cena hooligan russa seria mais nacionalista do que, por exemplo, a inglesa.

Políticos protegem

Também alguns políticos das alas mais à esquerda ou mais à direita tentam instrumentalizar essa atmosfera. Os britânicos "devem sentir o punho russo", escreveu após os tumultos em Marselha o político russo de extrema esquerda Eduard Limonov.

Igor Lebedev, político e membro do comitê executivo na Federação Russa de Futebol, elogiou a ação dos torcedores de seu país: "Bem feito, rapazes", escreveu Lebedev no Twitter.

Segundo ele, a culpa dos tumultos seria da polícia francesa. O político de 43 anos é deputado federal e filho do populista de direita russo Vladimir Shirinovski. Seu Partido Liberal Democrático da Rússia tem tentado, nos últimos anos, ganhar os votos dos hooligans.

Em inúmeras entrevistas, Lebedev procura agora proteger o ministro russo do Esporte, Vitali Mutko, cujo comportamento após o jogo entre Inglaterra e Rússia foi muito criticado pela mídia ocidental. Mutko saudou os torcedores russos no estádio no momento em que alguns deles agrediam fãs ingleses nas arquibancadas. Num vídeo não está claro, porém, a quem o ministro estava se dirigindo exatamente.

Os distúrbios na Eurocopa levantam questões sobre o comportamento dos hooligans na Copa do Mundo que vai se realizar na Rússia, em 2018. Há indícios de que as autoridades russas passaram a agir mais duramente com torcedores violentos.

No início do ano, foi aberto um processo criminal após uma pancadaria em Moscou. Diversos torcedores foram presos, suas residências foram revistadas. Isso seria uma novidade, escreveu o site Gazeta.ru. Segundo informações do jornal russo, alguns grupos hooligans podem ser proibidos na Copa da Rússia.

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