Balé Bolshoi se reergue após era de escândalos

Emma Burrows (ca)

Corrupção e escândalos sexuais mergulharam a renomada companhia de dança russa numa das piores crises de sua história. Com o novo diretor, Makhar Vaziev, Bolshoi volta a investir seu futuro no talento.

Nos últimos anos, o balé do Teatro Bolshoi esteve comprometido por boatos de que somente talento não bastava para um bailarino poder dançar nele.

Inaugurando uma nova era, o recém-empossado diretor artístico do balé do histórico palco moscovita, Makhar Vaziev, reafirma, em entrevista à Deutsche Welle: para alguém se tornar um grande bailarino, "o principal critério é o talento".

Ciumeiras e ataques com ácido

Em 2013, o então diretor da companhia de balé, Serguei Filin, foi atacado na rua com ácido por um homem mascarado. Ele quase ficou cego, sendo necessárias várias operações para restaurar parte de sua visão.

O bailarino e solista Pavel Dmitrichenko, recentemente posto em liberdade condicional, foi condenado por organizar o ataque e sentenciado a seis anos de prisão. O processo judicial pôs em evidência a amarga rivalidade e as tensões dentro do Bolshoi.

Filin havia supostamente negado papéis importantes tanto a Dmitrichenko quanto à namorada deste na época, a também bailarina Angelina Vorontsova. Alegando que Dmitrichenko era vingativo e ciumento, o então diretor da companhia negou ter tido qualquer conflito com o dançarino, sugerindo que ele tentara arruinar sua reputação com falsas acusações de favoritismo.

Desde o ataque, tanto Serguei Filin quanto o diretor geral do Bolshoi deixaram a instituição. Em 2013, a bailarina americana Joy Womack igualmente se demitiu, afirmando que haviam exigido um suborno de 10 mil dólares para ela poder dançar um papel solo.

"Mitos e lendas"

Indagado se os papéis eram distribuídos em troca de dinheiro ou sexo, o novo diretor assegura: "Não houve e não há nada disso."

Vaziev é um estranho no ninho da política do Bolshoi. Ele dirigiu por 13 anos o balé do Teatro Mariinsky de São Petersburgo, antes de assumir o comando da companhia de dança do Teatro Scala de Milão.

"Existem muitos mitos e legendas", observa Vaziev. "O problema é que esta é uma enorme companhia de balé, com ritmo e estilo de vida próprios. Nossa tarefa é mostrar o melhor desempenho no palco. Eu digo a todos os bailarinos: se vocês quiserem preparar e me mostrar alguma coisa, assistirei com todo o prazer."

Fim do clima doentio

A abordagem que parece ter funcionado com os dançarinos, que apontam uma mudança de atitude no teatro, desde que o novo diretor assumiu. No momento, o solista Denis Rodkin dança o papel principal de Ivan, o Terrível; uma peça sobre um dos mais cruéis dirigentes da Rússia, que vivia rodeado de inimigos. Um balé sobre política, poder e sexo - temas que mergulharam o Bolshoi numa era de crises de bastidores.

"Infelizmente, sob a direção anterior, havia um clima bem doentio para todos aqui", revelou Rodkin à DW. "As pessoas ficavam pensando nisso o tempo todo, e não na dança. Agora o clima é novamente criativo, e todos trabalham para mostrar que são os melhores, que têm a capacidade de dançar no palco do Bolshoi."

Essa também é a opinião da solista Anna Tikhomirova: "Assim que o Sr. Vaziev chegou, todos se mobilizaram", conta, numa pausa dos ensaios de Giselle, papel que o novo diretor designou para ela. "Ele assiste a todos os ensaios e aulas; olha todo o mundo e dá a cada um a chance de mostrar o que sabe fazer, inclusive aos dançarinos mais jovens. E eu acho que isso está muito certo."

Disciplina e respeito profissional

A chegada de Denis Vaziev, em março deste ano, marcou o estabelecimento de uma ordem rigorosa, conta Rodkin. "No passado, não havia esse tipo de disciplina. Havia alguma, mas não era tão importante como hoje. Vejo que as pessoas estão realmente se esforçando, as salas deixaram de estar vazias, como antes. Agora todos tentam preparar e mostrar algo."

"Eu diria que Makhar Vaziev está elevando o nível clássico da companhia", observa o solista. "É muito importante para o Bolshoi que se mostre balé clássico, em primeira linha, e depois as coreografias modernas."

Contudo foi justamente devido a esse foco clássico que em 2011 o Bolshoi foi atingido pela partida de dois bailarinos de alto perfil para um teatro menos conhecido. Os solistas Natalia Osipova e Ivan Vasiliev foram para o Teatro Mikhilovsky, em São Petersburgo, dizendo sentir sua criatividade restrita em Moscou.

"Nós não os perdemos, eles ainda estão vivos!", rebate Vaziev. "Há um tipo de bailarino que nasceu com um talento especial. Nenhum teatro pode satisfazer todas as suas necessidades criativas. Quando chega o momento de ele querer tentar algo novo num lugar diferente, por que transformar isso numa catástrofe? É um processo normal. Nossas portas estão sempre abertas para eles."

"Escândalo faz parte de nossa vida"

O Bolshoi trabalhará, de fato, com um desses dançarinos em breve, na turnê em Londres, onde Natalia Osipova é agora primeira bailarina no Royal Ballet. Mas a companhia "não está preparando nada de especial" para a capital britânica, diz Vaziev.

"Um teatro como o Bolshoi tem simplesmente que brilhar por toda parte, em Londres e em outros lugares. Para mim o mais importante é a companhia se apresentar no palco do Teatro Bolshoi. Essa é nossa principal tarefa. Acima de tudo, está o que fazemos para o nosso público aqui [na Rússia]."

Os problemas do Bolshoi parecem não ter afetado a popularidade da casa em seu país de origem. "Vivemos num mundo onde o escândalo faz parte da nossa vida", comentou um visitante durante uma apresentação de Ivan, o Terrível. "Escândalo não influencia a cultura. Estou pessoalmente muito orgulhoso de estar aqui, para ver que a cultura russa tem um lugar na cultura mundial."

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