Tragédia faz Reino Unido rever tom do debate sobre Brexit

Samira Shackle, de Londres (fc)

Embora evitem politizar morte de deputada, britânicos questionam se retórica agressiva das campanhas pró e contra a permanência na UE não estaria tornando o ambiente político tóxico no país.

O Reino Unido passou esta sexta-feira (17/06) introspectivo, após o assassinato da deputada Jo Cox, do Partido Trabalhista. Nas vigílias improvisadas na praça do Parlamento, em Londres, e em Birstall, onde ela foi morta, amigos e apoiadores acenderam velas e depositaram flores.

Cox recebeu homenagens de colegas no Parlamento e fora dele, e de seus muitos amigos que disseram que a deputada era uma pessoa de princípios. Sua morte também levou dúvidas sobre o teor do debate político no Reino Unido.

"Eu tenho vergonha de dizer que eu não tinha ouvido falar de Jo Cox, porque ela parece uma mulher notável que gerou um grande impacto no Parlamento em um curto espaço de tempo", afirma a advogada Tania Brooks. "É muito chocante uma funcionária pública eleita ser assassinada - parece que todo o nosso sistema político está sob ataque."

O Reino Unido está no meio de um referendo sobre a permanência à União Europeia. Tanto a campanha pró quanto contra a permanência do país no bloco foram suspensas até sábado.

"O referendo é um grande exercício de democracia", declarou George Osborne, secretário do Tesouro do Reino Unido. "Mas a campanha foi suspensa, em ambos os lados, em respeito à Jo e sua família - e à democracia à qual ela serviu."

O primeiro-ministro David Cameron cancelou um discurso pró-União Europeia que iria proferir em Gibraltar.

"A suspensão das campanhas foi uma decisão correta", opina o professor James Bride à DW. "Vem sendo uma campanha deprimente, cheia de mentiras e rivalidades pessoais. Dada a tragédia e a grande perda de Jo Cox, eu gostaria de ver todos os lados se comportarem com um pouco mais de dignidade quando a campanha recomeçar."

Debate envenenado

Com as pesquisas de opinião nos últimos dias apontando para uma disputa acirrada, o debate foi intensificado por um tom mais feroz. Políticos dos dois lados acreditam que esta é a luta política de suas vidas e têm feito tudo que está em seu alcance. O debate vem focando cada vez mais na imigração.

Para muitos, isso ficou resumido por um cartaz controverso divulgado pelo Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) no dia em que Cox foi assassinada. Nele, vê-se uma fila de refugiados de pele escura com a legenda: "Ponto de ruptura: a UE falhou com todos nós."

O pôster causou indignação generalizada nas mídias sociais, e o sindicato dos trabalhadores do setor público (Unison) fez uma denúncia à polícia pelo cartaz incitar o ódio social. Boris Johnson, chefe da campanha a favor da saída do país do bloco, afirmou que o pôster não estava em linha com a política dele.

Em uma coluna amplamente elogiada para a revista Spectator, o jornalista Alex Massie resumiu a relação que muitos veem entre este acirrado debate político e o assassinato.

"Quando você grita "ponto de ruptura" várias vezes, você não chega a ser surpreendido quando alguém rompe. Quando você apresenta política como uma questão de vida e morte, como uma questão de sobrevivência nacional, não se surpreenda se alguém leva a sério suas palavras. Você não os fez fazer isso, não, mas você não fez muito para evitar. Às vezes, a retórica tem consequências", escreveu.

Esta é a opinião compartilhada por muitos no Reino Unido. "Eu, pessoalmente, estou muito deprimido com o tom do debate político no país, não apenas nas últimas semanas, mas ao longo da última década", afirma a assistente social Lucy MacFarlane.

"O ódio se tornou normal, não só pela extrema direita, mas pelos políticos do mainstream. Essencialmente, nós estamos realizando um plebiscito sobre imigração na próxima semana. Este evento chocante parece ser o produto natural, devastador, de uma cultura política tóxica", explica.

Politização

No entanto, logo após o ataque, há um cuidado quanto a tirar conclusões. O deputado do trabalhista Neil Coyle, que representa o distrito eleitoral londrino de Bermondsey e Southwark, relacionou diretamente a retórica da campanha a favor da saída do país da União Europeia ao assassinato.

"Eu acho que este tipo de absurdo que eles motivam na internet a partir de contas anônimas e, atualmente, o teor central do cartaz que eles lançaram hoje periga inspirar elementos extremistas da direita neste país", afirmou Coyle no programa Newsnight, da BBC. Ele foi duramente criticado nas mídias sociais por "politizar" a morte de Cox.

Mas muitos analistas refletem sobre a relação entre o tom mais amplo do debate político no Reino Unido e a trágica morte de Cox. "Este ataque não pode ser visto de forma isolada", disse a colunista Polly Toynbee, do jornal Guardian. "Ela ocorre contra um contexto de uma opinião pública repugnante, que vem fomentando o desprezo à classe política, a desconfiança perante aqueles que nos servem e a desumanização daqueles com os quais nós não nos identificamos facilmente", escreveu.

O governo britânico confirmou que políticos foram avisados para rever sua segurança e alertar a polícia local caso tenham quaisquer problemas. Todos os políticos estão atualmente em seus distritos eleitorais - o Parlamento está em recesso até a realização do referendo.

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