Opinião: Brexit não enfraquecerá segurança da UE

Thorsten Benner

Uma possível saída do Reino Unido dificilmente terá um impacto sensível sobre a segurança europeia, opina Thorsten Benner, diretor do Instituto Global de Políticas Públicas (GPPi), de Berlim.

Se você acreditar nos ardentes defensores do Brexit, a União Europeia (UE) está perto de formar um exército conjunto do qual o Reino Unido seria forçado a participar. Para a secretária de Estado das Forças Armadas do Reino Unido, Penny Mordaunt, a única maneira de escapar desse destino é votar pela saída do país do bloco europeu.

Isso é, claro, alarmismo fantasioso.

Mas, se os pesadelos de Mordaunt sobre um exército da UE não estão nem perto de se tornarem realidade, o Brexit dificilmente poderá frear os avanços nascentes em termos de cooperação na defesa europeia, motivados por novas ameaças e pressões orçamentais.

Isso contraria a narrativa de muitos alarmistas contrários ao Brexit. Claro que o presidente russo, Vladimir Putin, e outros antagonistas geopolíticos da União Europeia ficarão contentes se a maioria dos eleitores do Reino Unido decidir dar adeus à UE. Putin acredita que isso desencadeará uma nova fratura política dentro da UE, a qual ele poderá, então, explorar.

Mas, mesmo que movimentos populistas em todo o continente venham a se sentir encorajados pelo Brexit, é improvável que essa situação enfraqueça a segurança europeia. Há muitas forças agindo no sentido contrário.

A lógica de segurança no pós-Brexit é muito diferente da lógica econômica e financeira. Para os países que ficarem na UE, é uma escolha racional fazer que o Brexit seja doloroso para a economia britânica e a City de Londres - e não apenas para garantir os próprios negócios, como também para dissuadir outros de brincarem com a ideia de deixar a UE.

Um Brexit doloroso salientaria a desvantagem econômica de abandonar a UE devido à perda dos privilégios de ser membro do mercado comum. "Fora é fora" é o mantra que o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, destacou em sintonia com o ministro francês da Economia, Emmanuel Macron. Mas, quando se trata de segurança, essa lógica não se aplica.

O Reino Unido tem excelentes meios militares, policiais e de inteligência. Países europeus sabem que serão mais fortes se continuarem cooperando o tanto quanto possível em segurança com o Reino Unido. Portanto, "fora não é fora" quando se trata de segurança.

A cooperação dos serviços de inteligência continuará. E a Europol e o resto do aparato da UE encontrarão arranjos pragmáticos com o Reino Unido a fim de continuar a estreita colaboração na luta contra o crime e o terrorismo. Vai levar tempo e custar esforço para que arranjos mais permanentes de cooperação sejam acertados. Mas as vantagens são evidentes para todos os lados para fazer com que a cooperação policial e de inteligência funcione num pós-Brexit.

De qualquer modo, em termos de segurança militar, a Otan, e não a UE, é o fórum principal. E a Otan continuará tendo as mesmas percepções de ameaças e razões para fornecer segurança coletiva após um possível Brexit. O artigo 5 continuará sendo o artigo 5. O "pilar europeu" dentro da Otan ficará um pouco fraturado, mas isso não prejudicará a essência da aliança militar ocidental. A Otan tem sido capaz de lidar com o excepcionalismo francês já há muito tempo.

Ao mesmo tempo, há sinais encorajadores de que a Otan e a UE estão, finalmente, encontrando maneiras melhores de trabalharem juntas. A cooperação pragmática no âmbito do acordo UE-Turquia e os desafios da migração comprovam isso.

Claro que as capacidades militares da UE serão severamente diminuídas sem o Reino Unido. Mas missões militares da UE são flexíveis quando se trata de angariar contribuições voluntárias de países que não são membros da UE. A UE pode se beneficiar de arranjos específicos sobre contribuições do Reino Unido da mesma maneira que incluiu recursos da Geórgia em suas missões. Em paralelo, os demais países da UE podem decidir melhorar a sua integração militar.

A nova estratégia global da UE, que será apresentada após a votação do Brexit, provavelmente conterá objetivos militares mais ambiciosos para a UE. Estes são espelhados pelo conservador Partido Popular Europeu (PPE) no Parlamento Europeu, que expressou apoio a um quartel-general permanente da UE. Congregar e compartilhar e em especial aquisições conjuntas permanecerão sendo um negócio tedioso entre os parceiros da UE.

Mas pressões orçamentárias, combinadas com a necessidade de melhores recursos, poderão resultar em melhorias. A nova proposta alemã sobre defesa, por exemplo, incluirá princípios promissores para a aquisição conjunta: concordância em um design unificado, em uma nação para liderar o gerenciamento do projeto e em uma divisão de trabalho que considere a produção, com base na vantagem comparativa, e não preocupações sobre a criação de postos de trabalho.

"A Europa hoje está enfrentando uma série de desafios graves de segurança. O Reino Unido terá que enfrentar esses desafios, estando dentro ou estando fora da União Europeia", escreveram 13 dos ex-comandantes militares mais graduados do país em uma carta no início deste ano. O mesmo vale para o restante da UE. Ela terá de enfrentar esses desafios com ou sem o Reino Unido. Claro que seria mais fácil fazê-lo sem as distrações políticas e sem o enfraquecimento político que o Brexit causará no Reino Unido e na UE.

Sem sombra de dúvida, em um ambiente de segurança tão volátil como o de hoje, o Brexit traz riscos reais, mas há poucas razões para acreditar que ele levará a um enfraquecimento fundamental da segurança europeia. A esse respeito, os olhos europeus devem se voltar para o dia 8 de novembro e não para o 23 de junho. A possível eleição de Donald Trump nos Estados Unidos traria riscos muito maiores para a segurança europeia do que o Brexit.

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