Referendo britânico deixa Leste Europeu apreensivo

Jannis Papadimitriou (jps)

Estados-membros da UE na Europa Central e Oriental, como Polônia, Bulgária e Romênia, temem os efeitos negativos de um "Brexit" - e não apenas na economia e na migração.

Após a expansão da União Europeia em direção ao leste, com a inclusão de países do antigo Bloco Soviético, o Reino Unido foi um dos primeiros, entre os antigos membros do bloco, a abrir seu mercado de trabalho aos recém-chegados. Também por esse motivo, mais e mais acadêmicos e trabalhadores qualificados da Europa Oriental chegaram ao país nos últimos anos.

Em 2014, a taxa de imigração líquida (cálculo que leva em conta a entrada de novos imigrantes e os que deixaram o país) alcançou o número recorde de 330 mil, a maioria vinda da Polônia. Atualmente, cerca de 1 milhão de poloneses vivem e trabalham no Reino Unido, além de 200 mil búlgaros e romenos.

Quem já está e quem quer imigrar

Se a saída do país da UE se concretizar, é mais do que questionável que a livre circulação e residência dos cidadãos do bloco no Reino Unido continue assegurada.

"Estamos preocupados com o risco de que, após um Brexit, os trabalhadores poloneses sejam privados de seu direito à liberdade de circulação. Talvez alguns acabem sendo convidados a deixar o país", avaliou Dariusz Rosati, eurodeputado e ex-ministro das Relações Exteriores da Polônia, em entrevista à DW.

Sinais nesse sentido já estão sendo emitidos em Londres e, seja como for, caso os apoiadores do Brexit vençam o referendo desta quinta-feira (23/06), o estatuto jurídico dos trabalhadores do Leste Europeu deixa de estar claramente definido, aponta o político europeu.

O eurodeputado búlgaro Andrey Kovatchev assegura que os trabalhadores e os estudantes de outros países-membros da UE que residem no Reino Unido nada têm a temer, mas a situação é diferente para aqueles que ainda pretendam emigrar.

O eurodeputado grego Militiadis Kyrkos, que representa o partido social-liberal To Potami concorda: cidadãos da UE que trabalham hoje na ilha provavelmente terão permissão para continuar após um Brexit, contudo as novas admissões ficarão cada vez mais difíceis.

Isso seria uma má notícia para os gregos. Pois mais e mais cidadãos do país em crise estão à procura de um emprego no Reino Unido: pelo menos 41 mil partiram desde a eclosão da crise da dívida, em 2010. Além disso, a ilha é considerada um destino preferencial de estudos para a classe média grega.

Reino Unido como parceiro disputado

Para os europeus orientais, o Reino Unido é muito mais do que destino popular para estudar ou trabalhar: o país também é um parceiro político disputado. Os poloneses em especial mantêm relações tradicionalmente estreitas com o Reino Unido, e - não menos importante - ideias semelhantes sobre um modelo dinâmico de economia, em contraste com os franceses e os europeus meridionais, explica Dariusz Rosati.

Há quem veja o acordo com os britânicos como uma alternativa à cooperação teuto-polonesa. Rosati assegura que não se trata de uma questão de substituir a Alemanha pelo Reino Unido: a Polônia precisa de ambos como parceiros.

David McAllister, eurodeputado alemão de ascendência escocesa, que também foi governador da Baixa Saxônia, confirma que a atitude basicamente liberal dos britânicos tem amplo reconhecimento. "Quando se trata de fazer valer a razão na área fiscal e econômica e tornar a UE competitiva em escala global, os britânicos sempre foram parceiros valiosos e confiáveis", explicou o político democrata cristão em entrevista à DW.

Mas economia não é tudo: Londres desempenha um papel especial na política de segurança do bloco, e, no caso da saída do país da UE, essa perda vai ser particularmente sentida na Europa Oriental. Pois uma comunidade de defesa europeia sem os britânicos seria tão impensável quanto uma União Monetária sem os alemães, até porque o Reino Unido possui o maior orçamento militar da UE, à frente da França.

"Considerando as ameaças do Leste e a imprevisibilidade da Rússia, a UE sairia muito enfraquecida pelo Brexit", adverte o ex-ministro Rosati. O eurodeputado búlgaro Kovachev também vê riscos de segurança consideráveis para a Europa, se no referendo os britânicos realmente decidirem seguir sozinhos seu caminho.

Grécia, a próxima?

Neste caso, o Artigo 50 do Tratado da UE forneceria a base jurídica para o processo de saída. Segundo o documento, todas as partes têm pelo menos dois anos para negociar um acordo de saída. Um efeito colateral indesejado é que um adeus do Reino Unido pode desencadear em outros Estados-membros da UE um debate sobre a saída, "se deixarmos a política europeia na mão de populistas", alerta Kovachev.

Vem logo à mente o caso na Grécia: em meados de 2015, os gregos já vivenciaram um referendo que semeou discórdia, relativo à política europeia do premiê esquerdista Alexis Tsipras. No momento, porém, o eurodeputado búlgaro assegura que não há razão para entrar em pânico: "Acho que neste meio tempo esse governo tomou juízo", diz o político socialista.

Para Militiadis Kyrkos, a prova de fogo para o futuro da Europa não é a Grécia, mas sim a França, onde Marine Le Pen pode surpreender com um sucesso na eleição presidencial de 2017.

Apesar das preocupações com os britânicos, David McAllister mostra-se relativamente calmo, pois conta que no final o "bom senso" dos britânicos vá prevalecer. Afinal, todos os argumentos econômicos indicam que o Reino Unido está em melhor situação como membro pleno da UE. Entretanto, seja qual for o resultado do referendo em 23 de junho, "vamos ter que ter um debate fundamental sobre a Europa", adverte o político conservador alemão.

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