Debate em Berlim discute o Rio como cidade portuária

Marcio Damasceno

Segundo participantes, apesar da crise, cidade permanece espelho da cultura brasileira e principal porta de entrada no país. Evento lembra histórico fascínio do Rio sobre europeus.

"Para descrever a cena que nos foi apresentada quando chegamos à Baía de Guanabara, é necessária uma outra pena que a minha; fiquei profundamente comovido por aquela visão, mas seria em vão todo esforço para dar palavras a meus sentimentos. Acredito até que o pincel do mais completo artista, a pena do mais talentoso escritor só poderiam descrever uma pequena parcela da magia que a natureza espalhou sobre este lugar com infinita predileção."

Assim o viajante alemão Friedrich von Weech descreve sua chegada ao Rio de Janeiro em 1823. O êxtase que o europeu sentiu ao avistar a paisagem carioca pela primeira vez, entretanto, logo foi substituído pela decepção com as condições locais. O calor sufocante fazia com que ele e seus acompanhantes ficassem ensopados de suor, e os muitos mosquitos impediram o sono da primeira noite em terra firme.

O tom da discussão sobre o Rio de Janeiro realizada nesta quarta-feira em Berlim na série de debates Cidades portuárias da América Latina em transformação, do Instituto Ibero-Americano (IAI), foi parecido com a primeira parte do texto de Von Weech, cuja leitura serviu para abrir o debate: no começo, prevaleceram as imagens bonitas da antiga capital brasileira. Mas, ao final, não deu para deixar de falar, ainda que superficialmente, da crise na cidade.

O debate, acompanhado por cerca de 40 pessoas, alternou lembranças das visitas ao Rio realizadas por Eva Graumann, chefe de comunicação corporativa do grupo alemão de transporte marítimo Hamburg-Süd, com relatos sobre o passado da Cidade Maravilhosa feitos pela historiadora brasileira Débora Bendocchi Alves, da Universidade de Colônia.

"Uma escola de samba foi até o navio, na Baía de Guanabara, e fez um show só para nós. Minha primeira chegada ao Rio de Janeiro foi algo que não dá para esquecer", recordou Graumann, quando questionada sobre sua primeira visita à cidade pelo mediador do evento, Christoph G. Schmitt, diretor na Associação Empresarial para América Latina (LAV) de Hamburgo.

O público do debate pouco ficou sabendo do Rio em estado de calamidade pública financeira, do Rio violento em que traficantes são resgatados de hospital público por seus comparsas. As obras que estão transformando as áreas portuárias da cidade foram mencionadas, mas não houve aprofundamento do assunto.

Clima não está para Jogos Olímpicos

"O Rio ainda é a capital cultural do Brasil", ressaltou Bendocchi Alves, lembrando a importância que a cidade ainda tem, apesar do momento difícil por que ela passa. Segundo a historiadora, o humor local não está para Jogos Olímpicos, havendo mesmo um certo desinteresse da população. "As pessoas não falam sobre os Jogos Olímpicos", frisou. "Os cariocas estão passando por uma crise econômica e emocional. Mas talvez tudo ainda dê certo."

Graumann, da Hamburg-Süd, observou que, diferentemente de Hamburgo, onde o porto está associado ao cotidiano, o Rio de Janeiro não tem uma imagem tão ligada à região portuária como a cidade alemã. "Comparado com Hamburgo, o porto no Rio tem importância secundária. Mas talvez isso tenha a ver com o fato de os grandes navios não poderem entrar, ao contrário de Hamburgo, onde eles fazem parte da paisagem", comentou.

A série Cidades portuárias da América Latina em transformação, do IAI, incluiu também debates sobre as cidades de Buenos Aires, na Argentina, Valparaíso, no Chile, e Veracruz, no México. O próximo e último evento da série, no dia 12 de julho, será sobre Cartagena, na Colômbia.

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