Eurocéticos festejam Brexit e pedem mais referendos na UE

Jean-Philip Struck

Da França à Itália, populistas pedem que população seja ouvida sobre a permanência no bloco. Perspectiva de novas consultas, porém, é remota, e apoio à UE é grande em outros países.

Políticos eurocéticos celebraram nesta sexta-feira (24/6) o resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Os partidários da saída, ou Brexit, venceram com 51,9% dos votos, lançando temores de que movimentos similares se espalhem por outros países do bloco.

"Vitória da liberdade! Como eu tenho pedido há anos, é preciso que seja realizado o mesmo referendo na França e nos demais países da UE", declarou Marine Le Pen, presidente do partido de extrema direita francês Frente Nacional (FN), em sua conta no Twitter.

Já o deputado holandês Geert Wilders disse que "a elite eurófila foi derrotada, os britânicos mostram à Europa o caminho para o futuro e a libertação". Ele também pediu um "referendo sobre um 'Nexit', uma saída holandesa da UE". Em abril, os holandeses já haviam sacudido as estruturas da UE quando rejeitaram - em referendo - o ingresso da Ucrânia no bloco.

Na Itália, Matteo Salvini, líder do partido eurocético e anti-imigração Liga do Norte, festejou o resultado e disse "obrigado, Reino Unido, agora é a nossa vez".

O Partido Popular dinamarquês, outra sigla eurocética que exige um referendo sobre uma renegociação dos termos do acordo do seu país com a UE, declarou em comunicado que "é ótimo que os autores desta campanha de intimidação tenham sofrido um retrocesso".

Na Alemanha, Frauke Petry, chefe do partido populista de direita AfD, afirmou querer "uma Europa de pátrias". "Se a UE não desistir (...) de sua experiência quase socialista de integração, os povos europeus vão recuperar a sua soberania à maneira britânica", disse.

Falta de capital político

Apesar das celebrações dos eurocéticos, não há previsão de que referendos no modelo britânico sejam organizados em outros países-membros nos próximos meses. Os políticos que celebraram o resultado também não têm capital político para convocarem consultas - ao menos por enquanto.

O partido de Le Pen, por exemplo, só conta com dois deputados na Assembleia Nacional francesa. A sigla de Wilders tem apenas 12 dos 150 deputados na Câmara holandesa. O mesmo ocorre na Dinamarca e na Itália (onde a Liga do Norte e o partido Cinco Estrelas, de tendência eurocética mais suave, não têm maioria).

No momento, nenhum dos líderes que ocupam a chefia de governo ou de Estado de outros países-membros se manifestou favor de referendos. As consultas também podem esbarrar na legislação local. No caso holandês, por exemplo, o jornal alemão Süddeutsche Zeitung afirma que eles só podem ser usados no país para consultar a população sobre tratados que ainda não foram ratificados. Já na República Tcheca, uma tentativa em maio do partido de direita Úsvit de organizar um referendo fracassou no Parlamento.

Apenas a Hungria está preparando um referendo. Porém, o tema não é a permanência do país na UE, mas se os húngaros aceitam o plano de redistribuição de refugiados entre os países-membros, um programa fortemente contestado por Budapeste. A data da votação ainda não foi confirmada, mas ela deve ocorrer ainda em 2016.

Apoio à UE

Uma pesquisa realizada em abril pelo instituto Ipsos Mori mostrou que, apesar de alguns números indicarem haver apoio popular para a realização de outros referendos sobre permanência, não existe uma maioria clara pela saída em outros países da UE.

Na Alemanha, por exemplo, 40% da população apoia a realização de um referendo, mas só 34% afirmaram que votariam pela saída do país da UE. Na França, 55% afirmaram que gostariam de uma consulta sobre o tema, mas apenas 41% disseram ser favoráveis a uma saída. Na Itália, 58% querem um referendo, mas só 48% gostariam de ver o país fora da UE. Na Polônia, apenas 22% querem que o país deixe o bloco. Números similares foram observados na Espanha, na Hungria, na Bélgica e na Suécia.

Uma pesquisa encomendada pela Comissão Europeia no fim do ano passado também mostrou que apoio à UE persiste entre os habitantes do bloco. A visão positiva do bloco passa de 50% em países como Polônia, Romênia, Irlanda e Lituânia, enquanto a maioria nos outros países oscila entre o olhar positivo ou neutro. Sentimentos negativos só são mais expressivos na Áustria, na Grécia e no Chipre.

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