Eleições legislativas consolidam impasse político na Espanha

Santiago Saez, de Madri (av)

A esperança era que o pleito desse fim à atual instabilidade na política espanhola. Em vez disso, confirmou a paralisia das instituições em Madri e pode levar a terceira rodada eleitoral em menos de um ano.

O Partido Popular (PP), do primeiro-ministro Mariano Rajoy, saiu como grande vencedor da eleição deste domingo (26/06) na Espanha. O chefe de governo assegurou 137 assentos no Parlamento, reforçando o papel dos conservadores no poder.

Os oposicionistas do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ficaram na segunda colocação, obtendo 85 mandatos. Foi o pior resultado da legenda em sua história recente, mas, ainda assim, melhor do que se esperava. Contrariando as pesquisas de boca de urna, ao antiausteridade Unidos Podemos coube apenas o terceiro lugar, com 71 assentos.

O resultado mais provável desse pleito será um governo fraco liderado por Rajoy, avalia Antonio Barroso, diretor adjunto para pesquisa do think tank Teneo Intelligence, sediado em Londres.

Embora tenha conquistado 14 assentos a mais do que nas eleições de dezembro, o PP tem poucas opções para formar uma coalizão. Assim, um gabinete liderado pelo partido é "a única alternativa para um impasse que levaria à terceira rodada de eleições gerais em menos de um ano".

Uma coalizão da esquerda está fora de questão, aponta Barroso. "Uma eventual aliança esquerdista entre Unidos Podemos e o PSOE exigiria o apoio das legendas catalãs independentistas, e isso é anátema para os socialistas."

Socialistas com poder de decidir impasse

Desse modo, as chaves do governo de Rajoy estão nas mãos dos socialistas. Como é provável que tanto o Unidos Podemos quanto os independentistas catalães e bascos votem contra um novo mandato do líder conservador, Rajoy precisaria que o PSOE se abstivesse, a fim de evitar um terceiro pleito.

Barroso comenta que pressionar um parlamento empatado seria uma medida altamente impopular, tendo o potencial de "dar a outros partidos a justificativa para se absterem de um voto de nomeação com fim de possibilitar um governo do PP".

Na manhã seguinte à eleição, os cidadãos de Madri mostravam-se divididos quanto à possibilidade de o líder socialista Pedro Sánchez permitir tal cenário. "Acho que o PSOE vai se abster e permitir o segundo mandato de Rajoy", especulou o engenheiro informático Francisco Javier, descontente com os números da votação. "Esse é o pior resultado possível, e o PSOE deverá arcar com consequências, se deixar Rajoy governar novamente."

Aurora, que é bibliotecária, diz ver a Espanha se encaminhando para uma terceira rodada eleitoral. "Se os partidos forem coerentes com o que disseram durante a campanha, não há governo possível. Se isso acontecer, pode afetar o PSOE; senão, vamos continuar como sempre."

Rei indica candidato a premiê

O Unidos Podemos e o Ciudadanos foram os grandes perdedores do pleito de domingo. A legenda antiausteridade liderada por Pablo Iglesias não conseguiu capitalizar sua coalizão com os ecocomunistas do Esquerda Unida. As pesquisar de intenção de voto previam que Iglesias ganharia cerca de 90 mandatos; na prática o grupo de esquerda só conseguiu manter aqueles que já tinha.

O Ciudadanos, de Albert Rivera, perdeu oito de seus 40 assentos no Parlamento, tornando-se basicamente irrelevante na política do país. O grupo liberal - cuja campanha se baseou na intenção de Rivera de se tornar o intermediário entre Sánchez e Rajoy e de manter Iglesias fora do cargo de presidente - foi seriamente atingido pela lei eleitoral espanhola, que favorece os distritos rurais.

Os novos membros parlamentares assumirão dentro dos próximos 25 dias. Depois disso, o rei da Espanha, Felipe 6º, realizará uma rodada de diálogos com os líderes de todos os partidos que detêm pelo menos um assento. Cabe a ele escolher um candidato ao cargo de primeiro-ministro, o qual, então, precisa conquistar pelo menos 176 votos favoráveis dos 350 membros do Parlamento.

Se esse candidato à chefia de governo não obtiver uma maioria absoluta na primeira votação, será realizada 48 horas mais tarde uma segunda, em que basta a maioria simples. É aí que a abstenção do PSOE poderá ser relevante para um segundo mandato de Rajoy. Caso ninguém reúna apoio suficiente para tornar-se primeiro-ministro, será necessário marcar novas eleições, provavelmente em novembro ou dezembro.

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