Opinião: Nigel Farage toma o caminho dos covardes

Rob Mudge

Populista britânico prestou um enorme desserviço ao Reino Unido e à UE e diz agora que quer sua vida de volta. Mas e as vidas que ele destruiu perseguindo suas ambições políticas, questiona o jornalista Rob Mudge.

"Quando cheguei aqui, 17 anos atrás, e disse que queria liderar uma campanha para que o Reino Unido saísse da União Europeia, vocês todos riram de mim. Bem, eu tenho que dizer: vocês não estão rindo agora, estão?"

Essas foram as palavras do populista de direita britânico Nigel Farage, uma semana atrás, no Parlamento Europeu, na sequência do referendo para o país abandonar o bloco europeu: sua "banana" de despedida para Bruxelas. Isso, embora ele vá manter o mandato de deputado, a fim de assegurar que sua visão para o Reino Unido se concretize nos próximos dois - e para continuar a receber os mais de 8 mil euros de salário.

Realmente, quem está rindo por último?

A renúncia de Farage à liderança do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) certamente suscitará muita alegria, mas também desconcerto pelos corredores do poder em Bruxelas e Londres. "Já vai tarde", muitos dirão, mas também há de pairar uma sensação de desconfiança quanto aos motivos dele para estar se retirando.

Bruxelas não gosta de surpresas, e depois que outro paladino do Brexit, Boris Johnson, tombou sobre a própria espada, há bons motivos para considerar se não se trata de mais um episódio numa trama sinistra engendrada pela pérfida Albion e suas personagens de House of Cards.

De fato, não se pode descartar que essa jogada seja parte de um plano maior de Farage para continuar a fazer arruaças no palco da política. Afinal, ele já renunciou duas vezes antes, apenas para se erguer dentre os mortos e "desrenunciar". No momento, contudo, para o populista trata-se de um simples caso de Reino Unido 1, União Europeia 0: trabalho encerrado, a gente se vê lá no pub.

Ao contrário de Johnson - que julgou mal as palhaçadas do Partido Conservador, deixando de perceber uma trama do tipo "César e Brutus" que se desenrolava debaixo de seu nariz -, Farage tem conseguido apunhalar pelas costas sem receber retribuição. Desta vez, ele optou por sair de cena seguindo seus próprios termos. Foi a conquista de uma vida, para isso ele entrou na política. Agora ele quer sua vida de volta, diz.

Mas enquanto Johnson - de modo um tanto inesperado - perdeu o rebolado devido a seus próprios erros de cálculo, que o deixaram sem saída, Farage escolheu o caminho dos covardes. Ele prestou um enorme desserviço ao Reino Unido e à Europa, desempenhando um papel central numa campanha divisora e destrutiva que deixou o país num limbo político e econômico. Ele pode dizer que quer sua vida de volta - e que tenha bom proveito. Mas, e as vidas, carreiras e negócios que destruiu perseguindo suas ambições políticas?

A política britânica já se encontrava num caos homérico mesmo antes da decisão do ex-chefe do Ukip de se retirar. E, diante da posição histórica e importância do Trabalhista e Conservador - os assim chamados "partidos do establishment" que Farage sempre detestou - não se deve dar ao homem e sua legenda mais atenção do que merecem. Mas a manobra dele é representativa do modo como muitos em cargos políticos de influência saltam do navio assim que as coisas ficam pretas demais.

Os britânicos adoram uma personagem e, se não for mais nada, isso Farage certamente é. Anos atrás eu o entrevistei para um dos programas de rádio da DW e, por mais que discorde de suas políticas e ideias absurdas, achei-o carismático, eloquente, inteligente e bem informado.

É por isso que - apesar de toda a desprezível retórica dele sobre imigração e estrangeiros (partindo de um homem que fala francês fluente e é casado com uma alemã) e das tiradas contra uma UE de cujos benefícios e vantagens ele tem se aproveitado - eu certamente me encontraria com ele para uma cerveja no pub dele, num esforço de entender o que propeliu e propele o seu ódio descontrolado pela União Europeia.

A despedida de Farage também significa o fim de seu partido de um homem só. Nada para se sentir saudades, mas quem quiser descartá-lo como um "já era" político, que o faça por sua própria conta e risco. Sem dúvida, pelos próximos dois anos ele infernizará muitas vidas lá em Bruxelas. E Deus é testemunha de que os que ocupam os escalões mais altos bem o merecem. Mas eles deveriam cuidar para que Farage receba uma boa dose de seu próprio remédio.

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