Opinião: Armas são apenas uma parte do problema nos EUA

Ines Pohl

É válido democratas protestarem por leis mais duras, mas a violência armada é apenas um aspecto: racismo, injustiça, deficiências na saúde e educação estão na raiz do mal americano, opina a correspondente Ines Pohl.

Quando políticos e políticas veteranos não encontram outro recurso senão empunhar as armas do movimento de direitos civis, então está claro: está em jogo algo mais importante e maior do que as picuinhas quotidianas dos parlamentares.

Liderados por John Lewis, que já lutou ao lado de Martin Luther King pelos direitos dos afro-americanos, duas semanas atrás, durante todo um dia e uma noite, os democratas americanos promoveram um primeiro protesto sentado no Congresso pelo controle mais rigoroso das armas de fogo no país. Nesta terça-feira (05/07), eles querem repetir a manifestação pois não veem outro meio de forçar a casa dividida a um exame objetivo de sua reivindicação.

Nessa luta, a política americana mostra sua cara mais feia. Aqui fica claro quão incapaz esse país se tornou de decretar leis pelo bem da população, para além das fronteiras partidárias e das estratégias políticas, e não só para a suposta vantagem de um partido ou deste ou daquele político.

Do ponto de vista concreto, a questão é - simples e brutalmente - menos seres humanos perderem estupidamente a vida a cada dia. Mais de 25 mil foram fuzilados apenas em 2015; diariamente morrem sete menores de 12 anos; a cada mês uma média de 50 mulheres é morta a tiros pelo parceiro. As armas já matam mais nos Estados Unidos do que os acidentes de trânsito.

O direito à posse de armas está ancorado na Constituição americana - esse é o principal argumento dos defensores das armas. Quem é de fora estranha, não consegue compreender tal raciocínio. Mas assim é com as heranças culturais: nem tudo que se torna costume numa sociedade é necessariamente adequado à época.

Também na Alemanha há coisas que causam estranheza aos não alemães. Por exemplo, que - por motivos diversos, também históricos e muito pertinentes - o país prefira se manter fora das missões militares no exterior. Porém ao mesmo tempo ganha rios de dinheiro com as guerras em todo o mundo, graças a suas exportações armamentistas que crescem a cada ano.

Não se pode dizer que esse seja um comportamento íntegro. E também nos EUA há muito não se pode falar de integridade: a questão é ter razão e poder nesse sistema bipartidário, em que há muito se deixou de lutar pelo consenso mais sensato.

Em que isso tudo afeta o atual protesto sentado? Talvez vamos voltar a ver imagens fortes, de ativistas veteranos dos direitos humanos passando a noite acocorados no chão. Contudo, também desta vez, eles só conseguirão impressionar aqueles que já estão mesmo convencidos de que é preciso endurecer as leis relativas à posse de armas.

Isso não significa que tal ação esteja errada. Mas ela só pode ser entendida como parte de uma luta por melhores condições de vida para muitos americanos.

Fato é que o tema "violência armada" sempre envolve, também, racismo, educação, injustiça social e um sistema de saúde insatisfatório. Não é por acaso que a maioria dos tiroteios acontece sobretudo nas áreas onde vive uma alta orcentagem de negros.

Está mais do que demonstrado por pesquisadores que estruturas sociais e familiares desfeitas estimulam a violência. E estudos demonstram repetidamente que grande parte dos agressores sofre de problemas psíquicos graves, que não foram tratados por eles disporem de um seguro de saúde insuficiente - ou nem disporem -, não podendo arcar com os custos de diagnóstico e tratamento.

Por esse motivo, só brigar por leis mais duras não passa de uma meia-medida. Os democratas americanos precisam entender que sua luta ostensiva por menos armas nas ruas terá pouco efeitos práticos se cada vez mais cidadãos se sentirem excluídos e desistirem do sonho de um dia poderem partilhar da rica América. Por isso a luta por menos armas sempre implica também a luta por mais justiça.

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