Alemanha x França: duelo inédito entre velhos rivais

Philip Verminnen

Partida em Marselha, para alguns a final antecipada, é o primeiro encontro entre as duas seleções numa Eurocopa. E sinônimo de revanche, longo tabu e lembranças difíceis, para ambos os lados.

Revanche, tabu, lembranças aterrorizantes e, para alguns, a final antecipada da Eurocopa. Praticamente dois anos após o duelo nas quartas de final da Copa do Mundo de 2014, França e Alemanha decidem uma das vagas para a final europeia, nesta quinta-feira (07/07), em Marselha.

São 85 anos de rivalidade, 27 partidas e inúmeras histórias entre os dois países vizinhos - potências europeias, inimigas de guerras e cofundadoras da comunidade comercial que resultaria na criação da União Europeia (UE). Mas ainda há espaço para ineditismo: Alemanha e França nunca se enfrentam numa Eurocopa.

Entre estas inúmeras histórias, a mais recente - e provavelmente a mais marcante - será vividamente relembrada em Marselha. Praticamente todos os atletas de ambos os elencos convocados para esta Eurocopa estavam presentes no Stade de France, em 13 de novembro de 2015 - a data do pior ataque terrorista na França pós-Segunda Guerra.

Enquanto a Équipe Tricolore vencia a Nationalelf por 2 a 0 (gols de Olivier Giroud e André-Pierre Gignac), homens-bomba se explodiram do lado de fora do estádio e terroristas executaram uma carnificina no centro de Paris. Cortado da Eurocopa devido a uma lesão, o volante Lassana Diara atuou como titular naquele amistoso - sua prima foi uma das 130 vítimas dos atentados.

Símbolo de uma França unida, os comandados do treinador Didier Deschamps podem dar uma alegria momentânea à machucada sociedade francesa, conquistando o título da Eurocopa 2016. Para tal, a Équipe Tricolore precisa quebrar um tabu histórico e vingar a eliminação do Mundial do Brasil.

"Nós não esquecemos aquela derrota", garantiu o volante Moussa Sissoko. A euforia tomou conta do país, após a goleada por 5 a 2 frente à Islândia nas quartas de final. O diário francês Le Parisien citou quatro razões para uma classificação da França: o "ataque voraz" com o tridente Antoine Griezmann (quatro gols), Olivier Giroud e Dimitri Payet (três gols, cada); a tática "mais maleável" de Deschamps; uma seleção francesa "mais confiável do que nunca" e "uma dizimada Alemanha".

O treinador alemão Joachim Löw confirmou a escalação de Bastian Schweinsteiger. O volante participou do treinamento que antecede à partida sem sentir dores. "Esclareci as minhas dúvidas. Já tenho a escalação na minha cabeça", garantiu Löw. Com três desfalques confirmados (Sami Khedira, Mario Gómez e Mats Hummels), o treinador alemão enfrentou problemas para definir seus substitutos e o esquema tático.

E a Alemanha tem um belo retrospecto contra anfitriões em semifinais de Eurocopas:

- 1972: 2 a 1 contra a Bélgica

- 1976: 4 a 2 contra a Iugoslávia, após prorrogação

- 1992: 3 a 2 contra a Suécia

- 1996: 1 a 1 contra a Inglaterra - vitória nos pênaltis (6x5)

1958: ano da última vitória oficial francesa

Se, no retrospecto geral, a Équipe Tricolore é superior - são 12 vitórias, 9 derrotas e 6 empates, com 43 gols marcados e 43 sofridos -, a Alemanha leva uma pequena vantagem em jogos oficiais: duas vitórias, uma derrota e um empate. A única vitória da França foi na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, quando o esquadrão francês comandado por Just Fontaine - maior artilheiro numa edição de Mundial - atropelou a então Alemanha Ocidental por 6 a 3.

Em Copa do Mundo, foram três confrontos até agora, sendo o mais emblemático a semifinal do Mundial da Espanha, em 1982 - uma das partidas mais memoráveis da história das Copas: "O Suspense de Sevilha". Naquele 8 de julho, no estádio Ramón Sánchez Pizjuán, teve de tudo. Gol de Michel Platini, gol de bicicleta na prorrogação, disputa por pênaltis e um dos maiores suspenses esportivos que o mundo do futebol já viu.

A voadora de Schumacher em Battiston

A seleção da França, capitaneada pelo agora ex-presidente da Uefa, era um equipe bastante técnica, que tinha com Alain Giresse e Jean Tigana um dos melhores meio-campos dos anos 80 - em 1984 seriam campeões da Eurocopa e, em 1986, eliminariam o Brasil do Mundial do México. Mas o jogo leve dos franceses sofreu com o jogo bruto, de pura força física, dos alemães. Aos 17 minutos, Pierre Littbarski abriu o marcador para a Nationalelf, mas Platini empatou, de pênalti, ainda no primeiro tempo.

Mas foi logo no início do segundo tempo que público presente prendeu e que Patrick Battiston perdeu a respiração. O meia, que havia entrado momentos antes, recebeu um lançamento em profundidade de Platini e teve uma chance perfeita para virar a partida. Foi então que o goleiro alemão Toni Schumacher, num ato de total destempero, voou em cima do atleta francês e o nocauteou com o quadril.

O choque de Schumacher na cabeça do rival foi tão forte que Battiston caiu desacordado, sofreu uma concussão, lesionou a coluna vertebral e perdeu três dentes. Os paramédicos tiveram que administrar oxigênio ainda no campo, e Battiston chegou a entrar em coma no hospital, horas depois. Platini chegou a dizer que achara que Battiston teria morrido, porque "ele estava sem pulso e pálido".

Rivalidade à flor da pele

O lance, que entrou para a história das Copas, ganhou mais notoriedade por dois outros detalhes: o erro do árbitro holandês Charles Cover, que deu tiro de meta, em vez de pênalti seguido da expulsão de Schumacher, e a declaração estapafúrdia do goleiro alemão após a partida: "Se foram só os dentes, eu pago as coroas".

Nos dias seguintes, a imprensa francesa publicou manchetes do calibre de "Atentado a Battiston", "Toni Schumacher, profissão: desumano" e caíram as palavras "Gestapo", "Schumacher SS" e "Tanque nazista".

A crise tomou tais proporções que os então líderes dos dois países, François Mitterrand e Helmut Schmidt, se viram na obrigação de emitir uma declaração de imprensa conjunta, pois o lance havia trazido de volta o ressentimento antigermânico que acreditava-se já superado.

Dias depois, os dois jogadores compareceram a uma coletiva de imprensa para uma reaproximação encenada, mas que de fato nunca se concretizou. Em 2013, quando França e Alemanha comemoraram os 50 anos do Tratado de Versalhes, o Ministério do Exterior da Alemanha propôs à Federação Francesa de Futebol um encontro entre Schumacher e Battiston no amistoso entre as duas seleções, em Paris. Dois representantes da federação francesa ficaram tão indignados que se levantaram da mesa, e os ânimos só foram acalmados quando o lado alemão foi demovido da ideia.

E o jogo em Sevilha? Terminou empatado em 1 a 1, nos 90 minutos. Na prorrogação, a França ampliou para 3 a 1, com Marius Tresor e Alain Giresse, mas Karl-Heinz Rummenige e Klaus Fischer, de bicicleta, no segundo tempo da prorrogação, levaram a decisão para a disputa por pênaltis: nela, deu Alemanha por 5 a 4.

Os quatro jogos oficiais entre França e Alemanha:

Copa do Mundo 1958, na Suécia

Disputa pelo 3º lugar - 28.06.1958

França 6x3 Alemanha

Copa do Mundo 1982, na Espanha

Semifinal - 08.07.1982

Alemanha 1x1 França - no tempo normal - Alemanha 3x3 França, após a prorrogação

Nos pênaltis: Alemanha 5x4 França

Copa do Mundo 1986, no México

Quartas de final - 25.06.1986

França 0x2 Alemanha

Copa do Mundo 2014, no Brasil

Quartas de final - 04.07.2014

França 0x1 Alemanha

Prováveis escalações:

França: Hugo Lloris; Bacary Sagna, Adil Rami, Laurent Koscielny e Patrice Evra; Blaise Matuidi e Paul Pogba; Moussa Sissoko, Dimitri Payet e Antoine Griezmann; Olivier Giroud.

Alemanha: Manuel Neuer; Joshua Kimmich, Jérôme Boateng, Benedikt Höwedes e Jonas Hector; Bastian Schweinsteiger e Toni Kroos; Mesut Özil, Julian Draxler e Thomas Müller; Mario Götze.

Local: Stade Vélodrome, em Marselha.

Horário: 16h (horário de Brasília).

Arbitragem: Nicola Rizzoli (Hungria).

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