"Me xingarem foi mais importante do que me aplaudirem", diz escritor sírio

Danielle Balensifer

Vaiado na Flip por criticar a "sociedade culta e intelectual", o irreverente Abud Said diz que gostou dos brasileiros e de seu humor e que pensa em se mudar para o Brasil.

"Estou seriamente considerando morar no Brasil", afirmou o autor sírio Abud Said em entrevista à DW. O escritor, que vive em Berlim, está no país para o lançamento em português do seu primeiro livro, O cara mais esperto do Facebook.

"Gosto das pessoas daqui. Há uma sensação boa", comentou. Ele disse que os brasileiros são muito irônicos, e que essa característica combina com o humor dele.

Na Flip, a irreverência de Said - e sua a recusa em falar sobre política - lhe rendeu vaias, principalmente quando ele afirmou que "não há sociedade mais doente do que essa sociedade culta e intelectual".

"Em qualquer lugar, em qualquer país existe algo como uma aristocracia, pessoas que se apoderam da cultura. E essas pessoas não querem encarar a realidade", disse Said à DW Brasil, tentando explicar a reação do público em Paraty.

DW: Quais são suas expectativas ao lançar livro O cara mais esperto do Facebook no Brasil?

Abud Said: Estou seriamente considerando morar aqui. Não quero falar sobre o livro. Quero falar que gosto das pessoas daqui e quero ficar mais. Talvez vir morar aqui. Há uma sensação boa. Eu percebo que há algo diferente de onde eu vivo, na Alemanha. Lá há sempre mais "camadas".

O que lhe atrai tanto no Brasil?

Talvez os brasileiros não saibam que são pessoas muito bonitas e que são um símbolo. E há boas chances aqui com meu livro. Eu acho que aqui as pessoas são mais ativas do que em outros lugares.

Quais aspectos do seu livro podem atrair os brasileiros?

Olha, eu estive numa leitura no Rio, numa favela. Depois da minha leitura, um cara veio para mim e disse: "Eu sinto que você é dessa área, você é meu irmão". Isso foi uma sensação enorme para mim e me fez sentir muita confiança em mim mesmo.

Quais são as semelhanças e diferenças entre Brasil e Síria?

Não há muitas regras aqui, como na Síria. E é um país um pouco bagunçado, nem tudo é do jeito certo. Com certeza aqui há uma liberdade maior do que na Síria ou na Alemanha. Não há como comparar o espaço que a liberdade tem. Eu não falo sobre política, eu falo sobre as pessoas, sobre como elas são livres.

Quais tópicos do seu livro podem interessar o público brasileiro?

Não trato de questões tradicionais. Houve as mais diferentes reações aqui. Como eu disse antes, aqui as pessoas são mais ativas. Eu estava em Paraty, e as pessoas mandaram eu me foder. Disseram que eu era merda. Para mim, isso foi mais importante do que me aplaudirem.

O que aconteceu em Paraty, que causas você aponta para a reação agressiva do público?

Realmente tinha muitas pessoas, cerca de mil do lado de dentro e não sei quantas mais do lado de fora. Eram muitas. Parte delas não gostou quando eu não quis responder perguntas sobre o "Estado Islâmico", e os jornalistas que estavam comigo também me perguntaram questões sobre política, e eu não gosto de falar sobre isso.

Eu não quero fazer parte desse jogo sujo. Todas as pessoas fazem isso quando falam da guerra, do "Estado Islâmico", da mídia, da política, e eu não quero fazer parte desse jogo. E eu disse que nunca vi pessoas mais doentes do que essas inteligentes, essas pessoas que dizem se importar com a humanidade e debatem isso em hotéis cinco estrelas. Algumas pessoas não gostaram. Isso é ok pra mim, mas boa parte também me deu apoio.

Mas é normal. É bem melhor assim do que quando as pessoas só dizem que você é bom e pronto. Há opiniões diferentes e eu gosto de falar com o público dessa maneira. Eu ainda não confio na mídia, por exemplo nos jornalistas, eles só querem trabalhar, escrever artigos, eles não se importam com mais nada. E, com certeza, alguém vindo da Síria para falar do "Estado Islâmico" e blá-blá-blá, isso é mel para os jornalistas.

Por que traduzir uma realidade tão diferente para o português?

Não foi minha decisão, o editor me procurou. Ele visitava amigos em Berlim, e por acidente um desses amigos tinha o meu livro. Por ele ser curto, ele começou a ler na hora e gostou. Ele quis publicá-lo em português. É isso.

Ainda sobre Paraty, você diria que o público não entendeu o que você quis dizer naquele dia? Houve uma reação exagerada?

Em qualquer lugar, em qualquer país existe algo como uma aristocracia, pessoas que se apoderam da cultura. E essas pessoas não querem encarar a realidade.

Por que você prefere não ser entendido como porta-voz da Síria? Seus textos não fazem isso?

Não, meu livro é literatura e, se você lê-lo, vai ver que não há opiniões políticas diretas, elas estão nas entrelinhas, na minha vida. Então se você sair para beber umas comigo, para conversar, você vai me ouvir falar sobre minha vida, sobre política e tudo o mais. Mas como uma pessoa normal, não como uma voz da Síria. É uma voz pessoal, é uma voz normal sobre uma vida normal.

Você diria que seu humor sarcástico é o tipo de humor que atrai os brasileiros?

É, de fato. As pessoas aqui são irônicas, e eu sinto que elas gostam do meu livro porque as pessoas aqui gostam de conversar, de rir, de fazer piadas. Elas não são tão sérias.

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