Imigração tende a reduzir criminalidade, mostram estudos

Matthias von Hein (av)

Desde os abusos sexuais em massa do réveillon, sociedade alemã debate correlação entre afluxo de refugiados e criminalidade. Várias pesquisas desmentem essa teoria: imigrantes são, antes, vítimas frequentes de violência.

"Cultura de boas-vindas" foi um dos conceitos que marcaram a Alemanha em 2015. Contudo, justamente na noite em que o ano do acolhimento em massa de refugiados dava lugar a 2016, essa cultura de boas-vindas sofreu um duro revés na cidade de Colônia, e repercutiu para muito além da região.

Ataques sexuais em massa na noite do réveillon perpetrados sobretudo por imigrantes oriundos do norte da África provocaram horror e indignação. Seis meses depois, o Tribunal Regional de Colônia condenou nesta quinta-feira (07/07) a penas de prisão um argelino e um iraquiano no primeiro processo por assédio sexual. Ambos também eram acusados de tentativa de roubo.

Talvez esse processo traga justiça e satisfação às vítimas. O que ele não conseguirá dissipar são as dúvidas, que intranquilizam a população desde o réveillon, sobre se é possível a integração dos refugiados, principalmente dos que vêm de países islâmicos.

Refugiados inocentados

Desde os incidentes em Colônia, discute-se na Alemanha se a chegada de refugiados e migrantes tende a aumentar a criminalidade no país. Na véspera da audiência, porém, a agência de mídia Mediendienst Integration divulgou um estudo desmentindo claramente qualquer correlação entre a origem nacional e a prática de crimes.

O autor, o criminologista Christian Walburg, tomou como base principal as estatísticas do Departamento Federal de Investigações (BKA), comparando-as com os dados sobre imigração. Na maioria dos setores criminais clássicos, não houve acréscimo da taxa de criminalidade média para cada 100 mil habitantes. Isso só ocorreu em dois tipos de delito: assaltos a casas e batidas de carteiras.

No entanto, esses crimes não são cometidos por refugiados, assegura o diretor da polícia da cidade de Braunschweig, Ulf Küch, com base em sua vivência profissional. À DW, ele distinguiu dois grupos de criminosos: "os que vêm do Leste da Europa e os do Magreb". "Mas eles não fazem parte do grupo de pessoas vindas na onda migratória do ano passado", ressalva. Segundo Küch, a grande maioria já reside na Alemanha há anos.

Cultura versus estrutura de boas-vindas

A criminologista Sandra Bucerius, que vive no Canadá, clássico país de imigração, chegou a resultados ainda mais surpreendentes ao estudar a eventual relação entre migração e criminalidade.

"Os estudos em âmbito internacional mostram inequivocamente que a imigração tende a fazer caírem as taxas nacionais de criminalidade, não permitindo que subam", diz. A pesquisadora detectou, contudo, um aumento da criminalidade na segunda geração, em que a falta de integração social é um fator de risco.

"Integração no sistema escolar e no mundo do trabalho, abertura da sociedade perante os imigrantes, a retórica política, os debates realizados num país" são aspectos que Bucerius vê funcionar melhor nas nações tradicionalmente de imigrantes do que nas europeias, "que não têm essa autoimagem". Pode-se dizer que além de uma cultura de boas-vindas, é também preciso uma estrutura de boas-vindas.

Imigrantes como vítimas de violência

Confirmando o ponto de vista da pesquisadora canadense, o criminologista Walburg aponta para as estatísticas: "Imigrantes adultos com acesso ao mercado de trabalho ou perspectivas de entrar nele dificilmente se caracterizam por cometer delitos". Por isso, ele reivindica que se encontrem soluções também para aqueles cuja permanência no país só é "tolerada".

Esses cidadãos estrangeiros "não podem tirar proveito de cursos de idioma, nem têm acesso à sociedade e, acima de tudo, ao mercado de trabalho". Seu estado legal precário os torna especialmente passíveis de cair na criminalidade. O fato de ter perspectivas, por outro lado, os afasta do crime.

O relatório do BKA Criminalidade no contexto da imigração - Dados centrais apresenta resultados comparáveis aos do estudo realizado por Walburg. Os números de janeiro a março deste ano mostram que, apesar do grande afluxo de imigrantes, o número de infrações cometidas por imigrantes caiu 18%.

No entanto uma constatação preocupa o Departamento de Investigações alemão: os imigrantes seguem sendo vítimas frequentes de atos violentos.

"No primeiro trimestre de 2016 continua elevado o nível de crimes, por motivos xenófobos ou pessoais, registrados contra abrigos de refugiados habitados ou em construção, assim como contra (supostos) solicitantes de asilo", diz a pesquisa.

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