Sunderland, a cidade inglesa que não se arrepende do Brexit

Peter Geoghegan, de Sunderland (ca)

Após contagem de votos de referendo em tempo recorde, localidade com 180 mil habitantes chamou atenção da mídia. Grande maioria da população votou a favor da saída do Reino Unido da UE e continua defendendo a escolha.

De certa forma, Sunderland, na Inglaterra, é uma vítima de seu próprio sucesso. A cidade de cerca de 180 mil habitantes foi a primeira a anunciar os resultados das últimas seis eleições gerais no Reino Unido, com o recorde se repetindo desde 1992. As autoridades locais são tão rápidas na contagem de votos que sua expertise é requisitada internacionalmente.

No recente referendo em que os britânicos decidiram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), a situação não foi diferente: pouco depois da meia-noite, Sunderland já havia contado seus votos. O resultado foi inesperadamente enfático: o "leave", a campanha para que Londres deixasse a UE, ganhou por 22 pontos percentuais.

Na esteira do referendo, muitos habitantes de Sunderland reclamaram que a cidade caiu injustamente no foco de atenção da mídia. O morador David Saxon Adamson, de 36 anos, afirma não se arrepender de sua decisão a favor de sair da União Europeia.

"Eu votaria da mesma forma amanhã", diz. Ele não se deixou perturbar pelas atuais previsões de colapso econômico ou pela saída de cena das principais figuras políticas do Brexit, Boris Johnson e Nigel Farage.

"Todo mundo precisa apenas dar uma chance. Vai levar um tempo, mas tudo vai ficar bem", afirma Adamson, enquanto toma sua cerveja da tarde num quieto bar do centro da cidade. Sua companheira Rebecca Clarke concorda. "O que tiver que ser será."

Nenhum amor perdido

Mãe de dois filhos, Clarke votou pelo "leave" porque a Europa "nunca fez nada" por sua família. "Meu pai trabalhava nos estaleiros, mas quando a UE teve início, ele perdeu o emprego", conta.

No passado, Sunderland foi uma cidade portuária, mas caiu no marasmo econômico há décadas. O último estaleiro fechou em 1988. O Estádio da Luz, casa do Sunderland FC, foi construído no local da Wearmouth Colliery, a última mina a fechar na cidade.

Emma Jackson, professora de Sociologia na Universidade Goldsmith, em Londres, relembra a infância em Sunderland, na década de 1980. "Quando era criança, todas as lojas da cidade começaram a fechar [...], e a criminalidade teve início", relata a professora, que foi membro da Kenicke, uma banda pop de Sunderland da década de 1990.

Sunderland melhorou durante o governo Tony Blair, antes da crise financeira internacional, mas anos de austeridade econômica tiveram seu preço. "O que me fez realmente triste foi ver que após um curto período de coalizão (administração liberal-conservadora entre 2010 e 2015), as coisas passaram a andar para trás, lojas fecharam novamente suas portas", diz Jackson.

Reduto trabalhista

Sunderland é um reduto do Partido Trabalhista de longa data. Todos os parlamentares locais pertencem a esse partido, que controla a administração da cidade desde 1974. O vereador Mel Speding afirmou que o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip) é "uma facção de protesto" e que Sunderland, como também outras partes da Inglaterra pós-industrial, é um terreno fértil para uma legenda anti-imigração. Nas eleições gerais de 2015, o Ukip ganhou quase um quinto dos votos no nordeste da Inglaterra.

"As pessoas não querem votar nos conservadores devido ao que aconteceu na década de 1980, o que explica a existência do Ukip", afirma Jackson.

Em Sunderland, os eleitores mencionam frequentemente a imigração como principal preocupação. "Precisamos fechar as fronteiras. Há gente demais entrando no país", diz a bancária Laura Smith, de 19 anos.

Somente 3% da população da cidade tem origem migratória, de acordo com o censo mais recente. Mas Smith diz estar preocupada com as imagens que vê na TV e na imprensa. "Há muçulmanos, e todos estão entrando [no país]."

É difícil ver como o Brexit poderá resolver os problemas de Sunderland, que abriga mais de 80 empresas de capital estrangeiro. A montadora Nissan emprega cerca de 8 mil pessoas e outras 32 mil na rede de fornecedores localizada numa área de 324 hectares numa antiga base da Royal Air Force (Força Aérea britânica), nos arredores da cidade. Mais de 70% dos carros produzidos ali são exportados para a Europa, em sua maioria para países-membros da UE.

Desde 2007, Sunderland recebeu mais de 27 milhões de euros em investimentos diretos da Europa. A expansão do sistema ferroviário, o Centro Aquático de Sunderland e muitos outros projetos foram beneficiados com fundos europeus.

"O que a Europa fez por nós?"

Apesar disso, muitas pessoas em Sunderland afirmam ver poucos benefícios da UE. "O que a Europa fez por nós?" é uma pergunta comum nas tranquilas lojas do centro da cidade.

Para Marie Nixon, presidente-executiva da União dos Estudantes de Sunderland, o voto a favor do Brexit foi uma reação ao "pensamento de que Sunderland ocupa os últimos lugares na forma como somos considerados, na forma como recebemos investimentos".

A Universidade de Sunderland possui uma das maiores taxas de estudantes de países não membros da UE entre as escolas superiores britânicas, e o reitor Chris Howson é um crítico da campanha a favor do Brexit. "Todas as pessoas que nos levaram a essa direção - Johnson, Farage - foram embora", critica.

Como na maior parte do Reino Unido, a população de Sunderland ficou dividida na votação sobre o Brexit, com a maioria dos jovens votando a favor da permanência do país na UE.

Ao mesmo tempo, num café com paredes em tijolo à vista e uma clientela jovem, localizado próximo à estação ferroviária da cidade, Joe, de 25 anos, diz que a atenção dada ao voto a favor do Brexit é o "do que a cidade necessita".

"Eu não acho que Sunderland esteve tanto nas manchetes como tem estado nas últimas semanas. Isso trará resultados positivos no longo prazo. Uma cidade da classe trabalhadora virou as costas para a UE, e as pessoas precisam saber por quê", afirma o jovem.

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